Crítica | Deadpool: Meus Queridos Presidentes

Contém spoilers. Confira mais quadrinhos do Deadpool aqui.

Meus Queridos Presidentes é o primeiro arco do terceiro volume da mensal de Deadpool, e a entrada do personagem na Marvel NOW!iniciativa de renovação de toda a linha da editora que rolou em 2013 nos EUA. Após mais de cinco anos sendo roteirizado por Daniel Way, o mercenário recebe aqui uma nova equipe criativa, na forma dos roteiros da dupla Gerry Duggan e Brian Posehn e da arte de Tony Moore.  Ambos com experiência em comédia televisiva, Duggan e Posehn chegam de cara nos apresentando uma leitura bastante diferente do personagem e de seu mundo, trazendo novo fôlego à fórmula que já apresentava sinais de cansaço em Deadpool Morto, arco final da fase precedente.

Enquanto que Way trouxe para o personagem uma escrita que alternava entre a violência escrachada e o característico humor irreverente, localizando-o bem próximo de suas raízes mutantes e seu passado com figuras como o Treinador e a X-Force, a abordagem de Duggan e Posehn funciona como uma “volta ao básico” permeada por um humor satírico que vem dar um novo fôlego às aventuras do personagem. Pode-se dizer que os autores se inspiram um pouco na boa fase clássica de Joe Kelly, mas adicionam um pouco de seu toque pessoal o suficiente de forma que, ao final do primeiro arco, o leitor já se encontra familiarizado com uma nova versão do personagem.

Anteriormente eu fiz o comparativo da abordagem de Kelly para Deadpool, no arco inicial de sua primeira série mensal, com alguns dos desenhos infanto-juvenis mais inovativos da década de 1990. Aqui, poderíamos dizer que acontece algo de semelhante, sendo que o estilo do diálogo nonsense repleto de referências externas, suas entregas blasé e velocidade acelerada não soariam muito fora de lugar em um episódio de Hora de Aventura ou Apenas um Show, porém com traços bem-vindos de um humor satírico que não soaria fora de lugar em um The Simpsons ou mesmo Archer.

Deadpool vs. Franklin Roosevelt

A trama central é simples, ridícula e com potencial para divertir: um agente da S.H.I.E.L.D. com vocação para as artes místicas, porém sem o treinamento necessário e com intenções mal informadas, acaba realizando um ritual de necromancia e ressucitando todos os presidentes norte-americanos já mortos de volta ao mundo dos vivos, visando restaurar a glória passada do país. Infelizmente, o retorno aparentemente vem acompanhado de um impulso demoníaco por destruição, e o que temos são versões enzumbizadas e definitivamente maléficas dos antigos governantes, soltos pelas ruas e tramando a destruição do país que o pobre agente Michael gostaria de salvar.

Entram os agentes da S.H.I.E.L.D. Preston e Adsit, encarrgados de resolver a crise e abafar o caso, não apenas não deixando a ressurreição chegar até a boca do povo, mas também de destrui-los de forma rápida e mais discreta possível. Afinal de contas, o público não digeriria bem ver imagens dos Vingadores destroçando os corpos das ilustres e inspiradoras figuras dessa forma. Não, este é um trabalho reservado para alguém totalmente desprovido de reputação e dignidade, um assassino sem escrúpulos que não se importaria em… OK, é o Deadpool, é óbvio!

A primeira edição abre com impacto, com a belíssima arte de Moore embalando uma narrativa rápida e densa, cheia de momentos hilários e conceitos absurdos pipocando por toda a história o suficiente para manter o leitor fisgado a cada página. Piadas bem entregues e cenas de ação muito bem realizadas na arte nos deixam vendidos para saber como a coisa toda se encaminhará.

A belíssima arte de Tony Moore.

Moore merece crédito ainda por realizar muito bem as fisionomias dos personagens estreantes, o que combinado aos diálogos bem escritos fazem com que o leitor sinta familiaridade com eles rapidamente, efeito que normalmente não acontece em quadrinhos desse tipo. Quantos e quantos agentes da S.H.I.E.L.D. nós vemos passar pelas páginas sem deixar nenhuma impressão mais marcante! Mas os agentes Emily Preston e Scott Adsit conseguem deixar uma impressão de primeira, o tipo de personagem que leva o leitor a torcer para que permaneçam como parte do elenco de apoio.

Nas edições subsequentes, temos uma narrativa em que se sucede uma montagem de situações estapafúrdias envolvendo os planos presidenciais para a destruição da América. Com George Washington tomando posse do livro de runas que os trouxeram de volta à vida, a coisa toda se complica. Mas Deadpool consegue sua própria trupe de aliados, o mais especial deles sendo Benjamin Franklin, que revela ter estado vivo esse tempo todo por ter “se tornado um com a eletricidade” na ocasião de sua morte. Um personagem simplesmente genial. Também temos a ajuda (de má vontade) do Doutor Estranho ajudando a equilibrar a balança.

A forma como a história é montada, no entanto, acaba atravancando um pouco da fluidez e da batida enérgica com que as duas primeiras edições foram conduzidas. Percebe-se facilmente que a história se formou ligando uma sequência de esquetes postulando situações hilárias para cada presidente morto. Temos Richard Nixon querendo destruir o conjunto de edifícios Watergate, Abraham Lincoln desafiando Wade para encará-lo no ringue de wrestling e Ronald Reagan indo para o espaço ativar as defesas militares da URSS contra a América, concretizando seu projeto “Star Wars”.

Um ser vindo diretamente do longínquo passado, Ritter, Abraham Lincoln, expressando o que pensa do Mercenário Tagarela.

Todas essas intercalações funcionam bem no geral, trazendo momentos comédicos que mais acertam do que erram e ação retratada de forma fenomenal na arte incrível de Moore. Se por um lado o formato de “esquetes” funciona para emprestar às edições avulsas um sempre bem-vindo caráter de stand-alone, por outro lado o problema é justamente o quanto a narrativa não flui tão bem entre essas sequências, o que faz com que o arco chegue na sexta edição sem o mesmo momentum adquirido com seu início cheio de energia. Ainda assim, o time criativo consegue contornar o problema trazendo algumas viradas inesperadas na trama que nos preparam para a história seguinte, aguçando a curiosidade do leitor.

Meus Queridos Presidentes traz uma nova abordagem para o Mercenário Tagarela, entregando uma história divertida, escrachada e repleta de momentos hilários envolvendo a absurda guerra do mercenário canadense pirado contra os míticos Líderes de Estado norte-americanos. Com um excelente uso do elenco de apoio e uma trama cuja única limitação é a falta fluidez entre uma sequência e outra, que leva a um desfecho que parece um tantinho mais arrastado do que merecia, a história poderia se beneficiar de uma edição ou duas a menos a favor de um arco mais coeso e impactante. No entanto, o time criativo consegue trabalhar bem dentro da proposta e do formato optados, entregando um bom início para sua fase à frente das aventuras de Deadpool.

Deadpool: Meus Queridos Presidentes (Deadpool Vol. 3 #1 a 6) — EUA, 2013
Publicação no Brasil: X-Men Extra #1 a 5 (Ed. Panini, Janeiro a Maio de 2014); Deadpool: Meus Queridos Presidentes (Ed. Panini, Fevereiro de 2016)
Roteiro: Brian Posehn & Gerry Duggan
Arte: Tony Moore
Capa: Geof Darrow
Editora: Marvel Comics
Editoria: Nick Lowe
Páginas: 140

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.