Crítica | De Volta para o Futuro Parte III

estrelas 5,0

Mas que coisa mais prazerosa é essa Trilogia De Volta para o Futuro. Circular, bem acabada, com ótimas atuações. Vista em seu conjunto é, facilmente, uma das melhores trilogias já feitas, ainda que a Parte II sofra com a velocidade vertiginosa de seu roteiro.

Na Parte III, filmada back-to-back com a Parte II e lançada nos cinemas apenas seis meses depois, Robert Zemeckis e Bob Gale fecham com chave de ouro a história de Marty McFly (Michael J. Fox) e Doc Brown (Christopher Lloyd) e suas aventuras temporais. Como visto no final do filme anterior, Doc Brown foi arremessado ao ano de 1885 e Marty fica preso em 1955, tendo que recorrer ao Doc Brown da época para ajudá-lo a ir mais ainda para o passado de maneira a salvar o doutor da morte certa pelas mãos do infame Buford “Mad Dog” Tannen (Thomas F. Wilson), antepassado, claro, do eterno vilão Biff.

O ritmo da história mantém uma cadência muito superior à da Parte II, com uma narrativa bem menos frenética e sem recortes com pulos temporais. É uma história substancialmente linear que, assim como o segundo filme, faz uso da familiaridade dos espectadores com a mitologia da franquia, além de brincar com os estereótipos do gênero Western. Novamente somos apresentados à Hill Valley e novamente passeamos pelos pontos mais característicos da cidade em formação. O grande ponto de convergência é o famoso relógio que, pela primeira vez, vemos fora da fatídica torre que seria atingida por um raio em 1955.

Mas somos apresentados, também, aos antepassados de Marty, os imigrantes irlandeses de bom coração Seamus McFly (o próprio Fox) e Lorraine McFly (Lea Thompson reprisando seu papel) que acolhem Marty – ou Clint Eastwood, como preferir – em sua fazenda. As características da imigração irlandesa e a “conquista do Oeste” estão todas lá, com o casal lutando para manter a fazenda, não sendo aceito pelos habitantes locais e funcionando como o que esperamos de personagens assim em faroestes clássicos. Mad Dog Tannen também é o estereótipo do vilão de filmes do gênero, com seu enorme bigode, roupas escuras e pose de valentão. É impressionante como Gale e Zemeckis trabalham naturalmente cada personagem, reapresentando-os ao espectador sem qualquer solução de continuidade.

A novidade fica mesmo por conta da introdução da professora Clara Clayton (a bela Mary Steenburgen) na estrutura narrativa como interesse romântico de Doc Brown, que considera o amor ilógico. A interação entre os dois é excelente, com um Doc sem palavras e arrebatado pela moça que salva da morte, potencialmente mudando o futuro. O papel de Steenburgen na história é orgânico e verdadeiramente importante, dando o início a uma cadeia de eventos que deságua no epílogo da fita.

Dentro de um ambiente familiar como esse, tanto os atores quanto Zemeckis e Gale estão à vontade. Com isso, há espaço para muitas brincadeiras com o faroeste em geral. Há a reprodução da famosa sequência final de Por Um Puhado de Dólares, o primeiro filme da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, filme esse que é assistido pelo Biff do 1985 alternativo de De Volta para o Futuro Parte II em um belo foreshadowing. Há também a ótima sátira feita a westerns clássicos em que os heróis se vestiam em completo descompasso com a realidade, por intermédio da ridícula roupa rosa de cowboy que Mary veste.  Há nativos caçados pela cavalaria. É um deleite procurar as referências do gênero nessa ficção científica inigualável.

Se existe um defeito, ele fica circunscrito à sua duração, que poderia ser levemente mais curta, com cortes em sequências como a do trem em direção ao desfiladeiro e a do bar, com Doc Brown preparado para tomar um porre. Mas, muito sinceramente, trata-se de preciosismo, pois o resultado final equilibra ação com romance e com apuro visual de maneria tão eficiente quanto o clássico original.

De Volta para o Futuro Parte III é uma aula de como se fechar uma trilogia. Um prazer cinematográfico como poucos.

De Volta para o Futuro Parte III (Back to the Future Part III, EUA – 1990)
Diretor: Robert Zemeckis
Roteiro: Bob Gale
Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary SteenBurgen, Thomas F. Wilson, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Matt Clark, Richard Dysart, Pat Buttram, Harry Carey Jr., Hugh Gillin, Donova Scott, Flea, J.J. Cohen, Ricky Dean Logan, Kale Henley, James Tolkan
Duração: 118 min.
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Qual é o Melhor Momento em De Volta Para o Futuro III?
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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.