Crítica | De Volta para o Futuro Parte II

estrelas 4

Robert Zemeckis e Bob Gale fizeram uma grande maldade com os fãs de De Volta para o Futuro ao prometerem, na continuação, que, em 2015, teríamos carros voadores, casacos auto-ajustáveis e auto-secantes, tênis auto-amarrantes e, principalmente, skates flutuantes (hoverboards). Esperei quase 30 anos por essas belezuras e nada, pelo menos até agora, no dia de publicação dessa crítica. Mas a esperança é a última que morre!

Mas chega de resmungos. Vamos falar um pouco sobre o filme.

Filmado back-to-back com a Parte III, De Volta para o Futuro Parte II é, essencialmente, o filme do meio, ou mais apropriadamente, o primeiro de um longo filme em duas partes. Apesar do final altamente “continuável” de De Volta para o Futuro, nunca foi a intenção de Gale e de Zemeckis em efetivamente fazer uma continuação, o que somente ocorreu, claro, em razão do enorme sucesso financeiro e, porque não, cultural, do original de 1985. Tanto é assim que Zemeckis viria a lamentar que, com a necessidade de se usar o final do primeiro filme como trampolim, ele perdeu a oportunidade de criar uma história independente.

Até entendo a reclamação do diretor, pois uma nova aventura sem lastro na anterior teria dado muito mais liberdade a ele. Por outro lado, porém, a noção de “uma história só” seria perdida, algo que, mesmo com as deficiências da Parte II, acabaria colocando a Trilogia De Volta para o Futuro eternamente no panteão das melhores trilogias do Cinema.

Partindo exatamente do epílogo do filme original, com Doc Brown (Christopher Lloyd) voltando do futuro para chamar Marty (Michael J. Fox) e Jennifer (Elisabeth Shue, substituindo Claudia Wells no mesmo papel, o que levou à refilmagem dessa sequência quase fotograma a fotograma) para lidar com um problema com seus filhos, o espectador é logo catapultado para, bem, 2015. Nesse “longínquo” ano, Marty tem que impedir que seu filho seja preso, evento que catalisaria a destruição de sua família. É a mesma estrutura que vimos antes – a interação entre gerações diferente com a mesma idade – mas só que no futuro/presente e de maneira muito mais frenética. O roteiro é muito ágil, mas nunca exatamente confuso, ainda que dependa talvez um pouco demais de diálogos expositivos.

Tudo isso, pois essa aventura no futuro é apenas a primeira de três em um mesmo filme. No processo de resolver esse problema no futuro, somos reapresentados a Hill Valley, com uma divertida visão oitentista do que o futuro seria. O mesmo espanto de ver a cidade em 1965 é repetido em 2015, com um roteiro que claramente se apega à familiaridade do espectador ao que aconteceu antes para trazer sorrisos aos rostos com a repetição de situações e de piadas, além de outros engraçados aspectos, como a inflação galopante do dólar, a publicidade de conversão de automóvel “normal” em voador e, claro, a célebre sequência do Tubarão 19 no cinema.

Além disso, em uma escolha estranha que não funciona de verdade muito bem, vemos Michael J. Fox como o Marty de 1985, o fracassado Marty de 2015, seu filho Marty Jr., de 2015 e, como se isso, não bastasse, também como sua filha Marlene, de 2015. É um ótimo exercício em efeitos especiais, com o uso da câmera VistaGlide desenvolvida pela IL&M, mas o resultado final, que ainda conta com um novo George McFly de cabeça para baixo e cheio de próteses para disfarçar a troca de ator (Jeffrey Weissman entrou no lugar de Crispin Glover, já que Glover não aceitou o salário oferecido e ainda entrou com uma ação contra a produtora por ter usado sua imagem indevidamente) é para lá de capenga. É uma sequência estranha, não muito bem desenvolvida e entulhada de informações e que só realmente acabaria no epílogo da Parte III. Mas o importante dos eventos de 2015 é que eles dão naturalmente a partida para todo o resto do filme e também para o terceiro, com a compra do Almanaque com os resultados dos jogos entre 1950 e 2000 por Marty e com Biff, velhinho, achando-o, descobrindo sobre o DeLorean (que, conforme aprendemos no início refilmado, ele vira decolando em 1985) e viajando no tempo para entregar para ele mesmo em 1955.

E, com isso, a segunda parte de De Volta para o Futuro Parte II começa, com Doc, Marty e uma Jennifer completamente sem utilidade na trama voltando para uma versão alterada de 1985 em função da “sorte” em apostas de Biff ao longo das décadas que teria criado uma realidade alternativa (para deleite dos leitores de quadrinhos!). Esse é, talvez, o momento menos polido de toda a narrativa, com um roteiro que beira o completo desgoverno. É, de certa forma, quase um interlúdio entre 2015 e 1955, que estruturalmente parece até mal-acabado.

De toda forma, esse “meio” é misericordiosamente curto, pois a dupla de viajantes no tempo logo vai para o mesmo 1955 do primeiro filme, gerando uma deliciosa recriação de suas célebres sequências finais sob um outro ponto de vista. É incrivelmente divertido imaginar que um segundo Marty observou quase todas as aventuras do primeiro Marty e que os dois Docs até mesmo conversaram em 1955. A ideia de abordar os mesmo eventos eleva o potencial de paradoxo temporal à décima potência, criando um verdadeiro manancial especulativo de fundir a cabeça. Se o primeiro terço é divertido mas falho e o segundo é mais falho do que divertido, o terceiro quase redime completamente os pecados de Zemeckis e Gale. Fundindo recriações das sequências icônicas com a reutilização de passagens do filme original, Zemeckis e Gale dão um show narrativo ao passo que Harry Keramidas e Arthur Schmidt simplesmente inovam na complicada tarefa de montar a obra.

E, inteligentemente, o roteiro encerra um ciclo, atenuando a impressão de “filme do meio” que é uma característica muito comum em trilogias, por razões óbvias. Mesmo com pontas soltas – claro! – a história do Almanaque chega a um fim perfeitamente satisfatório, impedindo uma interrupção abrupta da história (O Hobbit 2, estou falando com você). E o epílogo espelha, com um twist muito próprio, o epílogo da fita anterior, novamente trazendo ar de familiaridade à obra. No final das contas, com todos os seus defeitos, De Volta para o Futuro Parte II é uma experiência muito acima da média, que se apropria dos conceitos e ideias do original para literalmente expandir seu próprio universo.

E Zemeckis e Gale, não me esqueci não: ainda quero o prometido hoverboard!

De Volta para o Futuro Parte II (Back to the Future Part II, EUA – 1989)
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Bob Gale (basedo em história e personagens de Bob Gale e Robert Zemeckis)
Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Thomas F. Wilson, Elisabeth Shue, James Tolkan, Jeffrey Weissman, Casey Siemaszko, Billy Zane, J.J. Cohen, Charles Fleischer, Ricky Dean Logan, Darlene Vogel, Jason Scott Lee, Elijah Wood, John Thornton, Flea
Duração: 108 min.
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Qual é o Melhor Momento em De Volta Para o Futuro II?
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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.