Crítica | De Canção em Canção

estrelas 2

Em que ponto chegou, de fato, o cinema de Terrence Malick?

Assistir a De Canção em Canção é encarar novamente todos os cacoetes visuais e estilísticos que o cineasta tomou para si (cacoetes ou simplesmente identidade?) para pensar e repensar sobre até onde este novo caminho beneficia esta nova parte da filmografia de Malick. A Árvore da Vida foi o estopim para essa divisão de águas causadas pelas ideias e conceitos de Malick e o abstracionismo cada vez mais presente a cada projeto seu lançado, e levando em consideração a inédita (já não mais) correria do diretor filmar vários filmes simultaneamente e lançá-los um atrás do outro (os vinte anos de hiato entre os anos 70 e 90 já parecem distantes), não há como não se perguntar: o que Malick quer agora?

E perguntas talvez sejam justamente o que De Canção em Canção nos deixa após seus 120 minutos onde acompanhamos o início de um triângulo amoroso ambientado na cidade de Austin, no Texas, e que ao longo do caminho se desenrola num crescendo de fases, sentimentos, interesses e música. E dentre as perguntas mais pertinentes, a que incomoda é: estaria Malick tão apaixonado pelo viver de hoje para ter deixado de lado o seu apego tão humanista pelo registro da história dos EUA?

Igualmente, De Canção em Canção nos obriga a indagar sobre para onde o cinema de Malick caminha. Hoje, seus filmes já não são formados por uma forma específica, por uma narrativa de convencionalismos, por uma sucessão de imagens que permitam a imediata compreensão do que se acompanha em tela. O cinema de Malick ainda é deveras desafiador, isso não se nega, mas se permanece recompensador, aí já temos em mãos um grande questionamento.

E é claro, o cinema de Malick é tão “ficar em cima do muro não dá” que tentar apontar qualquer coisa definitiva sobre seus dizeres ou significados já seria uma atitude completamente errônea, uma vez que seus filmes exigem mais da subjetividade do que nunca.

O que realmente pode ser um primeiro fato sobre De Canção em Canção é o quanto este, enquanto filme, difere pouquíssimo tanto de A Árvore da Vida quanto de Amor Pleno ou Cavaleiro de Copas, o que por si só já denota uma repetição questionável no cinema de Malick. Tudo está ali, desde a narrativa fragmentada, a fotografia exuberante que penetra e invade a câmera inquieta do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, e no meio disso tudo, a eterna busca pelo divino tendo como pontapé inicial, o amor. De Canção em Canção pode facilmente se confundir como uma mera colagem de todos os filmes citados com outros rostos. E será que isso já não denuncia a própria fragilidade repetitiva do retrato pintado por Malick? Até mesmos seus personagens, encarnados por rostos tão conhecidos como os de Rooney Mara, Michael Fassbender, Ryan Gosling, Natalie Portman e Cate Blanchett, parecem sucumbir às intenções do roteiro em transgredir a si mesmo, teatralizando os movimentos dos corpos no objetivo de acentuar os discursos filosóficos e existencialistas que saem de suas bocas, mas prejudicando um envolvimento maior devido a falta de solidez destes personagens, simplesmente inalcançáveis.

E por mais que De Canção em Canção ainda não nos defina nada sobre o que é o cinema atual de Terrence Malick (e por isso as perguntas deixadas no ar), é visível uma certa acusação no rodopio no qual Malick está inserindo sua identidade, seja ela temática ou visual. De qualquer forma, sua representação artística ainda é forte e das mais resistentes no meio do cinema autoral e pensante deste século, mas será que é o suficiente para Malick se sustentar e não cair no vazio do qual há anos lhe acusam?

De qualquer forma, fica a recomendação: rever De Canção em Canção é uma atitude obrigatória, gostando ou não.

De Canção em Canção (Song to Song) — EUA, 2017
Direção:
 Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Ryan Gosling, Rooney Mara, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Lykke Li
Duração: 129 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.