Crítica | De Volta ao Planeta dos Macacos

estrelas 1

Atenção: Há inevitáveis spoilers da franquia. 

O enorme sucesso do filme original baseado no livro O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle, deu origem a uma febre símia na década de 70. O resultado natural disso foi a encomenda, pela Fox, de uma continuação. Acontece que, por um desentendimento entre os produtores e Charlton Heston, a estrela do primeiro, sua participação acabou muito reduzida, somente um pouquinho no começo e no final do filme.

Os eventos do segundo capítulo seguem diretamente o que acontece no primeiro, com Taylor (Charlton Heston) e Nova (Linda Harrison) cavalgando por terras inóspitas, em sua fuga pela Terra do futuro, com humanos que involuíram e símios que passaram a ser a espécie dominante. Eles estão na chamada Zona Proibida e, em alguns segundos, depois de um estranho evento sísmico, Taylor desaparece completamente. Nova, desesperada, sai cavalgando e encontra Brent (James Franciscus), outro astronauta vindo do passado e que acha que está em outro planeta, em missão de resgate de Taylor. Brent e Nova, então, vão até a cidade dos macacos, onde ele descobre o segredo do local e arregimentam a ajuda de Cornelius (David Watson, pois Roddy McDowall – que só aparece em cenas de arquivo – estava dirigindo um filme na Escócia) e Zira (Kim Hunter) para resgatar Taylor de mutantes humanos com poderes de telecinese (sim, isso mesmo).

O primeiro filme já tinha a marca registrada de ser uma obra barata, em que a civilização símia ainda era subdesenvolvida exatamente para evitar gastos com cenários elaborados que seriam exigidos se tivessem feito uma adaptação fiel do livro de Boulle, de 1963. Acontece que, apesar do sucesso do primeiro filme, a Fox foi ainda mais avarenta no segundo e isso fica claro no desenrolar da obra, especialmente na ridícula caracterização dos tais mutantes humanos que idolatram uma bomba nuclear nos subterrâneos do Planeta dos Macacos.

A história também sofreu muito com a necessidade de se trazer outro herói humano, nas mesmas circunstâncias de Taylor. Não é que James Franciscus esteja péssimo no papel de Brent, longe disso. Apenas seu papel é uma repetição do papel de Taylor, fazendo com que a primeira parte do filme seja meramente uma repetição piorada do primeiro, a toque de caixa e com o agravante de não trazer ao espectador nada de novo.

Na segunda parte, com o culto à bomba atômica subterrâneo capitaneado pelos tais mutantes, o filme piora ainda mais, perdendo completamente qualquer resquício de crítica social que ainda tinha e tornando-se um filme genérico de monstros. Infelizmente, o potencial do culto em si é completamente desperdiçado em uma linha narrativa apressada e ineficaz. Nem mesmo quando Taylor reaparece o filme melhora. Ao contrário, na verdade: Heston estava tão sem paciência que fez seu papel burocraticamente, sem nenhuma vontade de atuar de verdade. E, em cima disso tudo, temos a falta de Roddy McDowall. Apesar de Cornelius estar presente no filme, sem o ator que originalmente deu vida ao arqueólogo símio, ele não passa de um personagem também genérico.

Despido de seus principais atores, com a introdução de um novo e repetido herói e a introdução de um mal utilizado grupo de mutantes, De Volta ao Planeta dos Macacos naufraga não só em comparação ao original (mas essa comparação é injusta, claro), mas também como um filme independente, minimamente engajante ou interessante. O roteiro de Paul Dehn, ao tentar inovar, extirpa da fita toda sua substância, tornando o debate simplista, bobo e óbvio demais, o que é ainda mais acentuado pela direção burocrática de Ted Post, então estreante em longas, apesar de já gozar de vasta carreira na televisão.

Mas culpar o roteirista e o diretor é apenas parcialmente correto. Há que se lembrar da ausência dos dois atores mais importantes do filme anterior, a economia da Fox com a franquia e a exigência da produtora de se fazer uma continuação rapidamente. O resultado foi um desastre que, se tem um aspecto positivo, é não ter aniquilado a vontade do  público de ver mais filmes sobre o universo criado.

Publicado originalmente em 14/07/2014.

De Volta ao Planeta dos Macacos (Beneath the Planet of the Apes, EUA – 1970)
Direção: Ted Post
Roteiro: Paul Dehn
Elenco: James Franciscus, Kim Hunter, Maurice Evans, Linda Harrison, Paul Richards, James Gregory, David Watson, Charlton Heston
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.