Crítica | Dead Right

estrelas 3

Escrito, dirigido, montado, produzido e filmado por Edgar Wright, que também captou o som, Dead Right é o primeiro filme do diretor, que, posteriormente, firmaria seu nome no mercado cinematográfico com obras como Todo Mundo Quase MortoScott Pilgrim Contra o Mundo. Estamos falando, obviamente, de um média/curta-metragem (dependendo dos critérios utilizados para classificar o formato) amador, que fora filmado na cidade natal de Wright (onde ele gravararia, também, Chumbo Grosso) e cujo elenco é formado integralmente por amigos do realizador. Dizer, portanto, que essa é uma obra menor do diretor seria uma grande injustiça, o que temos aqui é uma grande experimentação, na qual enxergamos inúmeras das técnicas e estilos que seriam utilizador por ele nos seus vindouros filmes.

É seguro dizer que Dead Right é uma espécie de precursor de Chumbo Grosso. Nos vemos em uma cidadezinha em que uma série de horríveis assassinatos começam a acontecer. Cabe, então, ao detetive Barry Stern (Edward Scotland), acompanhado de seu recém-designado parceiro, Mike Tight (Richard Green), descobrirem quem é o assassino. Com constantes pinceladas de metalinguagem, Wright constrói uma grande paródia de filmes de ação, especialmente de Perseguidor Implacável (Dirty Harry), cujo nome de produção, aliás, era Dead Right, utilizando uma narrativa bastante similar a obras como Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu.

Por estarmos falando de um filme amador, gravado quando o diretor ainda frequentava a faculdade, com seus dezoito anos, claramente que alguns aspectos do baixo orçamento da produção transparecem na imagem. Como alertado em um prólogo em que o próprio Wright nos fala sobre o curta, seguido por uma paródia aos avisos de classificação indicativa da época, as atuações são tenebrosas, assim como a qualidade da imagem e som. Além disso, não há como não notar o roteiro não tão refinado, este, aliás, jamais saíra do primeiro rascunho, sendo filmado de imediato, o que, desde já, serve como aviso aos navegantes que pretendem conhecer toda a obra de Wright.

Mas, como foi dito no início desse texto, não devemos assistir Dead Right esperando o auge de seu realizador e sim como fonte de aprendizado sobre sua carreira. Esse curta é praticamente um documento histórico, que nos permite enxergar a construção da identidade tão singular do diretor. Inúmeros elementos comuns de sua filmografia já podem ser observados nesse filme de 1993, como os chicotes da transição, steady-cams acompanhando os personagens, zooms característicos do uso de dolly e mais. Em inúmeros trechos, em razão da locação e argumento central do roteiro, sentimos como se estivéssemos assistindo uma versão anterior de Chumbo Grosso e, justamente por isso, a obra merece ser assistida por qualquer um que aprecie os posteriores trabalhos do diretor.

Evidente que outro aspecto que nos chama a atenção é o tom satírico do roteiro, que se apoia na comédia pastelão para criar o humor. Como dito antes, por vezes Wright acaba exagerando, gerando nada mais que desconforto no espectador, mas em outras ocasiões ele acerta em cheio, especialmente quando comparamos a obra aos filmes de ação dos anos 1970, ou filmes policiais americanos em geral. O que o realizador faz aqui é ironizar as obras britânicas que tentaram copiar tais longas americanos, ironia essa que se tornaria o centro de seu estilo próprio, o que transparece em longas como Todo Mundo Quase MortoHeróis de Ressaca.

Dead Right, portanto, funciona como uma grande viagem no tempo, um mergulho na mente, ainda jovem, de Edgar Wright, que, desde já, mostra indícios do grande diretor que ele se tornaria poucos anos mais tarde. Trata-se de um filme obrigatório para aqueles que desejam conhecer mais sobre a filmografia desse realizador, ao passo que muitas de suas marcas já começam a se apresentar nessa obra amadora. Naturalmente que é injusto compará-la com seus longas posteriores, esse é o filme certo para enxergarmos o nascimento de Wright no cinema.

Dead Right — Reino Unido, 1993
Direção:
Edgar Wright
Roteiro: Edgar Wright
Elenco: Amy Bowles, Gregory Curtis, Martin Curtis, David Denning, Richard Green, Edward Scotland, Gavin Elwood
Duração: 39 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.