Crítica | Dates – 1ª Temporada

estrelas 3,5

A indústria do entretenimento sempre é influenciada pelo contexto em que está inserida. Existem marcos históricos que interferem na maneira como as histórias são construídas e contadas. O cinema hollywoodiano pós-guerra apostou no “meet cute” (encontro ao acaso de maneira fofa entre personagens destinados a ficarem juntos), mas a internet mudou essa dinâmica. A série britânica do Channel 4 Dates (2013) se alimenta justamente dessa vontade insaciável de explorar a relação humana, com foco no primeiro encontro de pessoas que se conhecem virtualmente.

Uma Londres moderna e cosmopolita é apresentada de maneira sexy para provocar os encontros entre as personagens. A série é do mesmo criador de Skins (2007) Bryan Elsley e segue o estilo da narrativa antológica — sem personagens fixos. É interessante não conhecer o histórico do personagem, o que traz uma sensação de desnorteamento enfatizada para caracterizar o programa. Aos poucos, no entanto, alguns personagens assumem destaque ao reaparecer em novos encontros e é deles que o espectador quer saber mais.

Na onda da narrativa transmídia, embora tenha tido apenas uma única temporada, a série se expandiu para um e-book, onde existem novas histórias desenvolvidas para os personagens. Cada um deles tem também um perfil “online” com o nickname, no site do Channel 4, preenchido de acordo com a personalidade deles.

Pode-se dizer que a atriz principal da série é Oona Chaplin (Mia). Ela já havia participado de Game of Thrones e The Hour e a diferença entre os papéis mostra a versalidade dela, que em Dates interpreta uma misteriosa mulher cínica e sensual. Ela faz par romântico, ou melhor, tem encontros com dois homens em diferentes ocasiões na série.

Em geral, os casais variam de interesses comuns e personalidade, e um episódio é voltado para o encontro entre duas mulheres, uma hesitante e a outra dona de si. Explorar encontros praticamente às escuras — como é o caso da internet, em que tudo é uma versão da verdade — é uma maneira interessante de mostrar várias nuances do comportamento humano e revelar personagens com expectativas e intenções que por vezes se distorcem. Para um encontro você se prepara, escolhe a melhor roupa e afia a conversa, e ao assistir Dates o espectador se envolve na promessa de uma noite que pode render um caso passageiro ou algo a mais.

Com 20 minutos de duração, as esquetes comportamentais de Dates tem altos e baixos, embora nenhum episódio entregue um fechamento, só possibilidades. Isso conta como atrativo nesse formato, que possibilita inúmeras maneiras de trabalhar as personagens em outros episódios.

Uma série que carrega algumas similaridades é a norte-americana Love Bites (2011) ao apresentar, por exemplo, a temática de relacionamento e o formato sem uma temporalidade fixa, abrindo espaço para o enfoque de diferentes tramas por episódio.

Sobre o aspecto estético, a fotografia costuma usar o desfoque ao fundo das cenas de close, o que confere uma plasticidade interessante para a cena. Os primeiros episódios eram centrados nos ambientes fechados de restaurantes, o que foi sendo ampliado para o interior das casas dos personagens ou locais que entregam algum traço de característica pessoal, como o lugar onde trabalham.

Algumas histórias são mais cativantes e sensuais que outras, que por vezes se tornam um pouco enfadonhas, mas isso está inserido na proposta do programa em apresentar diferentes tipos de encontros, uns são ruins, outros valem uma segunda vez.

Dates – 1ª temporada – (2013)
Criador: Bryan Elsley
Roteiro: Bryan Elsley com colaboradores
Direção: John Maybury (3 episódios), Philippa Langdale (2 episódio), Charles Sturridge (2 episódios), Sarah Walker (1 episódio), Paul Andrew Williams (1 episódio).
Elenco: Andrew Scott, Katie McGrath, Greg McHugh, Will Mellor, Sheridan Smith, Ben Chaplin, Neil Maskell, Oona Chaplin, Gemma Chan, Montana Thompson, Sian Breckin, Katie McGrath.
Duração: 20 min. (cada episódio)

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.