Crítica | Daunbailó

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estrelas 4,5

O que pode haver de mais gritante em Daunbailó (tradução fonética exata do título original, Down By Law) dentro do crescimento narrativo composto por Jim Jarmusch é a formação de dois filmes em um numa mesma história: a abertura, propositalmente letárgica, morta, sem vida, silenciosa e fantasmagórica começa a ser corrompida a partir de sua metade e dá vida a aventura de teor cômico inesperado, singelo, comovente e esperançoso. Em resumo, Daunbailó é um filme de mais camadas do que se imagina em princípio.

Já tendo como seu propulsor o sucesso de seu segundo longa-metragem, Estranhos no Paraíso (seu primeiro, ao contrário do que já li afirmarem por aí, é o hoje desconhecido Permanet Vacation), Jarmusch explora sua liberdade independente e de baixo orçamento para falar sobre aqueles personagens marginalizados e à deriva da sociedade que se logo se tornariam a cara do cinema independente, aqueles rostos sem presente e (aparentemente) sem futuro, amargos e desesperançosos, vítimas de um sistema que os enxergava quase como um descarte de uma vivência submunda. No caso, temos o cafetão Jack (John Lurie) e um DJ desempregado Zack (Tom Waits) que são vítimas de circunstâncias que os levam a serem levados para a prisão, ali entrando em conflito com suas personalidades fortes e tão intensas. Nisso, entra em cena um novo rosto que irá dividir a cela com Jack e Zack e que, justiça seja dita, irá ditar todo o tom seguinte da obra: Roberto (Robert Benigni), um animado e excêntrico italiano que mal fala a língua inglesa e se encontra preso por ter matado um homem com uma bola de bilhar.

Deste encontro de personalidades distintas, Jarmusch desenha seu mosaico desconstrutivo sobre um momento de inevitável espera pelo futuro, sobre a ação da libertação e sobre o vislumbre de um novo caminho para cada um daqueles três personagens. É até um tanto difícil acompanhar os primeiros minutos de Daunbailó. O apego de Jarmusch em primeiramente falar sobre o nada ao redor de Jack e Zack é tão preciso que o filme pode soar incompreensível e sem conexão com quem está do lado de fora da tela. Este apego, entretanto, é estritamente necessário (leia-se, não é chato, se for compreendido com corretude) para que o impacto da mudança de tom seja sentida com clareza quando ela acontece. E ela acontece.

We all scream for ice cream!”, grita em determinado momento o personagem de Benigni, num quê contagiante de alegria e animosidade que contagia todos os residentes da prisão. É tal cena que nos diz para onde Daunbailó irá a partir dali, rumo à procura pela liberdade. Daí, os três personagens (numa interação digna de Os Três Patetas) se formam nesta aliança bizarra onde conseguem fugir da prisão (num momento não mostrado por Jarmusch e que é claramente dispensável para o todo), onde o imobilismo enfim dá lugar a um road movie minimalista em busca de algo no mundo que traga o sonhado novo cotidiano aos três fugitivos.

Importa muito para Jarmusch não apenas a interação contínua dos rostos, mas também o humor tão peculiar, sofisticado e agridoce sobre pessoas que vivem suas vidas num preto-e-branco constante (o diretor de fotografia Rob Miller, o mesmo de Paris, Texas, oscila com extrema inteligência entre suas entonações e iluminação), e uma trilha sonora pontual e tão competente em traduzir os sentimentos do momento, sejam eles de angústia ou agitação (a mesma, por sinal, é assinada pelos próprios Waits e Lurie).

Jarmusch ainda dá a chance para uma ponta de Nicoletta Braschi (esposa de Benigni na vida real) no ato final que deixa sua história aberta a possibilidades. Novos caminhos são postos à frente e são seguidos, ali incertos e sem muita clareza até onde levarão, mas que deixam também no ar o principal sentimento do qual Jarmusch se apega: a esperança.

Daunbailó é uma pérola.

Daunbailó (Down by Law) — Estados Unidos, Alemanha Ocidental, 1986
Direção: Jim Jarmusch
Roteiro: Jim Jarmusch
Elenco: Tom Waits, John Lurie, Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Ellen Barkin, Billie Neal, Rockets Redglare, Vernel Bagneris
Duração: 107 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.