Crítica | DC Elseworlds – Liga da Justiça: Outro Prego

plano critico liga da justiça alan davis outro prego

estrelas 3,5

Publicada seis anos após a excelente O Prego (1998), minissérie que mostrava uma realidade onde o Superman não tinha sido salvo pelos Kent e, portanto, não tinha se tornado um herói inspirador para a geração da Era de Prata (considerando o andamento da cronologia DC nesta realidade alternativa), a saga O Outro Prego mostra os eventos de um ano depois daquela batalha da Liga da Justiça e de um recém encontrado Kal-El versus um vilão improvável, conhecido apenas na reta final da história.

A premissa do primeiro prego se mantém como essência deste segundo, mas a “falta” ou “o elemento simples que fez um reino se perder” é modificado para algo mais geral, galático, iniciando com aquela que é definitivamente a melhor parte da toda a minissérie, tendo vertentes narrativas interligadas: a Tropa dos Lanternas Verdes em Oa e através do Universo; os planos de Darkseid em Apokolips e de Izaya, o Pai Celestial, em Nova Gênese. Há algo muito perigoso “à solta” no Universo e cada grupo com suas forças cósmicas pretende ter controle do fenômeno; alguns para proveito próprio, com ganas de dominação… e outros para impedir que dominadores insanos se aproveitem dessas forças e da possível nova ordem que gerariam para estabelecer um Reinado do Terror.

Por um momento, não há nada além de excelentes batalhas, discussões sobre o alcance e legitimidade da Tropa em interferir nessas questões pontuais, algo que eles não devem fazer, por princípio. O roteiro de Alan Davis traz novamente impasses morais de primeira ordem, com o Vingador Fantasma, Espectro e Desafiador ocultando ou se negando a falar o que estava para acontecer, mas manipulando e direcionando os heróis para alguns caminhos, gerando desconfiança, ira e ações precipitadas. A Terra, a Terra-2 (até o Sindicato do Crime aparece aqui!) e outros planetas do Universo passam a sofrer as consequências da “ameba cósmica” que cresce e suga toda a energia, mexendo no equilíbrio das coisas, extinguindo a vida. E ainda mais interessante, esta não é uma força maligna.

plano critico tropa dos lanternas verdes liga da justiça o outro prego

Uma grande gerra da qual ninguém quer participar.

Como estamos acostumados a olhar o mundo e as tramas das histórias em quadrinhos de maneira binária, custa um pouco para apreendermos o sentido geral do que o autor nos quis passar aqui e, neste aspecto, a culpa não é dele, pois este olhar é um desafio. A falha não é a concepção do problema, da criação deste Outro Prego. A falha é que o elemento que funcionou perfeitamente na primeira versão, com a revelação do vilão apenas no fim, não funciona aqui. E para terminar de colocar lenha na fogueira, há uma desnecessária miríade de grupos envolvidos, alguns praticamente jogados na história como buchas de canhão e que nem no final são justificáveis, já que a intenção do texto era apontar para outro lugar, mexer com a nossa perspectiva e noções de julgamento moral para depois voltar ao problema e apontar o quanto estávamos errados, caminho que o autor continuaria seguindo em algumas histórias.

Então temos o Superman. Quando a Liga enfim ganha espaço na trama, há um quê de emoção e ausência em jogo. Kal-El faz parte do grupo e é um herói tímido e preocupado, algo que podemos facilmente classificar como “personalidade fofa”. Em contrapartida, Batman se desligou dos amigos, se recolheu ainda mais. Perturbado pelas mortes que viu na saga anterior ele se sente culpado e não quer mais trabalhar em grupo, com medo de que coisas ruins também aconteçam aos seus colegas de equipe. Essas diferentes camadas de relacionamento e status da Liga da Justiça aos poucos são mescladas ao problema cósmico em andamento, mas não é uma ligação orgânica. O roteiro apresenta isso sob pontos de vista diferentes e em cenários onde acontecem coisas completamente aleatórias, parte delas vindas do primeiro prego e outra parte criada aqui. Falta foco.

Com muitos grupos de heróis, vilões e uma grande força drenando a energia do Universo, as coisas se afunilam atropeladamente para uma batalha final, que tem um caráter anticlimático aterrador, o que não combina em nada com o que vinha sendo plantado desde o início. Tudo aquilo para uma participação de redenção do Arqueiro Verde? Não dá para engolir facilmente. Mas isto é a história como um todo. Se o leitor considerar apenas os pontos individuais certamente encontrará momentos incríveis de parceria, demonstração de amizade, amor e brincadeiras entre amigos que são características das melhores histórias de grandes grupos de heróis nos quadrinhos. É um sentimento conflitante, mas tem razão de ser.

plano critico realidades convergem liga da justiça o outro prego

Realidades convergem. Quantos personagens da DC você consegue nomear neste painel?

Embora menos dedicada aos heróis de maneira individual, a arte de Davis e a finalização de Mark Farmer, com cores de John Kalisz são um grande espetáculo. Os painéis de luta, por mais que dê a impressão de desorganização, possuem um ritmo interno maravilhoso. Vejam o painel das realidades convergindo, por exemplo. O meio possui um movimento que leva o nosso olhar para as bordas das páginas, enquanto a parte alta se resolve com um redemoinho à direita e com dispersão de personagens (gerando equilíbrio) no centro. Já a parte baixa possui focos simples de organização, normalmente mostrando personagens indo para direções opostas, tendo os espaços compensados pela proximidade/tamanho com que são desenhados. A mesma dinâmica cuidadosa de distribuição podemos ver no topo da página da luta dos Lanternas Verdes.

Como bom colorista que é, Kalisz conseguiu criar atmosferas das mais diversas ao longo da história, jamais desprezando o fato de que temos lugares, heróis, vilões, poderes e contextos diferentes para as lutas e, em cada uma delas ele escolhe um filtro, explosão ou dispersão de cor bem preciso, dando não apenas o tom visual da história mas criando uma variação de cor que é muito bem-vinda para a minissérie, nos ajudando, inclusive, a divisar melhor os blocos dramáticos e seu apelo, visto que nem sempre o roteiro é claro quanto a isso.

No todo, O Outro Prego é uma história muito boa. Ela está aquém da primeira versão, mas ainda assim consegue divertir e nos fazer torcer ou esperar para grandes revelações no final. Claro que nem todos esses elementos funcionam bem e a construção do texto acaba forçando situações ou se perdendo parcialmente no desenrolar da guerra cósmica diante de tantos personagens. Mas o produto ainda é animador e mantém vivo o espírito heroico aliado à capacidade de saber trabalhar em equipe, reconhecer limitações e confiar nas pessoas que se ama.

DC Elseworlds – Liga da Justiça: Outro Prego (Justice League: Another Nail) — EUA, 2004
No Brasil: Liga da Justiça – Outro Prego (Panini, fevereiro a abril de 2005)
Roteiro: Alan Davis
Arte: Alan Davis
Arte-final: Mark Farmer
Cores: John Kalisz
Letras: Patricia Prentice
Capas: Alan Davis, Mark Farmer, John Kalisz
Editoria: Peter Tomasi, Stephen Wacker
50 páginas (cada uma das 3 edições da Panini, lançadas em 2005)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.