Crítica | De Repente Pai

estrelas 1,5Dentre os comediantes hollywoodianos ainda na ativa constante (tais como Ben Stiller e Owen Wilson), Vince Vaughn talvez seja o rosto mais carismático dentre essa leva de atores cujos nomes se encontram carimbados no gênero. O ator grandalhão de 43 anos sempre contou com sua simpatia e inegável talento cômico para compor personagens, em sua maioria, mulherengos e descolados, irônicos e pouco sentimentais. Por isso mesmo, é curioso ver Vaughn protagonizar uma comédia “bem comportada”, por assim dizer, já que não há nada de comportado na história de um homem que descobre ser pai de 533 de crianças através de doações de esperma feitas no passado (e haja masturbação!).

O fato é que nem mesmo atores talentosos como Vince Vaughn são capazes de salvar uma comédia tão fajuta e definitivamente esquecível quanto esta em questão. De Repente Pai, apesar de sua trama deliciosamente insana e inegavelmente chamativa, peca justamente por não conseguir manter a mesma ousadia em sua realização, sendo apenas mais um enlatado norte-americano que abusa do moralismo e do melodrama barato para causar o efeito desejado no público.

Visto como diversão descompromissada (que aliás, é como o filme deseja ser visto), De Repente Pai é capaz de arrancar sorrisos dos menos exigentes e até mesmo algumas lágrimas dos espectadores mais chorosos. Mas o principal problema reside justamente nesta tentativa do filme em abocanhar dois gêneros num só: a “dramédia”. Poderia ter dado certo, mas nas mãos de um diretor inexperiente como Ken Scott, o que temos é apenas uma experiência que não sabe qual caminho seguir.

Encarnando pela enésima vez a figura do bom moço que se vê diante de sérios problemas familiares e pessoais, Vaughn acaba por receber a responsabilidade de levar o filme nas costas, e apesar da simpatia e carisma do ator, o dever acaba não sendo cumprido. Quando aposta no humor escrachado e improvisações, o filme acerta, especialmente quando temos em cena  a presença de Chris Pratt, que interpreta um pai desleixado e frustrado com a própria vida ao lado de seus quatro filhos. Os melhores momentos da fita vêm justamente da interação entre esses dois personagens, que fogem do humor fácil e se entregam ao politicamente incorreto.

Mas é quando o personagem de Vaughn interage com alguns de seus filhos que a obra desanda. Reinam o moralismo, as lições de morais batidas e as tentativas bobas e desnecessárias de dramatizar a vida dos personagens, numa clama tentativa de criar algum vínculo entre a figura do pai e seus diversos filhos. Tudo é mastigado e entregue de bandeja ao público, jamais permitindo que o mesmo possa se envolver a fundo na situação e gerar alguma identificação com as figuras que passeiam pela tela. É didatismo do início ao fim.

Desta forma, o filme acaba valendo mais por sua intenção e coragem ao trazer para as telas uma história tão absurda e deliciosa, uma vez que sua execução acaba falhando por se ater naquilo que chamamos de “comédia enlatada”. Lamentável.

De Repente Pai (Delivery Man, EUA, 2013)
Roteiro: Ken Scott
Direção: Ken Scott
Elenco: Vince Vaughn, Chris Pratt, Cobie Smulders, Andrezj Blumenfeld, Simon Delaney, Bobby Moyniham, Dave Patten, Adam Chanler-Berat, Britt Robertson, Jack Reynor
Duração: 105 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.