Crítica | Death Note (2017)

estrelas 2,5

Sem a menor sombra de dúvidas Death Note é um dos mangás que mais gerou adaptações na história, contando com cinco filmes live-action, dois em animação, um anime, um musical (!!!), duas minisséries para a televisão, duas light novels e três videogames. Tudo isso permitiu que, mesmo catorze anos após o lançamento da obra original, ela continuasse viva no imaginário popular, ainda que, à exceção do anime, New Generation Iluminando um Novo Mundo, nenhuma das produções derivadas tenha conseguido capturar a real essência das páginas de Tsugumi Ohba e Takeshi ObataAdam Wingard, portanto, diretor do novo live-action, original da Netflix, não tem uma grande responsabilidade nas mãos, afinal, qualquer fã que tenha acompanhado a franquia desde 2003 sabe que não deve esperar grandes coisas de uma adaptação cinematográfica de Death Note. Mas não custa sonhar.

Distanciar-me-ei de toda a polêmica envolvendo o suposto whitewashing dessa produção americana pois sei, após ter consumido todas as obras relacionadas ao material base (além dele próprio, claro), à exceção do musical, que tal polêmica não faz o menor sentido – não precisa ser nenhum gênio para constatar que a trama criada por Ohba e Obata poderia se passar em qualquer país do mundo. Se alguém discordar, fique à vontade para comentar abaixo e fornecerei, com prazer, maiores esclarecimentos. Com isso fora do caminho, podemos, enfim, cair de cabeça nessa nova adaptação.

Light Turner (Nat Wolff) é um estudante ainda no high school americano – vivendo em Seattle ele não é estranho à violência urbana, que muitas vezes se faz presente dentro de seu colégio, tomando a forma de bullying. Sua vida muda completamente quando um misterioso caderno, o Death Note, cai dos céus logo ao seu lado. Nele estão escritas inúmeras instruções e a primeira delas diz que o humano cujo nome for escrito nessas páginas irá morrer. Após testar a veracidade desse objeto, Turner inicia uma cruzada, ao lado de sua namorada, Mia Sutton (Margaret Qualley), para livrar o mundo de criminosos, iniciando pelo assassino de sua mãe, que não fora preso.

Death Note conta com um bom início, sabendo localizar com precisão sua trama no ocidente, adotando uma narrativa mais pé no chão, que torna Light um garoto como qualquer outro. O roteiro, assinado por  Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides e Jeremy Slater se preocupa em demonstrar o descontentamento do jovem antes desse se tornar Kira (nome, aliás, que é justificado dentro do filme, por mais que soe mais como homenagem ao material base). O protagonista é alguém com quem, imediatamente, podemos nos identificar, mesmo com alguns gritos estridentes de Nat Wolff. Comparar essa obra com o material base, contudo, é inevitável e não há como não perceber a diferença do grau de inteligência entre Yagami e Turner.

Dito isso, o filme, por si só, abre espaço para tal comparação ao dizer, constantemente, que Light é inteligente, mas sem jamais, verdadeiramente mostrar o quanto ele se destaca das pessoas comuns. Enquanto que no mangá, desde cedo, o enxergamos como uma pessoa muito acima da média, aqui a prova de seu intelecto superior aparece somente através do fato dele fazer o dever de casa de outros estudantes por troca de dinheiro – algo que somente prova que ele é bom aluno. A questão é agravada pelas péssimas decisões tomadas pelo personagem ao longo da trama, chegando ao ponto que ele praticamente admite a L que é Kira logo cedo.

Evidente que a intenção era mostrar que Turner não se corrompe tão fácil quanto Yagami – ele não se enxerga como deus, da mesma forma que sua contraparte, assim, ações como matar policiais não podem ser justificadas. Sua intenção é transformar Kira em uma divindade, como se vestisse um símbolo, da mesma forma como os super-heróis que vemos infestando as telas de cinema. Podemos dizer, portanto, que essa versão de Death Note foge um pouco dos questionamentos levantados pelo mangá original, por mais que o grande dilema sobre matar criminosos com o caderno ainda se mantenha, em geral, intacta.

Com o protagonista se recusando a realizar certas ações, essas que são transferidas para Mia Sutton, a obra acaba caindo na mesmice, soando como a típica produção hollywoodiana de gato e rato, tirando, pois, grande parte da alma da obra. Chega a ser irônico constatar que, durante boa parcela da produção, o Death Note em si não faz a menor diferença na narrativa, visto que o texto prefere focar na perseguição a Kira, sem saber unir todo a mitologia desse caderno ao que está sendo mostrado em tela, como fora feito no mangá original, que constantemente tinha como fonte dos problemas de L a maneira como o assassino acabava com suas vítimas.

Ainda assim, somos atraídos pelo visual construído por Wingard, estabelecendo a atmosfera que nos remete ao cyberpunk, principalmente pelo uso constante de luzes neon. Trabalhando prioritariamente com sequências noturnas ou com pouca iluminação, o diretor brinca com o gênero do terror, criando aqui um híbrido – não na intenção de gerar medo, mas de envolver o espectador com esse ar mais sombrio, que vai se intensificando conforme Light vai sendo colocado cada vez mais contra a parede. A dose maior de realismo dialoga, então com o gore presente nas mortes, as tornando mais viscerais, aproximando, portanto, o assassino de suas vítimas em nosso imaginário.

Combinando com esse lado mais real da história, temos as belas atuações de todo o elenco principal. Nat Wolff realmente se entrega ao papel e, por mais que seu Light não seja nada de especial, não há como não acreditar no personagem. Lakeith Stanfield, como L, gera desconforto do início ao fim, sendo retratado como alguém claramente instável, questão que o texto acaba exagerando próximo do fim. Margaret Qualley, por sua vez, como Mia, claramente funciona como uma espécie de consciência sombria de Turner, representando o lado mais cruel do Kira original. O maior destaque, contudo, vai para Willem Dafoe, que empresta sua voz ao deus da morte Ryuk, figura que se mantém como um mistério do início ao fim, sendo mais uma sombra sobre Light do que um parceiro efetivamente. Chega a ser triste perceber, portanto, ao término da projeção, como tais personagens foram desperdiçados pela mesmice a qual a trama acaba se tornando.

Fica difícil imaginar, pois, quando veremos novamente uma adaptação do mangá de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata que realmente capte a essência de seu material base. Ainda que Adam Wingard crie uma forte identidade visual nessa sua visão de Death Note, o roteiro segue por caminhos mais que ordinários, jamais, verdadeiramente, nos surpreendendo – ao menos já sabíamos, como fãs do mangá, que não deveríamos esperar grandes coisas de suas adaptações cinematográficas.

Death Note — EUA, 2017
Direção: 
Adam Wingard
Roteiro: Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides, Jeremy Slater (baseado no mangá de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata)
Elenco: Nat Wolff, Margaret Qualley, Willem Dafoe, Lakeith Stanfield, Shea Whigham, Jason Liles, Paul Nakauchi, Masi Oka
Duração: 101 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.