Crítica | Death Note (2015)

estrelas 3,5

Adaptar uma obra de outra mídia para a linguagem cinematográfica certamente não é uma tarefa fácil. Ao fazê-lo, é preciso que o roteirista tenha em mente a diferença narrativas de ambos os formatos, fazendo as mudanças necessárias e cortando aquilo que jamais funcionaria no cinema ou televisão. No caso dos mangás a tarefa se torna ainda mais complicada, principalmente em razão das costumeiras excêntricas caracterizações de seus personagens, seja no cabelo ou na própria forma como se vestem ou agem. Death Note, embora adote um visual, em geral, mais sóbrio, traz grande dificuldade para essa transposição através de indivíduos como L, Near, Mello e, claro, os shinigamis, todos distanciando-se do típico terno e gravata utilizado pela maioria dos outros personagens centrais da obra, isso sem falar na forma como se portam.

Ao levar esse mangá para qualquer tela, portanto, é preciso ter em mente que o que verdadeiramente importa, como em qualquer outra adaptação, é que a essência do negócio seja respeitada, abrindo, pois, espaço para maiores licenças poéticas, todas as quais caem nas mãos do principal roteirista da adaptação. Questão essa que parece não ter sido levada em conta quando se trata dos filmes de Death Note. Enquanto os longas japoneses seguiram o aspecto visual praticamente ao pé da letra, juntando isso com algumas mudanças significativas no roteiro, o filme americano falhou em transpor qualquer semblante do verdadeiro espírito do mangá original. O resultado final, em todos esses casos, é muito aquém do que deveria ser. Felizmente, a minissérie japonesa, de onze episódios, lançada em 2015 conseguiu acertar onde todos os outros erraram.

O texto já apresenta notáveis alterações desde o início, mostrando o quanto Yoshihiro Izumi estava disposto a mudar para criar essa sua versão da história. Light Yagami (Masataka Kubota) não é mostrado como o melhor aluno do Japão e sim um estudante como outro qualquer, que não somente sofre bullying de certos indivíduos de seu colégio, como testemunha tais ações direcionadas a outros colegas. Trabalhando como garçom em um restaurante local ele enxerga as constantes injustiças da sociedade e, quando recebe o caderno da morte do shinigami Ryuk (Jun Fukushima), decide, relutantemente, iniciar uma jornada para limpar a criminalidade do mundo. O que não esperava é que logo uma grande investigação para descobrir o culpado por esses assassinatos começaria, encabeçada pelo super detetive, L (Kento Yamazaki).

Em termos de roteiro, essa minissérie de Death Note é uma verdadeira aula de como se adaptar um mangá. As mudanças realizadas claramente possibilitam que a trama funcione de maneira orgânica, com Izumi tendo total consciência da duração da minissérie. Prova disso é como o roteirista insere, logo no primeiro episódio, personagens que, no mangá, somente apareceriam bem mais tarde, como Near (Mio Yūki), Mikami (Shugo Oshinari) e Misa Amane (Hinako Sano), todos desempenhando claras funções narrativas desde o princípio, não apenas permanecendo em segundo plano até o momento certo de darem as caras, eliminando, pois, a nítida fragmentação existente no material original. Esse fator, claro, proporciona mudanças substanciais na trama, fazendo dessa uma versão inédita da história, ainda que sua essência seja mantida intacta.

Em muitos aspectos, essa é uma releitura mais pé no chão do mangá, algo que pode ser observado pela caracterização de L, que assume um visual impecável ao invés de seu jeito mais largado, o que dialoga com a forma distante como ele age em relação a maioria das pessoas. Além disso, vale notar como sua típica pose de cócoras é alterada – aqui, o personagem simplesmente coloca seus pés (calçados) sobre outras superfícies, caracterização que funciona muito melhor em live-action, como já pudemos testemunhar nas outras adaptações cinematográficas. Nenhuma mudança, porém, me soa mais organicamente inserida do que o distúrbio de personalidade de Near, que tem como alter-ego Mello, unindo, portanto, dois personagens do mangá em um só, permitindo grandes cortes de linhas narrativas que apenas dilatariam a narrativa principal.

Infelizmente, no que o roteiro acerta, os outros lados dessa adaptação acabam, em partes, errando. É bastante evidente o orçamento limitado da produção, o que pode ser enxergado em alguns cenários (a “casa” de L, por exemplo) e na forma como certos personagens são caracterizados, especialmente o péssimo CGI utilizado em Ryuk, que continua tão exagerado quanto nos outros filmes japoneses. Além disso, o orçamento parece afetar a escalação de determinados atores, como todos os que falam inglês, que nos proporcionam verdadeiras gargalhadas pela péssima dicção travada, como se jamais tivessem atuado na vida. Masataka Kubota, como Light, também, não impressiona, trazendo alguns fortes exageros para sua interpretação, o que muito contrasta com a atuação mais sóbria de Kento Yamazaki como L.

A direção, também, não nos convence assumindo uma linguagem novelesca demais – mas daremos certo desconto, já que essa minissérie pode ser enxergada, também, como uma novela. Muitas vezes a decupagem prejudica completamente o momentum de certas cenas, fator que é prejudicado pelas letras que aparecem na tela apresentando certos personagens, escolha artística que quebra completamente nossa imersão. Felizmente, tais momentos são mais raros na série como um todo, podendo ser relevado. Somadas às atuações pouco convincentes, porém, esse problema se intensifica, diminuindo nossa percepção dos acertos do roteiro.

Ainda assim, essa minissérie japonesa de Death Note prova ser a melhor adaptação live-action do mangá, mostrando o quanto a obra pode e deve se distanciar do original, enquanto mantém a sua essência intacta. Surpreendentemente, com as necessárias alterações, todo o enredo do original foi condensado aqui, disposto de maneira orgânica e fluida. Uma pena que a direção e as atuações não acertem tanto, mas isso não deve distanciar qualquer fã da obra de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, já que os muitos acertos dessa diferente versão falam por si só.

Death Note — Japão, 2015
Direção:
 Ryûichi Inomata, Ryo Nishimura, Marie Iwasaki
Roteiro: Yoshihiro Izumi (baseado no mangá de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata)
Elenco: Masataka Kubota, Kento Yamazaki, Jun Fukushima, Daisaku Nishino, Mio Yūki, Hinako Sano, Yutaka Matsushige, Gōki Maeda, Tomohisa Yuge, Kazuaki Hankai, Shugo Oshinari
Duração: 11 episódios de aprox. 60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.