Crítica | Deadpool: Invasão Secreta

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Estrear uma revista mensal com um tie-in para o megaevento do ano é uma manobra um tanto curiosa. Ao mesmo tempo em que a lógica da coisa sugere que a produção acabe fisgando o leitor empolgado pelo evento com uma série para a qual não daria chance em outro contexto, o fato é que trata-se de um atalho para complicar de cara e carregar com cronologia convoluta o que deveria ser um ponto de partida relativamente limpo. A não ser que você seja o Deadpool. Se você for o Deadpool, provavelmente tanto faz.

A estreia de Daniel Way nos roteiros para o personagem foi concomitante à participação do mercenário tagarela na outra revista de sucesso do autor à época, Wolverine Origens. A abordagem aqui é acertadamente diferente, com o roteirista conseguindo adaptar seu estilo de escrita descompressado e circular e sua paixão por narrativas alineares para o benefício das aventuras comédicas do mercenário. No entanto, em termos de caracterização e de humor, o arco fica um pouco aquém do que já foi feito com o personagem em cenários semelhantes.

A sequência inicial, que traz o ataque de uma nave Skrull a um estádio de baseball, com o mercenário tagarela intervindo em favor da espécie humana em uma série de momentos cômicos, nos dá o tom da dinâmica da trama e do tipo de humor que podemos esperar pelo resto destes dois primeiros arcos. É notável como o roteirista, que normalmente insere em suas histórias boas doses de violência, traz aqui um Deadpool que poderia se chamar até de relativamente contido no quesito.

Relativamente.

Instalando-se no espaço de um humor mais nonsense do que satírico e mais pastelão do que de “humor negro”, o roteiro tira bom proveito do personagem e mostra um pouco da amplidão de suas possibilidades cômicas. O roteiro é todo pontuado por piadas e a narrativa se usa não apenas de uma, mas  de duas “vozes internas” retratadas através de captions para avançar a trama sob a perspectiva distorcida de nosso protagonista.

Não são todas as piadas que aterrissam bem, mas no geral a história mantém uma tonalidade leve e de bom humor constante o suficiente para garantir no mínimo uma leitura divertida. A arte leve e cartunesca de Paco Medina, finalizada com cores vivas, combina bem com a trama e se prova uma escolha muito acertada – ainda que faça falta algum momento badass de ação, culpa que provavelmente divide com Way, já que grande parte do potencial para lutas acaba relegado a momentos off-page.

Outro ponto notável é como o autor consegue mostrar um lado menos comum do personagem: sua capacidade de agir de forma manipulativa e ardilosa, escapando de situações complicadas com truques e planos engenhosos. Sendo normalmente alguém que conta com a mais pura e caótica sorte para escapar de situações apertadas, e definitivamente alguém que tende a não fugir de uma resolução “no braço” (ou nas katanas/pistolas/armas de fogo das mais variadas), é um tanto raro vermos essa abordagem de um Wade Wilson mais desencanado e que por muitas vezes consegue escapar de seus perrengues de forma imaginativa e astuta.

Com Deadpool é assim: você bobeou um segundo, o bicho se multiplica e toma conta da página.

Nesse sentido é que temos, em ambas histórias que se passam concomitantemente á invasão dos alienígenas transmorfos, o caos mental do anti-herói servindo de base para bons plot twists envolvendo suas reais intenções e os desfechos possíveis de suas missões. Como nos bons momentos do personagem em Cable & Deadpool, algumas piadas e momentos aparentemente sem nexo acabam tendo papel importante na resolução do roteiro – enquanto que, é claro, outros absolutamente não levam a nada (pode ficar tranquilo).

Em Um de Nós, acompanhamos a participação de Deadpool em uma missão de um misterioso contratante que o coloca bem no meio da complicada Invasão Skrull – com direito a luta contra Super-Skrulls e, é claro (com o perdão do pequeno spoiler), Skrulls Deadpool. Porque não existe personagem mais propenso a se multiplicar do que esse cara. É como uma epidemia tomando conta das páginas!

Utilizando-se bem da nova versão dos Skrulls apresentada na saga, a história traz vários momentos hilários e diverte bem, ainda que relativamente simples em termos de enredo. A aventura ainda estabelece bem a voz do Deadpool de Way, que não soa tão acertada quanto a versão de Joe Kelly ou de Fabian Nicieza mas que vai crescendo para o leitor ao longo dos eventos absurdos que transcorrem no curto arco. A terceira edição é a mais forte, trazendo um desfecho divertido e totalmente sem noção para as experimentações, pareado com uma luta bem trash de Deadpool contra um Super-Skrull.

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Por sua vez, Um Horror de Negócio traz Wade desesperadamente tentando tirar alguma grana em meio ao boost do mercado mercenarial na invasão alienígena, fazendo negócio com um conhecido do ramo que anteriormente fora responsável por deixa-lo na mão. Sua missão: resgatar a esposa do cara de um cirurgião plástico que, em sua busca por rejuvenescer suas clientes milionárias, acabou transformando-as em zumbis, formando um exército particular no processo. Então, o que temos é Deadpool vs. Enfermeiras Zumbi, para o bem e para o mal.

É nesse segundo arco que temos Way fazendo uso de seu dispositivo narrativo xodó, os saltos no tempo, de forma totalmente escrachada e a serviço de boas piadas, proporcionando alguns dos melhores momentos do encadernado. A proposta abraça uma pegada ainda mais trash que o arco anterior e guarda ares inegáveis de filler, mas diverte bem como um episódico entre o encontro com os skrulls e a participação do anti-herói na saga Reinado Sombrio.

Com tramas leves e rápidas, os arcos iniciais deste volume de Deadpool acabam divertindo mesmo com a relativa pobreza do enredo. Sem nenhum elenco de apoio e praticamente sem a aparição de personagens conhecidos do Universo Marvel, a abordagem de Deadpool: Invasão Secreta é a de aventuras episódicas com o mercenário em uma versão bem básica e repleta de bom humor, ainda que não da forma típica que possamos esperar com base em suas outras aparições. Mas talvez seja questão do roteirista achar a voz do personagem. Ainda assim, a história é uma boa introdução ao personagem e uma boa leitura para aqueles que apreciam suas aventuras episódicas, porém sem momentos muito memoráveis que a destaquem da enxurrada de opções com o personagem.

Deadpool: Invasão Secreta (Deadpool Vol. 2 #1 a 5:  Secret Invasion) — EUA, 2008
Publicação no Brasil: Invasão Secreta Especial #4 (Ed. Panini, Setembro de 2009) (#1 a 3); X-Men Extra #101 – 102 (Ed. Panini, Maio e Junho de 2010) (#4 e 5)
Roteiro: Daniel Way
Arte: Paco Medina, Juan Vlasco
Capa: Clayton Crain, Rob Liefeld, Jason Pearson, Ed McGuinness
Editora: Marvel Comics
Editoria: Axel Alonso
Páginas: 125

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.