Crítica | De Pernas pro Ar 2

estrelas 2,5

De Pernas pro Ar 2 não é um grande filme. A comédia de erros tipicamente hollywoodiana é divertida, possui os seus bons momentos, mas não consegue se destacar como uma continuação autêntica. O que ocorre é a repetição do tema do primeiro filme, com apenas algumas alterações. No entanto, a comédia, ao lado de Minha Mãe é Uma Peça, representou 80% do faturamento nacional em nosso parque cinematográfico.

Para um país que há décadas busca a sua identidade cinematográfica, bem como um perfil industrial mais substancial, tais dados não podem ser desconsiderados. Com o custo de U$10 milhões, a produção reforça as políticas de incentivo e apoio que dominam o cinema brasileiro, com relações entre estado e iniciativa privada.

Dirigido por Roberto Santucci, a trama traz Alice (Ingrid Guimarães) como uma empresária bem sucedida, colhedora dos frutos do filme anterior. Juntamente com a sua sócia Marcela (Maria Paula), ela se entrega a uma exorbitante tarefa de abrir a primeira filial em Nova York, mas para isso, precisa de um bom produto erótico. O sexo não deixou de fazer parte de sua vida. Graças aos problemas na primeira incursão, Alice aprendeu a dar mais atenção ao marido, mas mesmo com a vida sexual em ordem, o excesso de trabalho ainda faz parte da sua agenda diária.

Viciada em projetos e trabalho, Alice começa a dar sinais de cansaço ao sucumbir e desmaiar durante o lançamento da centésima loja no Brasil. Guiada pelo médico, ela precisa passar uma temporada em um spa para tratamento, sob a vigilância da rígida Regina (Alice Lacerda). Lá, o celular é proibido, tendo em mira ajustar o organismo e colocar em ordem todas as obsessões e ansiedades.

O grande conflito é que os negócios estão bombando. Como lidar com a loja chegando aos Estados Unidos e as vendas no Brasil? Será que Alice vai conseguir se controlar? Os remédios tarja preta já fazem parte do seu cotidiano, mas agora nem os medicamentos estão dando conta. Depois de conseguir convencer que melhorou parcialmente no spa, Alice programa férias com a família, tendo em mira mostrar para o marido e o filho que deixou o trabalho de lado por um tempo, mas o seu interesse é conseguir aliar o passeio com uma reunião fundamental para o contrato que promete a primeira loja internacional.

No que diz respeito aos aspectos dramatúrgicos, os personagens continuam no mesmo patamar, sem evolução considerável. Bruno Garcia interpreta o marido cheio de boas intenções, interessado no bem estar da esposa. Com alguns resquícios machistas, acha que a mulher deveria pensar menos em trabalho. Já no quesito conflitos, o filme é fraco ao estabelecer crises, tal como o triângulo amoroso entre Garcia, Ingrid Guimarães e Eriberto Leão, elemento frágil do texto que se dissolve através de uma simples elipse, apetrecho narrativo que por sinal, é usado com frequência durante todo o filme.

Lançado em 2012, a produção de 99 minutos foi a primeira projeção cinematográfica brasileira via satélite em duas sessões especiais, no Rio de Janeiro e em Santos. O final, como já esperado, deixa em aberto a possibilidade de uma continuação em Paris, na França. Basta esperar para ver se a produção sairá, pois de acordo com Mariza Leão, De Pernas pro Ar 3 só ganhará vida se houver um roteiro que o justifique. Dinheiro tem, segundo a produtora, mas ainda falta uma boa ideia.

O filme é cosmopolitismo puro: a vida na cidade grande, a ferveção dos grandes centros urbanos, os elementos da sociedade do consumo, bem como a presença da cultura cibernética como uma faca de dois gumes, pois ao passo que o espaço virtual disseminou os meios de comunicação, tornou as pessoas dependentes e alvo de doenças e mazelas, tal como o estresse vivido pela personagem de Ingrid Guimarães.

Mania de limpeza, ansiedade e déficit de atenção. Estes são apenas alguns dos problemas dos internados no spa, mas nada é pior que a presença do celular como um algoz na vida destes indivíduos que se sentem perdidos no espaço quando não estão conectados.

Ao passo que o filme avança, percebemos que estamos diante de uma poderosa produção dentro da indústria cultural brasileira, mesmo que a narrativa tenha as suas fragilidades dramatúrgicas. Lembro-me que em 2010, durante um congresso na área de Comunicação, no Rio de Janeiro, uma mesa redonda discutia o nosso setor de produção cultural, alegando que o espaço passou por transformações e aumentou substancialmente o número e o perfil de seus consumidores. Um dos fatores a ser considerado é a ascensão social de parte da população, bem como a popularidade dos canais de distribuição. De Pernas pro Ar 2 faz parte deste entorno, basta aguardar o terceiro filme.

De Pernas pro Ar 2 — Brasil, 2012
Direção: Roberto Santucci
Roteiro: Marcelo Saback, Paulo Cursino
Elenco: Alice Borges, Bruno Garcia, Christine Fernandes, Cristina Pereira, Denise Weinberg, Eduardo Mello, Eriberto Leão, Ingrid Guimarães, Luiz Miranda, Maria Paula, Pia Manfroni, Rodrigo Sant’anna, Tatá Werneck, Wagner Santisteban
Duração: 97 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.