Crítica | Daniel (Stimulantia)

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A pianista e concertista estoniana Käbi Laretei foi casada com Ingmar Bergman durante dez anos, entre 1959 e 1969. Juntos, tiveram um filho, Daniel Sebastian Bergman, nascido em 7 de setembro de 1962. Em Daniel, um dos episódios da antologia Stimulantia (1967), filme sueco cuja proposta era que os diretores entregassem um filme “sobre o estímulo que permite que se lute e se vença o tédio existencial, desde que haja competência e sorte“, Bergman apresenta para o público cenas familiares que vão desde a fase final da gravidez de sua esposa, até a tarde do aniversário de dois anos de Daniel, enquanto ele descansava com sua avó.

Por se tratar de um documentário caseiro, filmado em 16mm e sem reais pretensões cinematográficas — ele só foi transformado em filme porque era para uma antologia com um tema específico, encontrado por Bergman no momento em que se tornou pai de Daniel — não teremos na película o grande apuro estético que tanto esperamos de uma produção do diretor, especialmente nesta fase dos anos 60. No ano anterior, ele dirigira Persona e no ano seguinte, dirigiria A Hora do Lobo. Ou seja, trata-se de um filme iluminado, vital, belo (no sentido “fofo” da palavra) entre duas obras extremamente densas, sombrias e tecnicamente perfeitas de sua carreira. Nada disso será visto no curta Daniel.

Mas mesmo se tratando de um filme familiar, inicialmente sem pretensões, a passagem deste material para o cinema recebeu uma montagem, onde Bergman diz, na introdução, ter escolhido as cenas em que se destacavam o rosto do filho. E é neste ponto que o curta-metragem perde fôlego, mas não pelo que ele mostra. O conteúdo, como já dito, é bonito. É praticamente impossível não gostar de alguma coisa que tenha bebês nela (a não ser que você esteja morto por dentro, claro). Há uma atração paternal/maternal/fraterna na obra, que é difícil de explicar. Por instinto, talvez, nós temos uma aproximação e uma paixão imediata por bebês. Neste filme, porém, a forma como o próprio diretor escolheu montar o material caseiro, atrapalhou bastante a experiência do público.

A interrupção dos takes após zoom da câmera, sem passagem orgânica para uma cena seguinte, a profusão inadvertida de fades entre cenas, especialmente no começo, e a insistência do diretor em mostrar mais do que o rosto do pequeno Daniel, ou seja, partes do ambiente onde não existe nada (é apenas cenário, em outras palavras); vez ou outra em um plano tão fechado que sequer entendemos o que está acontecendo, são coisas que impedem uma melhor experiência.

Tendo o nascimento do filho como um momento de “luz e esperança” em sua vida, é muito bonito e inspirador ver como o diretor utilizou o bebê para trazer a mensagem de “estímulo de luta contra o tédio existencial”. A verdadeira beleza da vida que fala diretamente ao público, uma vez que o “problema” solucionado por este pequeno humano que veio ao mundo, é uma questão nossa, como espécie, independente do tempo e do lugar. Uma nova vida mudando a perspectiva de existência daqueles que estão ao seu redor. Há algo aí que é impossível ignorar. E é isto que faz este pequeno filme ser tão encantador.

Daniel (Stimulantia) — Suécia, 1967
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Ingmar Bergman, Daniel Bergman, Käbi Laretei
Duração: 11 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.