Crítica | De Olhos Bem Fechados

estrelas 5Na abertura de De Olhos Bem Fechados, enquanto uma despida Nicole Kidman se arruma elegantemente para ir a uma festa ao lado de um charmoso Tom Cruise, ouvimos o alegre instrumental de Dmitri Shostakovitch, Valsa 2, enquanto aqueles dois personagens se vestem de maneira apropriada para o evento ao qual estão se encaminhando. Pouco antes do casal deixar o recinto, a música é interrompida, e neste momento, sem nenhum tipo de artifício e tendo como mérito apenas suas simples imagens, Kubrick nos deixa claro que a partir dali, aquelas aparências serão apenas a capa para uma sucessão de momentos onde o verdadeiro eu daquelas figuras será dissecado.

Porque De Olhos Bem Fechados é exatamente sobre isto: a desconstrução das aparências. Tendo como impulso o cotidiano de um casal cuja realidade é posta à prova com diversas verdades vindo à tona, Kubrick constrói uma de suas obras mais intimistas, reflexivas e atmosféricas. Curioso notar que esta última realização do diretor (Kubrick faleceu cinco dias após entregar o corte final ao estúdio) foi recebida com certa frieza na época de seu lançamento, o que se analisarmos melhor, acaba sendo compreensível, pois de De Olhos Bem Fechados é um daqueles filmes onde o olhar sobre o ser humano acaba sendo tão verdadeiro e visceral que nosso primeiro impulso é, inevitavelmente, virar o rosto para não encarar a verdade.

E como o diretor (e ser humano) pessimista que era, Kubrick faz emergir dos personagens seus desejos mais profundos e seus desejos mais obscuros. Desta forma, o diretor elaborar uma narrativa episódica, de passagens longas, cujas concepções em muito se assemelham a um pesadelo daqueles capazes de esvaírem o nosso sono. O que não é uma reação descabida: a coleção de imagens concebidas por Kubrick aqui, rivalizam, de igual pra igual, com muitos dos momentos de O Iluminado como as melhores cenas de horror já concebidas pelo próprio diretor e pelo Cinema. De Olhos Bem Fechados é um filme de horror, sim. Mas um horror cuja origem se encontra no intimo do próprio ser humano e da sociedade que o cerca.

Baseado no conto Traumnovelle, de Arthur Schnitzler, Kubrick troca o cenário de Viena da obra original por uma sombria Nova Iorque, onde acompanharemos as desventuras do casal, especialmente as do Dr. William Harford (Cruise), que após uma ligação de um de seus pacientes, caminha pelas ruas da cidade e se vê frente a frente com diversas realidades surreais e perturbadoras.

De início, o filme se assume como um estudo ácido sobre as relações conjugais e suas implicâncias morais, onde desejos devem ser suprimidos, sonhos devem ser sacrificados e imagens devem ser criadas para que aquele casal possa, enfim, viver de acordo com os padrões de uma sociedade que nega seu verdadeiro intimo. Kubrick disseca tudo isto de maneira brilhante, crua e intensa, onde diálogos hipnóticos e fascinantes despem tudo o que há por trás daquelas aparências.

Duas sequências destacam essa realidade escondida: durante uma festa, Alice (Kidman) flerta com um homem que acabara de conhecer, cujo objetivo é claramente levá-la para uma noite de sexo; ao mesmo tempo, William, flerta com duas modelos que possuem o mesmo objetivo para com o médico, algo que acaba sendo interrompido quando William é chamado para uma pequena emergências. Alice, entretanto, segue flertando com o desconhecido, respondendo às suas investidas, mas sempre ressaltando o fato de ser uma mulher casada. Os objetivos jamais são levados á frente, mas Kubrick deixa a pergunta no ar: o que seria do resto da noite daqueles dois se não fosse o enlace conjugal entre ambos?

A resposta surge minutos seguintes, enquanto o casal fuma maconha em seu quarto, e novas indagações vão surgindo, questões pertinentes entre o casal são levantadas, e revelações sobre desejos sexuais reprimidos acabam sendo ditas. Kubrick a irracionalidade do ser humano diante de seus desejos impulsos, denotando sua particular visão sobre o ser humano: somos animais em busca de satisfações pessoais. Mas este é apenas o início da odisseia surrealista de Kubrick.

Quando William sai noite afora, o leque se abre e novas realidades ocultas são reveladas. Entre encontros com prostitutas, um amigo de juventude, uma loja de fantasias e uma festa pagã (onde temos a tão polêmica cena da orgia), Kubrick nos faz questionar sobre a veracidade daquilo que estamos vendo, do que esta à nossa frente. Vivemos num mundo tão mergulhando em aparências e preocupado com a imagem, que quando outras verdades surgem diante de nossos olhos, o primeiro ato acaba sendo o de negação. Kubrick nos desafia a constatar a veracidade daquela realidade ao construir uma narrativa que soa quase como um longo sonho de uma noite, mas que ao acordarmos, nos parece ter sido extremamente real.

É um filme de horror mergulhando em verdades perturbadoras, levando o espectador a entrar numa espécie de transe durante as duas horas e meia de projeção. Sentimo-nos desconfortáveis e incomodados, mas apenas porque Kubrick nos obriga a encarar o nosso próprio eu em tela, aquele eu escondido e adormecido em meio às aparências. Kubrick disseca isto como um mestre, elaborando planos e enquadramentos precisos e fazendo uso de uma trilha sonora minimalista, que martela notas em nossa cabeça de maneira insistente e macabra. E a sequência do ritual pagão, apesar de ser especialmente lembrada devido aos momentos de orgia, torna-se marcante justamente por se tornar a síntese sobre o que é De Olhos Bem Fechados: todos os convidados estão com o rosto coberto por máscaras, e podemos ouvir as vozes por trás daquelas faces escondidas, mas jamais sabemos quem são as verdadeiras personas por trás daquela (e olha aqui a palavra de novo) aparência.

E o diálogo final, que finaliza a projeção de maneira abrupta, comprova o fato de que o ser humano, apesar de seus esforços, ainda não se encontra emocionalmente preparado para enfrentar sua própria realidade, seu próprio eu, e decide permanecer aprisionado dentro das convenções morais propostas pela sociedade:

“Acho que devemos agradecer por termos conseguido sobreviver a essas aventuras, tendo sido elas reais ou apenas um sonho.”

“E o que acha que devemos fazer agora?”

“Trepar.”

Stanley Kubrick encerrou sua carreira com um dos mais brilhantes filmes de horror já feitos sobre um dos muitos lados obscuros do ser humano.

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, EUA/Reino Unido, 1999)
Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em romance de Arthur Schnitzler
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Sidney Pollack, Leelee Sobieski, Alan Cumming, Todd Field, Vinessa Shaw, Christiane Kubrick
Duração: 159 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.