Crítica | Dead Star

estrelas 4

Essa não é uma crítica de um especialista em MOBAS – Multiplayer Online Battle Arena – muito menos de um desses novos “profissionais” dos games, especificamente neste gênero que vem se popularizando desde a última década. Por mais que me incomode a glorificação de determinados games e a vista grossa feita em relação a algumas consequências que eles trazem, é impossível negar a diversão e a estratégia que essas pequenas arenas trazem, o que de fato gera uma espécie de estudo sobre táticas das mais complexas. Pessoalmente, porém, prefiro algo mais simples, mesmo se tratando dessa área competitiva dos games. Dead Star, nesse sentido, nivela bem a entrada de novos jogadores com originalidade, simplicidade e ótimo gameplay.

Tratando-se de um game independente, não espere nada da complexidade de Starcraft, para citar um do gênero que mais se aproxima ao ambiente proporcionado por Dead Star. Neste game, as mecânicas do MOBA parecem se disfarçar graças à jogabilidade fluída e aos ótimos controles que colocam o jogador no comando de uma das nove naves possíveis de serem pilotadas. Com uma pinta de arcade, Dead Star foca na qualidade do jogador em dominar seu veículo durante as partidas em que dois times, com dez jogadores cada, enfrentam-se em busca da conquista dos quadrantes espaciais inimigos. Em suma, um combate espacial, focado em mecânicas de RPG que permitem a melhora das naves durante o game e que joga nas costas do jogador, claramente, o peso da derrota ou da vitória.

Usando o conceito de twin-stick – um controle analógico servindo para a nave e outro para a mira – e utilizando-se de duelos leves e dinâmicos, Dead Star consegue fugir um pouco da lentidão que seu gênero normalmente traz, graças ao cenário escolhido e à boa resposta que as naves têm aos comandos. A destreza aqui, no que diz respeito ao cálculo geométrico e ao raciocínio rápido, acaba sendo mais essencial que o conhecimento, rapidamente apreendido em menos de uma dezena de rodadas, já que as opções ainda são poucas. Além das nove naves divididas em três categorias estéticas – Valant, Ithid e Estari – pode-se ainda melhorá-las com componentes conseguidos ao fim de cada partida, o que permite velocidades, armaduras, escudos, armas e habilidades implementadas. Para o escopo do jogo, os nove veículos, que na verdade se categorizam apenas entre ágeis, equilibrados e pesados, não podem ser mal classificados como limitados em termos de opção. É provável que o game cresça, mas a quantidade presente já dá ótima variedade nas escolhas para cada partida.

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Da mesma forma, Escape Run, outro modo de jogo possível além do combate clássico 10v10 ou 5v5, promete dar às equipes verdadeiros desafios. Na realidade, este modo só é liberado como uma recompensa dos duelos usuais. Trata-se de ter a oportunidade de dirigir uma Capital Ship, a maior nave do jogo, capaz de escapar da zona de aprisionamento onde se passa todo o game – por incrível que pareça, há um enredo por trás de Dead Star. Para isso, você deve juntar sua equipe, aprimorar a nave e se preparar para ser jogado em uma partida online onde os jogadores irão atrás da grande nave. Com isso, o objetivo da equipe é defender a Capital Ship até ela estar pronta para avançar para fora da prisão, lutando contra as duas equipes que antes batalhavam entre si. Em resumo: uma mecânica de tower defense, dinâmica e bem-vinda, acrescentando os maiores prêmios que Dead Star pode dar.

A necessidade de capturar gemas e ganhar experiência a cada nave inimiga destruída, além do objetivo principal de cada partida, não fazem o jogador esquecer do que se trata Dead Star. Felizmente, por sua originalidade e bela execução para um game estreante, trata-se de um jogo que não se limita ao nicho de seu próprio gênero, extrapolando e gerando dignos momentos de ação espacial de ótimo gosto, tanto para os viciados em MOBA da última geração, quanto para os gamers mais antigos, que viam em Space Invader o grande clássico de ficção científica dos games. Confesso que houve momentos em que Cowboy Bebop e Firefly vieram à minha mente durante o gameplay, muito devido à sensação de comandar e incrementar sua própria nave.

É bom, todavia, esclarecer um ponto. O jogo praticamente ignora a história e o entorno fictício que o poderia deixar em um outro patamar na estante dos jogos independentes. Da mesma forma, por se tratar essencial de um MOBA, uma campanha, um single player ou qualquer desafio off-line são esquecidos. Em compensação, o crossplay dá acessibilidade maior ao game e é um sonho gamer cada vez mais real. Isso significa que jogadores de PC poderão enfrentar jogadores de console.

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Antes de concluir, um dos aspectos mais atraentes deste ótimo game que deve ser ressaltado é sua ambientação. O visual do espaço é imersivo, utilizando uma paleta de cores viva e múltipla o suficiente para mostrar a mudança de cenários. Alguns me lembraram Guardiões da Galáxia, outros eram mais contidos. Há ainda a presença de nebulosas que variam seus efeitos, podendo curar, obscurecer ou causar danos nas naves. Um prato cheio para quem quer conhecer a fundo as mecânicas, mesmo que o jogador não possua tanto tempo. A trilha sonora, infelizmente, não é tão marcante quanto a arte visual, mas não deixa de ser bem centrada no objetivo bélico que a ação do jogo propõe, sendo bem sincronizada. Já os efeitos sonoros não deixam nada a dever. Talvez seja este o principal fator imersivo de Dead Star.

Em termos gerais, o multiplayer de até vinte jogadores online cumpre com o prometido, mas depende de uma comunidade para sobreviver. Dead Star, devo dizer, merece uma vida longa, seja ela dada pelos entusiastas de ficção científica, seja pelos maníacos do gênero que este game serve. No seu limite, a Armature Studio entrega uma obra divertida que mistura mecânicas, temas, e linguagens já conhecidas para retomar um espírito de ficção científica que há muito não aparecia nos games de forma tão acessível, leve e desafiadora. Um memorável game de uma desenvolvedora estreante no circuito independente, mesmo já com experiência em jogos maiores da última geração. Não é necessário dizer, mas um jogo desses certamente fica melhor com um grupo de amigos brincando de piratas do espaço junto contigo.

Dead Star
Desenvolvedora:
Armature Studios
Lançamento:
5 de abril de 2016
Gênero:
MOBA
Disponível para:
PC, Ps4

ANTHONIO DELBON . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.