Crítica | De Pernas pro Ar

De Pernas pro Ar

estrelas 3,5

A comédia sempre foi um gênero forte no que tange o relacionamento do público com as produções brasileiras que conseguem chegar aos cinemas, dentro do circuito mainstream, diferente de tantos bons filmes que só encontram espaços em festivais e espaços denominados “alternativos”. De Pernas pro Ar é uma das produções que demarcam este retorno das grandes comédias escrachadas ao circuito. Piadas, estereótipos, exageros e uma pitada de linguagem televisiva são alguns dos elementos que caracterizam esta produção que consegue ir além do trivial e ousar, mesmo dialogando com traços tradicionalistas que os personagens lutam durante o filme inteiro para se livrar.

A trama nos apresenta a histriônica Alice (Ingrid Guimarães), uma mulher bem sucedida, casada com João (Bruno Garcia) e com um filho, no auge da carreira como executiva de uma empresa de brinquedos. Workaholic típica dos filmes estadunidenses, ela de repente se encontra numa situação inesperada: é demitida, e para piorar, abandonada pelo marido no mesmo dia. Resumindo: sente-se uma mulher derrotada, diferente de tudo que sempre achou que fosse.

Acostumada a tentar lidar sempre com o equilíbrio entre trabalho e família, Alice agora precisa arranjar uma forma de se reinventar. Para isso ela precisará aceitar a ajuda de Marcela (Maria Paula), sua vizinha, responsável por mostrar como é possível relacionar a vida profissional com os prazeres da vida terrena. Atenta ao perfil de Alice, Marcela a convida para ser sócia de um sex shop falido. Numa tática que segue o “estilo Avon” (de porta em porta), elas conquistam muitos clientes e ganham empoderamento no mercado. De volta ao jogo, Alice agora precisará lutar para recolher os cacos do seu casamento e reorganizar a sua vida.

É neste ponto que o cineasta Roberto Santucci, longe das temáticas dramáticas de Bellini e a Esfinge e Os Alucinados, produções bem realizadas, perde a mão, pois o que era para ser contra-hegemônico acaba se mesclando com o hegemônico, como se a profissão e a família não pudessem coexistir para as mulheres. Não podemos deixar de dizer que com muita graça, a obra retrata a mulher como protagonista em um círculo de misoginia, e, ao ganhar empoderamento no mercado de trabalho, avança como personagem protagonista, pois em nossa cinematografia, as mulheres poucas vezes ganharam este tipo de destaque.

O filme surgiu de uma leitura do diretor. Enquanto folheava um jornal, leu uma matéria sobre uma mulher que vendia produtos eróticos de porta em porta. Interessado, levou o projeto adiante e o transformou em um filme. Tendo Ingrid Guimarães e seu equilibrado timing cômico, a comédia segura bem às partes muito desconectadas. O elenco coadjuvante cumpre o necessário, sem grandes destaques.

Seguindo a linha Sex and The City ao falar abertamente de masturbação feminina, orgasmo e sexo foi um avanço da produção dentro de um circuito pouco atento a este tipo de material, mas tal como José de Alencar fez com a sua heroína no romance Senhora, no século XIX, De Pernas pro Ar faz com a sua heroína Alice. Ela pode até vencer, conquistar espaço, mas em certo ponto, terá que escolher entre continuar tendo sucesso ou dividi-lo com o que se convencionou para as mulheres: a felicidade através do casamento e da constituição de uma família.

Ao longo de seus 97 minutos, o roteiro de Marcelo Saback e Paulo Cursino apresenta-se indeciso, pois prega que a mulher deve ir atrás do prazer e descobrir o que lhe faz bem, mas para isso, precisa pagar “certo preço”.  Mas mesmo com o impasse, o filme deixa disponível o arquétipo feminino pouco comum em nosso cinema, isto é, a mulher guiada pela determinação, consumista, bem sucedida. No fundo ela também quer ser salva pelo casamento, mas a sua postura engajada e o seu sucesso já apontaram como um bom começo.

Em 2011, ganhou o prêmio do júri popular de Melhor Filme no Festival de Cinema Brasileiro de Miami, além de ter levado 3,6 milhões de brasileiros ao cinema e ganhado uma continuação ainda mais bem sucedida, focada nos mesmos conflitos, tendo a tensão familiar como um problema ainda maior a ser resolvido. Numa análise geral e conclusiva, observa-se que a trama nos traz o que Douglas Kellner chamou de “ver na tela a prescrição do que devemos fazer com aquilo que de fato é praticado”. Em A Cultura da Mídia, o autor diz que a mídia reproduz a vida real e vice-versa. Assim, salva as devidas proporções, tal como os romances românticos educavam as mulheres para o matrimônio, comédias como De Pernas pro Ar convida-as para exercer a liberdade de expressão e sair das amarras do discurso hegemônico machista tradicionalista. Creio que já seja um bom começo.

De Pernas pro Ar — Brasil, 2010
Direção: Roberto Santucci
Roteiro: Marcelo Saback, Paulo Cursino
Elenco: Antônio Pedro, Bruno Garcia, Charles Paraventi, Cristina Pereira, Denise Weinberg, Flávia Alessandra, Ingrid Guimarães, João Fernandes, Marcos Pasquim, Maria Paula, Ricardo Barrão
Duração: 97 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.