Crítica | De Encontro Com a Vida

De Encontro com a Vida (2017) Plano Crítico

Baseado na vida de Saliya Kahawatte, autor e empresário de descendência cingalesa, De Encontro Com a Vida (2017) é uma comédia dramática alemã sobre a batalha contra adversidades e deficiências pessoais para se alcançar um sonho. Escrito por ZiegenbalgToma, o longa-metragem traz uma mensagem calorosa. Tratando de um tema relativamente delicado — a colocação de pessoas com algum tipo de deficiência no mercado de trabalho versus a incompatibilidade dos serviços “oferecidos para esse tipo de pessoa” e os sonhos profissionais que elas possam ter –, o texto mostra, através de uma trilha cômica, romântica e sóbria a descoberta do deslocamento de retina do personagem (interpretado por Kostja Ullmann) e sua lenta e incomum disposição diante dessa descoberta.

A cargo de Geldreich e Jean-Christoph Ritter, a trilha sonora tem um destaque mais que especial aqui, um papel importante na criação da identidade do filme, servindo, assim como a edição e mixagem de som, como caminhos especiais para construir a personalidade de Sali e sua percepção do mundo. Mesmo que em muitos momentos o diretor Marc Rothemund (de A Garota das Nove Perucas) abandone boas possibilidades de trabalho com o desenho sonoro, os ruídos de garrafas se abrindo, de vozes ou outros sons do ambiente que servem para o protagonista se orientar são apreciados como auxiliares de sentidos no decorrer da trama. Neste ponto, temos apenas um problema, nas cenas em que Sali consegue ouvir coisas a uma distância muito grande, mesmo quando exista uma enorme propagação de som ao redor, vide a cena da balada. Não dá para digerir muito bem essas habilidades de Demolidor que ele parece desenvolver, saindo um pouco do realismo básico da trama. Ainda bem que o enredo não se ancora nisso para avançar.

Kostja Ullmann cria um Sali por quem o espectador nutre imediata empatia. No início, o tratamento para a perda da visão do personagem faz com que ele assuma uma postura um pouco desconfortável para o ator, mas isso vai aos poucos se tornando parte de seu dia a dia e nossa visão a respeito de seu enfrentamento da dificuldade também muda — ou se acostuma. O fato é que Sali tem uma visão positiva das coisas e uma imensa força de vontade, perseguindo o seu desejo de ter formação em Gestão Hoteleira, usando desse conhecimento, depois, para seguir com um empreendimento próprio. Esse esforço ganha, no sumo do roteiro, uma aura de falsidade sociopolítica, ao fazer loas à meritocracia, mesmo que o próprio filme apresente, à guisa de gancho dramático e romântico, situações que provem exatamente o contrário. Ao final, a impressão de perseguição de sonhos como uma certeza para a vitória na vida e no mercado de trabalho encontra a realista frustração e a visão de que “querer”, “correr atrás”, “se esforçar” e “ter talento” nunca é o bastante.

A amizade entre Salia e Max (Jacob Matschenz) coroa a base da película com o que tem de melhor, muito mais do que a linha romântica da obra. A cumplicidade entre os dois amigos, surgida desde o primeiro dia do encontro, se desenvolve com ajuda mútua e um tratamento normal para Salia por parte de Max, inclusive com a crueldade fraterna que todos os bons amigos possuem um para com o outro. O roteiro é inteligente a ponto de não tratar a deficiência visual como uma muleta para construir uma “história de vida sofrida”, apelando para o melodrama.

Com uma história calorosa e um final capaz de nos arrancar um enorme sorriso, De Encontro Com a Vida faz pensar sobre a difícil jornada para se alcançar um grande desejo; sobre a eventualidade de estar no lugar certo e na hora certa (ou seja, de ter sorte); e sobre estar cercado de boas pessoas, amigos e familiares capazes de nos fazer ver além, nos apoiando nas quedas e festejando conosco nas vitórias. Um feel good que a despeito dos tropeços com os personagens, com a montagem das cenas de tarefa no Hotel (embora a fotografia interna, nesses momentos, seja a melhor do filme) e com o estranho tratamento final da linha amorosa; nos faz ver o mundo com outros olhos. Mesmo que estes tenham apenas 5% da visão comum.

De Encontro Com a Vida (Mein Blind Date mit dem Leben) — Alemanha, 2017
Direção: Marc Rothemund
Roteiro: Oliver Ziegenbalg, Ruth Toma (baseado na história de Saliya Kahawatte)
Elenco: Kostja Ullmann, Jacob Matschenz, Anna Maria Mühe, Johann von Bülow, Alexander Held, Nilam Farooq, Sylvana Krappatsch, Michael A. Grimm, Kida Khodr Ramadan, Johanna Bittenbinder, Rouven Blessing, Henry Buchmann, Samira El Ouassil, Ricardo Ewert, Herbert Forthuber
Duração: 111 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.