Crítica | DC Elseworlds – Liga da Justiça: O Prego

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estrelas 4,5

Por falta de um prego, perdeu-se uma ferradura. Por falta de uma ferradura, perdeu-se um cavalo. Por falta de um cavalo, perdeu-se um cavaleiro. Por falta de um cavaleiro, perdeu-se uma batalha. E assim, um reino foi perdido. Tudo por falta de um prego.

George Herbert

Com base na interpretação de um poema de George Herbert, publicado na coletânea Jacula Prudentum (1651), esta minissérie desenvolve uma ideia interessante sobre a organização, vida, problemas e sobrevivência dos super-heróis e vilões da DC Comics se um prego tivesse furado o pneu da caminhonete dos Kent e o bebê kryptoniano que viria a ser o Superman não tivesse sido resgatado e colocado em uma trilha que o tornaria um grande exemplo a ser seguido, um exemplo de união, do combate ao mal; uma mensagem de esperança, força, coragem e justiça para a Terra. Acontecida no hypertime, Terra-898, essa é uma das histórias mais interessantes dentre as tramas do Universo Alternativo da DC, que já foi chamado de “Túnel do Tempo” nas publicações aqui no Brasil.

Na realidade de O Prego, temos a mídia manipulando opinião pública, influenciando uma “caça aos meta-humanos”, ideia que parece ter vindo de uma das fases mais sombrias dos X-Men, na editoria concorrente. A má relação dessa sociedade americana com tudo o que é diferente da maioria começa a ganhar ainda mais adeptos e reportagens especiais pelos canais de TV afora, quando Lex Luthor vence as eleições para a prefeitura de Metropolis pela segunda vez. Sua gestão anterior fora pautada por ideais de intervenção da máquina pública para geração de empregos no setor de segurança e nenhum escrúpulo na detenção de criminosos, dando imediatamente resultados econômicos e diminuindo grandiosamente a violência urbana, engrossando a voz de racistas e xenófobos que viam nos estrangeiros, aliens ou pessoas “fora daquela comunidade” (entram aí os meta-humanos) como a verdadeira causa de todos os males.

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Sem o Superman, a Liga da Justiça existe. Mas está “faltando algo”, tanto para eles quanto para a comunidade heroica em geral.

Escrita e soberbamente desenhada por Alan Davis, a saga é marcada pelo lema de “separar para conquistar“. A parte da população que inicialmente via nos heróis uma salvação, passa a ver em Luthor esse nome e, diante das melhorias sociais feitas pelo prefeito, adotam, pouco a pouco, o discurso de que na verdade os humanos não precisam desses super-heróis, afinal, eles não viviam para fazer o bem. Eles criaram toda uma imagem de necessidade, com diversas invasões e ameaças planetárias para amedrontar o povo e dar a impressão de que todos precisavam deles, quando a realidade não era nada parecida com isso. Sem os heróis, não existiria medo e nem invasões fabricadas. O mundo seria um lugar melhor.

É muito triste vermos esse tipo de discurso ligado aos extremos de opinião sobre liberdades individuais e políticas em quadrinhos e notar que, em certa medida, a mesma “preocupação e sentimento” social fazem parte de determinados grupos na nossa realidade. Claro que Alan Davis tirou isso de líderes e organizações fascistas com certa relevância na História da humanidade, mas vendo esse tipo de coisa ganhar a dimensão que ganha aqui, ainda mais com notícias fabricadas para dar a impressão de que o comportamento particular de alguns heróis representam toda a comunidade heroica (não é a primeira vez, na ficção ou na realidade, que vemos coisas muito erradas brotarem da ação bestializante de julgar o todo pela parte) nos coloca para pensar com uma pontada de pesar e medo nas amostras desse pensamento que encontramos hoje em dia.

O mais interessante é que à medida que a situação social se agrava, os próprios heróis e alguns que se afastaram da comunidade começam a contestar o modus operandi dos colegas e de si próprios, dando vazão aos que queriam vê-los presos. Dividir para conquistar. Estando o Gavião Negro morto, tendo o Arqueiro Verde se transformado em um fascista após se tornar tetraplégico em uma de suas lutas ao lado da Liga… e algumas perdas bastante icônicas acontecendo ao longo das edições (como Batman ver o Coringa despedaçar Batgirl e Robin diante de seus olhos, o que resulta na morte do palhaço pelas mãos do morcego, tudo televisionado justamente no momento em que a tragédia aconteceu e exibido na TV apenas a parte cuidadosamente selecionada, sem nenhum contexto), é como se víssemos uma sociedade inteira caminhar para um recrudescimento de forças políticas e militares tendo um ideal de “a nação acima de todos” como mote.

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Lanterna Verde vs. Major Desastre e Conde Vertigo. Batman vs. Coringa. Mulher-Maravilha vs. Homens Metálicos mentalmente dominados. Flash vs. Amazo.

Mas além de fazer um trabalho admirável no roteiro, com uma ótima relação dos heróis da DC no período pré-Crise (apesar deste ser uma história fora da continuidade) e uma tremenda crítica social, Davis realiza um grande feito na arte da minissérie, tendo os seus desenhos também muito bem finalizados por Mark Farmer.

A diagramação aqui não é particularmente memorável, ela é apenas bastante eficiente. A noção de ritmo da história consegue ser passada nos mais diversos cenários, dentro e foda da Terra, o que dá a impressão que mesmo nas reuniões e diálogos reflexivos há algo muito importante acontecendo nos quadros. É um senso de urgência que Davis consegue principalmente pela sua predileção por planos cheios de referências para os leitores e, sempre que possível, por composições de vários heróis dentro do mesmo quadro ou cena, dando à história uma aparência épica sem precisar de muito esforço narrativo, que é justamente o que acontece aqui, embora o artista coloque os heróis em missões particulares — seguindo os passos da Liga da Justiça da Era de Prata — e utilizando desses momentos para dar a cada um dos membros da equipe uma bela página solo lutando contra um vilão ou salvando o dia de alguma forma.

As boas sequências de luta, a boa transição visual entre sequências em lugares diferentes e a elogiável interação dos Renegados e da Patrulha do Destino na história, que funciona bem tanto no roteiro quanto na arte, trazem a grandeza e relações entre grupos necessária para a minissérie e todos estão à mercê das políticas de Luthor e de um vilão que não sabem quem é. Outro ponto interessante é como cada equipe discute e interpreta as investidas de perseguição que os meta-humanos estão sofrendo, tendo a própria Liga uma grande sequência em que cada um levanta hipóteses sobre estas opiniões da população serem algo apenas do “calor do momento” e que eles não devem tomar nenhuma ação porque isso irá passar. Depois que descobrimos quem é o vilão (pelo menos para mim foi uma imensa e ótima surpresa, embora não tenha sido nada épico em termos de personagem), um tipo de “intriga plantada”, tão típica de uma determinada espécie, tudo passa a fazer total sentido.

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Caçador de Marte vs. Guardas de Luthor. Mulher Gavião salvando crianças. Eléktron vs. Amebas de Segurança do Pensador. Aquaman vs. Mestre do Oceano e Saqueadora Marinha.

Há uma pequena ponta de confusão no meio da primeira edição, mas é um aspecto do roteiro que passa rápido e não possui um impacto negativo grande, exatamente como a não tão interessante inclusão da Tropa dos Lanternas Verdes na história. De resto, a saga dessa realidade sem o Supermen como exemplo para diversas gerações de heróis é construída com bastante competência e tem um final absurdamente emocionante, daqueles capazes de fazer os leitores mais sensíveis lacrimejarem um pouco.

Sem forçar a barra nas consequências pela ausência de um ícone como o Homem de Aço e mantendo a curiosidade que só é saciada nos quadros finais da série (se a cápsula com o bebê kryptoniano caiu na Terra e os Kent não adotaram o bebê, quem adotou? Onde está o Superman?), Alan Davis cria aqui uma das melhores histórias do Universo Alternativo da DC. Uma história que mostra a importância da representatividade, da convivência respeitosa com os diferentes (mesmo que não se concorde com suas ações) e dos estragos que a mídia corrompida e a histeria social costumam fazer a pessoas e sociedades. Uma história que, infelizmente, cabe como uma luva aos nossos tempos. Um alerta de perigo para qualquer mundo.

DC Elseworlds – LJA: O Prego (Justice League: The Nail) — EUA, 1998
No Brasil:
 Liga da Justiça – O Prego N° 1 a 3 (Editora Mythos, 2002 – 2003) e encadernado em 2005; DC Comics – Coleção de Graphic Novels N° 19 – LJA: O Prego (Eaglemoss, 2016).
Roteiro: Alan Davis
Arte: Alan Davis
Arte-final: Mark Farmer
Cores: Patricia Mulvihill, Heroic Age
Letras: Patricia Prentice
Capas: Alan Davis, Mark Farmer, Patricia Mulvihill, Lee Loughridge, Heroic Age
Editoria: Peter Tomasi, K.C. Carlson
152 páginas (encadernado Eaglemoss)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.