Crítica | Dark – 1ª Temporada

  • Há leves spoilers.

O tom da primeira produção alemã do Netflix é estabelecido logo na primeira cena do primeiro episódio, em que vemos um homem de feições graves deixar uma carta para ser aberta em um dia e hora específicos e, ato contínuo, enforcar-se. Esse evento serve de trampolim para um thriller sobrenatural sci-fi sombrio e significativamente pesado, muito diferente da  leveza presente em Stranger Things, série normalmente usada comparativamente a Dark.

Em Dark, o foco não é em um grupo de pré-adolescentes que precisa enfrentar uma ameaça bem determinada, um mal claramente estabelecido. Sim, há adolescentes e crianças e elas fazem parte da estrutura central da série, mas a pegada é adulta, sem lados bem definidos, sem maniqueísmos, sem tornar fácil gostar de um ou outro personagem. Por outro lado, o aspecto visual sombrio da produção não é gratuito ou artificial, refletindo, na verdade, uma espécie de estado de espírito coletivo representado pela cidadezinha de Winden, localizada à sombra de uma onipresente usina nuclear e encrustada em uma floresta.

Somos apresentados ao grupo principal de personagens sem muita pressa, mas também sem que tenhamos tempo de nos acostumar a eles, de realmente criarmos algum tipo de vínculo com cada núcleo familiar. Na verdade, a criação de Baran bo Odar e Jantje Friese chega a ser opressiva e angustiante, pois não só existe uma permanente nuvem negra de dúvida e pessimismo sobre a cidade e seus habitantes, como a profusão de nomes e personagens é grande e constante, em um fluxo criado propositalmente para confundir o espectador, para impedir que as conexões sejam feitas de maneira completa de imediato.

Portanto, há que se ter paciência para Dark realmente funcionar. Paciência em voltar algumas cenas ou episódios para rever explicações ou acontecimentos ou mesmo para apropriadamente identificar quem é quem. Ou isso ou uma boa memória para nomes e rostos que, ao longo dos episódios iniciais, parecem fungíveis por si só, identificáveis de verdade apenas pelo ambiente que cerca cada um ou por seus respectivos figurinos. É uma arriscada escolha narrativa que, porém, gera frutos se houver perseverança, ainda que alguns episódios tentem ser didáticos ao final com a inserção de imagens comparativas para desanuviar algumas dúvidas.

O leitor reparará que, apesar de mencionar que existem muitos personagens, não abordei o nome de nenhum. E a grande verdade é que esta é uma série que funciona como um azeitado sistema de engrenagens em que o conjunto e o resultado final são muito mais importantes do que cada detalhe. Claro, é perfeitamente possível determinar, sem muito esforço, que o jovem Jonas Kahnwald (Louis Hofmann) é o personagem principal, mas isso vem apenas com o tempo. O policial Ulrich Nielsen (Oliver Masucci, muito parecido com Mad Mikkelsen, aliás), cujo filho mais novo Mikkel (Daan Lennard Liebrenz) desaparece em circunstâncias misteriosas e o coloca em uma espiral descontrolada em sua busca, é outro personagem essencial. Mas mesmo eles são apenas peças de um tabuleiro coeso cujas peças são movimentadas com a precisão de um relógio suíço (não coincidentemente a nacionalidade de Baran bo Odar). Talvez por isso não haja muito espaço para o elenco mostrar latitude dramática, normalmente ficando escravo do esforço de conjunto.

Falei em tabuleiro, mas o ponto é que nós não exatamente enxergamos o tabuleiro, e é isso que torna a série realmente intrigante. Sim, não demora e qualquer um percebe que o artifício narrativo clássico sci-fi, a viagem no tempo, está de alguma forma presente em Dark, mas, como mais para a frente um personagem diz, a máquina do tempo não é um DeLorean ou algo parecido. Há uma sutileza muito grande no trabalho da dupla criadora, que faz de tudo para não facilitar a coisa para ninguém, usando clichês de forma inteligente, lógica e original. É como se a série fosse enfocada primeiro no plano-detalhe e, muito aos poucos, a câmera fosse afastada até o plano geral de forma que vejamos o todo, ou, pelo menos, possamos vislumbrar uma boa parte dele.

A diversão fica por conta dos surpreendentes paradoxos temporais que decorrem da história na medida em que ela é contada, com um ponto de virada no importantíssimo e muito bem cadenciado episódio 5, substancialmente focado em Jonas e que finalmente revela o conteúdo da carta deixada pelo suicida no primeiro episódio. Ainda que depois da metade os novos mistérios não sejam tão bem construídos, os roteiros são científicos na técnica de manter o espectador com o cérebro funcionando em alta rotação, tentando conectar as linhas temporais e as várias versões dos mesmos personagens.

Voltando, porém, à impressão do todo, tão importante para a série, talvez o maior problema dela seja justamente algo que foi proposital: a impressão de que quase nenhum personagem ganhou um arco narrativo que o tenha desenvolvido. De fato, é o que uma análise perfunctória poderia concluir. Eu mesmo, lá pela metade da temporada, estava incomodado pela forma como os mistérios se sobrepunham à construção dos personagens, algo que começou a se dissipar na medida em que as idas e vindas nas linhas temporais começaram a alinhar-se em minha cabeça e eu pude “remontar” a série cronologicamente, algo que me lembrou a primeira vez que assisti Amnésia.

Essa remontagem é essencial, pois, a partir dela, é que começamos a perceber que a situação a que somos apresentados levemente no futuro, em 2019, é como o final de uma jornada, com os personagens já “prontos” e só em retrospecto (literalmente) é que entendemos quem eles são. Compreendemos a rudeza de Ulrich, a obsessão de Hannah (Maja Schöne) e assim por diante. Praticamente nenhum personagem, com exceção das crianças mais novas, como a simpaticíssima surda Elisabeth Doppler (Carlotta von Falkenhayn), é aquilo que parece ser em sua superfície. E não falo aqui apenas de mistérios rocambolescos ou sobrenaturais. Muito pelo contrário, o lado sombrio de cada um da cidadezinha de Winden está muito mais ligado ao mundano, como traições, violência, vinganças e outras “qualidades” muito humanas. A grande história macro lidando com misteriosos personagens que vão surgindo a conta-gotas é, apenas, a cola usada para unir esses mini-arcos não lineares de desenvolvimento.

Aliás, é importante lembrar que Dark é uma série que realmente vive do inusitado e arrisca amontoar perguntas sem respostas, pelo menos até a primeira metade da temporada. No entanto, com o momento de virada em sua metade, mencionado acima, respostas pelo menos parciais a tudo a que antes fomos apresentados começam a aparecer. Claro que, como a proposta é fazer uma série continuada, não há um fim propriamente dito, mas sim um cliffhanger não muito chocante, mas mesmo assim interessante, que abre outra porta na série.

A fotografia tem um papel importante aqui, pois é ela que mantém a unicidade visual de Dark. A luz – muitas vezes natural ou emulando o natural – é esparsa e difusa, mantendo uma constante impressão de dias nublados, tristes e sem vida. Há um ar claustrofóbico também determinado pela presença constante de estruturas opressivas, como telhados baixos (as casas, a caverna, o bunker, a usina nuclear) e as árvores da envolvente e exasperante floresta quase fabulesca (mas fábulas no espírito clássico, assustadoras). Ainda que a fotografia mantenha essa harmonia visual nas várias linhas temporais, o design de produção se esmera em pontuar pistas visuais que facilitam a identificação do “quando” determinada sequência se passa. São as cores e modelos das roupas, os automóveis, a decoração dos ambientes e outros pequenos detalhes – reparem na entrada da caverna, por exemplo – que centralizam a visão do espectador que não precisa de mais esse desnorteamento ao longo da temporada.

Outro elemento essencial para a efetividade da série é a trilha sonora composta pelo australiano radicado na Islândia Ben Frost, que não se acanha em usar notas fortes para marcar os momentos de suspense. Por vezes seu trabalho arrisca ser um daqueles que tenta ditar como o espectador deve sentir-se, mas o conjunto do que ele cria tende a amplificar o sentimento claustrofóbico que a fotografia tenta passar, além de ajudar no envolvimento com os dramas de cada personagem em suas jornadas essencialmente solitárias.

Dark é uma ótima, mas pesada surpresa vinda lá do Velho Continente. Ao reempacotar o artifício da viagem do tempo em uma série adulta que tenta estudar vidas desesperançosas à sombra de uma ameaça nuclear sempre presente, Baran bo Odar e Jantje Friese talvez tenham encontrado uma fórmula vitoriosa que, com o tempo, poderá firmar-se como uma joia no catálogo internacional do Netflix.

Dark (Idem, Alemanha – 1º de dezembro de 2017)
Criação: Baran bo Odar, Jantje Friese
Direção: Baran bo Odar
Roteiro: Jantje Friese, Ronny Schalk, Marc O. Seng, Martin Behnke
Elenco: Louis Hofmann, Oliver Masucci, Jördis Triebel, Maja Schöne, Sebastian Rudolph, Anatole Taubman, Mark Waschke, Karoline Eichhorn, Stephan Kampwirth, Anne Ratte-Polle, Andreas Pietschmann, Lisa Vicari, Angela Winkler, Michael Mendl, Antje Traue
Duração: entre 45 e 57 min. por episódio (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.