Crítica | Deadpool: A Guerra de Wade Wilson

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Conhecido por suas histórias cheias de humor negro e nonsenses, Deadpool é um daqueles personagens cujas sagas dependem de um roteirista que consiga trabalhar de maneira crível o aspecto anti-heroico do personagem, mais suas constantes quebras de 4ª Parede (se isso não for bem colocado no texto, acaba atrapalhando e deixando tudo sem sentido) e a violência que é marcante por onde quer que o Mercenário Tagarela passe. De brinde, referências à cultura pop ou mesmo à indústria dos quadrinhos são bem-vindas e todas essas características ganham voz e corpo no ótimo roteiro de Duane Swierczynski para a minissérie em quatro edições A Guerra de Wade Wilson.

O único erro de concepção de Swierczynski foi deixar para muito depois a ligação do depoimento de Wade, no Senado americano, com o massacre em Sinaloa, México, motivo pelo qual toda a história acontece. A surpresa vinda no final é boa e diz muito a respeito do personagem, embora seja fácil entender todo o processo como um verdadeiro caminho entre a alucinação e a verdade exagerada. O fato é que mesmo tendo um aspecto confuso em sua construção geral, todo o restante da história consegue ser divertido e cativante ao mesmo tempo, fazendo-nos acompanhar algumas missões da Equipe X, formada, além de Deadpool, por Dominó (Neena Thurman), Silver Sable (Sablinova) e Mercenário (Lester).

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A infame Equipe X em ação.

Sem exageros visuais, Jason Trent Pearson trabalha as cenas de luta e os enfrentamentos diretos de forma bastante objetiva, sem muito floreio no interior dos quadros (noção visual bastante coerente para o que a trama pede), cedendo apenas na demonstração de corpos, balas, tanques e outras caraterísticas visuais de ambientação toda vez que o Tagarela está narrando uma missão vivida pelo grupo X. Entre a tendência minimalista das sequências no Senado e na prisão e os ricos detalhes geográficos das missões narradas, a arte é uma companheira inestimável do roteiro, mostrando variações da realidade ao mesmo tempo que nos faz duvidar de cada uma delas — destaque para as excelentes sequências de oposição entre a narração de Deapool e a de um agente secreto do governo sobre como o anti-herói se tornou parte do programa Arma X.

A aproximação desta com outra história escrita por Swierczynski, X-Men Origins: Deadpool, é uma das primeiras coisas que vem à mente quando lemos A Guerra Secreta…, mas o trabalho com realidades nessa história é ainda mais refinado. Primeiro, é importante ter em mente que esta é uma aventura alternativa, que se passa na Terra-22206, fator que faz aquele final ser realmente aquilo que vemos, uma vez que este não é o NOSSO Deadpool.

Então surgem críticas ao modelo intervencionista do governo americano em países de democracia instável; sobram alfinetadas aos massivos investimentos bélicos do governo em coisas que acabam custando ainda mais dinheiro a longo prazo, pois sempre dão errado; e sobram ironias do autor à burocracia do Congresso, travando coisas de importância para a país e dando prioridade a casos que interessam a alguns poucos controladores econômicos que, ao que parece, mantêm o governo na palma da mão.

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Que tipo de Deadpool é esse?

As intervenções metalinguísticas ao longo da história recebem uma ótima medida por parte do autor e acrescentam muito à experiência de leitura, porque jogam de maneira inteligente com a nossa perspectiva de mundo, tão confusa e alterada quanto a do protagonista. Essa consciência de ser um personagem de histórias em quadrinhos não é a úncia ressaltada pelo autor. Há quebras e pontos de vista dentro da própria história, além de a narração vir organicamente de diversos pontos, o que constituiu uma das melhores jogadas do enredo, fazendo de A Guerra de Wade Wilson não só um quadrinho completamente pirado, mas também um divertidíssimo passeio por variações narrativas e realidades em conflito que é impossível ignorar.

Deadpool: A Guerra de Wade Wilson (Deadpool: Wade Wilson’s War) — EUA, 2010
No Brasil:
Editora Salvat, 2016 / Panini Comcs, 2014
Roteiro: Duane Swierczynski
Arte: Jason Trent Pearson
Arte-final: Jason Trent Pearson (#1 a 3), Dexter Vines (#3 e 4)
Cores: Paul Mounts
Letras: Clayton Cowles
Capas: Jason Trent Pearson
Editoria: Axel Alonso, Sebastian Girner
144 páginas (encadernado Salvat)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.