Crítica | De Repente, Num Domingo

estrelas 4

No dia 10 de agosto de 1983, as salas de cinema na França começaram a exibir o filme que seria conhecido como a última produção do genial cineasta François Truffaut. Em parceria com Jean Aurel e a sua grande colaboradora Suzanne Schiffman, o realizador adaptou a obra literária The long saturday night, de Charles William, utilizando-se de uma fotografia com clima noir e das interessantes referências ao que Alfred Hitchcock fez com a câmera ao longo de tantos bons filmes.

Em De Repente, Num Domingo, Julien Vercel (Jean-Louis Tritignant) trabalha como agente imobiliário que vê a sua vida mudar repentinamente após um assassinato. A vítima? O amante da sua esposa promíscua. Logo adiante, a sua esposa, Marie-Christine Vercel (Caroline Sihol), também é assassinada. O que fazer?

Diante dos crimes, Julien consegue o apoio da sua ex-secretária, Barbara Becker (a ótima Fanny Ardant), personagem que poderia ser algoz, haja vista que foi demitida, mas mostra-se como a única que acredita nas palavras inocentes do homem injustamente (ou não) acusado. Barbara decide investigar o crime e, durante o surgimento dos fatos, depara-se com surpreendentes revelações.

Assistir ao filme me remeteu a leitura de um trabalho acadêmico apresentado em 2008, pela pesquisadora Lucimara Oliveira. Em As influências de Hitchcock na cinematografia de François Truffaut, a pesquisadora observar como o cineasta francês fez referências, direta e indiretamente, ao estilo de produção do diretor inglês radicado nos Estados Unidos. Foi o momento de revistar o trabalho, reler, e, concomitantemente, traçar as minhas reflexões.

Há algo de voyeurista numa janela onde é possível ver o movimento de alguns figurantes e demais personagens a circular, bem como a cena em que Barbara dirige sem sequer dar uma palavra ou inserção de fluxo de consciência, mas pelas expressões faciais, percebe-se que a mesma sente que está sendo alvo de uma perseguição. A lógica do “homem errado”, presente em filmes como Frenesi, Pacto Sinistro e O Homem Errado, expressões cinematográficas do que Franz Kafka fez no excelente O Processo também está presente. Estas referências são provas cabais da admiração de Truffaut pela produção de Hitchcock, principalmente ao reforçar que “o diretor é um poeta das imagens, não apenas um mero realizador”, palavras do francês ao mencionar o mestre do suspense.

No final, como saldo, percebemos que as numerosas horas de entrevistas entre os diretores, trabalho que resultou num livro aclamado nos estudos cinematográficos, Hitchcock/Truffaut, promoveram não só reflexões sobre a linguagem e a sociologia do cinema, mas também empréstimos culturais e estéticos. Há os áudios destas entrevistas, devidamente legendados, nos extras de blu-rays de filmes como Psicose, Janela Indiscreta e Os Pássaros. Para os interessados em cinema, vale a pena conferir.

O clima noir é estabelecido através da direção de fotografia de Nestor Almendros, bem como da música composta por Georges Delerue. A eficiente montagem de Martine Barraqué ajusta os pontos do roteiro e colabora com a coesão do encadeamento dos fatos. Cabe ressaltar, portanto, que o gênero dito Noir, no filme, é subvertido. O protagonismo masculino dá espaço para a figura feminina como centro das atenções, característica peculiar nas obras do cineasta.

Há subversão a partir do momento em que o olhar machista da câmera é deslocado, a mulher, considerada a responsável pela tragédia e derrocada dos homens neste tipo de narrativa ganha outro rumo. Truffaut mostrou com o filme que sabe lidar com reinvenções e adaptações, em suma, um dos melhores diretores no que tange aos aspectos da metalinguagem: referencia e credita indiretamente, mas consegue imprimir o seu tom autoral, daí os planos de uma carreira literária, afinal, estamos diante de um homem com o dom das palavras (o texto verbal) e das imagens (a produção cinematográfica).

O filme foi bem recebido por parte da crítica e das premiações especializadas. Recebeu a indicação de Melhor filme estrangeiro no BAFTA e concorreu ao CÉSAR de Melhor diretor e Melhor atriz (Fanny Ardant). O diretor faleceu algum tempo depois, aos 52 anos, vítima de um tumor cerebral. Cheio de planos pensou em encerrar a carreira de cineasta e dedicar-se aos textos literários. Não deu certo, mas nós, cinéfilos, críticos e/ou amantes da arte, já somos muito gratos: no campo da crítica, o múltiplo diretor mostrou-se bem posicionado e ajudou a promover o debate, questão cada vez mais pálida na crítica de arte impressionista contemporânea, assim como nos brindou com filmes excepcionais, como as produções analisadas ao longo dos últimos meses no Plano Crítico: A Noite Americana, Jules e Jim, A Noiva Estava de Preto, A Sereia do Mississípi, dentre outros que juntos, formam um grande monumento da nossa Memória cultural.

Como professor de Cinema e Vídeo, sou o tipo de profissional que enxerga didatismo e possibilidades de análise e trabalho em tudo. Muitos manuais trazem Alfred Hitchcock, John Ford, Woody Allen e Quentin Tarantino como diretores obrigatórios para estudantes da linguagem cinematográfica. No entanto, gostaria de acrescentar François Truffaut como, talvez, uma das filmografias protagonistas deste processo de canonização da linguagem do Cinema. Um diretor obrigatório, não porque um grupo de críticos gosta, mas porque foi um líder sem precedentes no campo da arte nos meados do século XX e dono de filmes que são preciosas aulas de análise fílmica.

De repente, Num domingo (Vivement Dimanche, França, 1982)
Diretor: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Suzanne Schiffman, Jean Aurel.
Elenco: Jean-Louis Tritignant, Fanny Ardant, Caroline Sihol, Jean-Pierre Kalfon, Jean-Louis Richard, Philippe Laudenbach, Nicole Félix.
Duração: 111 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.