Crítica | Death Note (Anime)

estrelas 4

– Ao final da crítica vote em nossa enquete, escolhendo entre Kira ou L.

O sucesso imediato do mangá de Death Note certamente não passou despercebido pela Madhouse, que rapidamente adquiriu os direitos para sua adaptação em anime, que estreou em 2006, mesmo ano no qual fora publicado o último capítulo da obra original de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata. Como a história já estava acabada quando o anime foi ao ar, sua trama segue basicamente pelo mesmo caminho que o material base, com apenas alguns cortes, principalmente a partir do arco da Yotsuba, fator que, infelizmente, torna essa uma obra inferior à original. Isso contudo, não deve distanciar quem nunca teve contato algum com Death Note ou até mesmo aqueles que leram todos os capítulos – afinal, essa série animada traz seus próprios notáveis méritos.

Para quem viveu em uma caverna pelos últimos catorze anos, Death Note nos conta a história de um estudante japonês, Light Yagami, que acaba encontrando um misterioso caderno cujas instruções, escritas no interior da capa, dizem que o ser humano que tiver seu nome escrito nesse objeto irá morrer. Após testar e confirmar a veracidade do Death Note, o garoto inicia uma cruzada para se livrar dos criminosos do mundo, os matando de parada cardíaca a fim de que percebam a intervenção de alguém na criminalidade do mundo. Após ficar conhecido como Kira, o assassino passa a ser investigado por um habilidoso e excêntrico detetive conhecido apenas como L. Yagami precisa, então, se livrar de seus obstáculos para que possa construir o seu novo mundo.

Um dos maiores percalços de adaptar Death Note é como transpor a enorme quantidade de diálogos e balões de fala para outra mídia de forma que, ainda assim, a história mantenha sua dinâmica. Tetsurô Araki, que coordenou a direção do anime soube muito bem trabalhar com esse fator, mesmo com esse lado da história tendo sido mantido praticamente intacto. Sua decupagem traz constantes movimentos de câmera, uns mais rápidos, outros mais lentos, dependendo do tom almejado, alternando o foco entre os diferentes personagens, objetos em cena e até utilizando closes bastante específicos a fim de manter o espectador atento. Um bom exemplo disso são os enquadramentos nos pés de L ou nos doces que sempre estão perto dele.

Além disso, há de se notar a dinâmica utilização das cores para representar o que está em jogo naquele momento. As vitórias de Kira costumam ser acompanhadas de tonalidades vermelhas, o que invariavelmente contrapõe-se com os tons de azul utilizados para L em determinados pontos da história. É interessante observar como Light ora é retratado como uma figura divina pela iluminação em cima de seu personagem, ora como um demônio justamente pelo escurecimento da imagem. Tais fatores ainda dialogam com o fluido trabalho de montagem, que transforma a simplicidade de alguém escrevendo em um caderno em uma verdadeira sequência de ação. Claro que alguns exageros se fazem presentes, como a maneira alucinada de Mikami escrever em seu Death Note, mas nada que atrapalhe a obra como um todo (apenas traz algumas inevitáveis risadas por parte do espectador). Felizmente os traços respeitam completamente os personagens e, ainda que o grau de detalhes não chegue aos pés das ilustrações de Takeshi Obata, a essência da obra é mantida intacta.

Como dito antes, em determinado momento, o roteiro começa a cortar certos trechos presentes no mangá, alterando alguns fatos (certas mortes são suavizadas em razão da classificação indicativa). Isso não chega a atrapalhar nosso entendimento da história, mas invariavelmente prejudica alguns trechos, como o arco da Yotsuba e, principalmente, toda a história de Mello, que aparece em uma versão bastante resumida. Esse ponto acaba prejudicando toda a fluidez do anime, com notáveis tropeços na segunda metade da história, mas, felizmente, a série recupera todo o seu fôlego perto do fim, mesmo com o excesso de twists, característica herdada do mangá original.

Ouso dizer que um dos maiores méritos do seriado animado é a sua trilha sonora. Estamos falando de uma trama que claramente se divide em diversos atos, cada um com atmosferas bastante distintas (ainda que a identidade de Death Note seja mantida). Sentimos tais mudanças na primeira transmissão de L, no surgimento do segundo Kira, quando é iniciado o arco da Yotsuba, dentre outras várias ocasiões e, mesmo assim, a trilha de Yoshihisa Hirano e Hideki Taniuchi consegue habilmente representar na música o tom certo para cada situação. Estamos falando de uma obra que não estaria completa sem suas melodias, que tão bem definem a emoção de determinadas cenas, além de representarem com precisão os diversos personagens centrais com seus temas específicos. Destaco aqui o tema de L e Low of Solipsism, além do emblemático tema principal, que são capazes de, verdadeiramente, transformar uma sequência. É preciso notar como Hirano e Taniuchi dialogam com todo o imagético religioso ocidental em suas composições, empregando o latim para tal, com trechos tirados do Requiem de Mozart para determinadas músicas.

No fim, apesar de seus notáveis deslizes, o anime de Death Note continua sendo uma excelente adaptação do mangá original, sabendo muito bem trabalhar com os diversos tons explorados pelo material base. Trata-se de uma obra diferente, mas que traz os mesmos dilemas, nos fazendo torcer, ora por Light, ora por L, mesmo que não concordando com suas ações. Com seus méritos próprios, esse é uma série animada que merece ser assistida e reassistida algumas vezes.

Death Note — Japão, 2006/07
Direção:
 Tetsurô Araki, Tomohiko Itô, Hiroyuki Tsuchiya, Mitsuhiro Yoneda, Eiko Nishi, Makoto Bessho, Shinji Nagamura, Oyunamu, Naoyasu Hanyu, Hisato Shimoda, Yukio Okazaki, Kei Tsunematsu, Hironobu Aoyagi, Naoto Hashimoto, Takayuki Hirao, Hideki Ito, Mitsuyuki Masuhara, Ryôsuke Nakamura, Tetsuhito Saitô, Tomio Yamauchi
Roteiro: Gracie P. Aylward, Toshiki Inoue, Tomohiko Itô, Yasuko Kobayashi, Shôji Yonemura
Elenco (vozes originais): Mamoru Miyano, Ryô Naitô, Naoya Uchida, Keiji Fujiwara,  Kappei Yamaguchi, Aya Hirano, Shidô Nakamura
Duração: 37 episódios de aprox. 20 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.