Crítica | Death Note: Black Edition II

estrelas 4

Se você não sabe o que é Death Note ou o que é a Black Edition desse mangá, sugiro que leia a crítica do volume I, que reúne os dois primeiros tankobon japoneses. Lá, eu fiz uma introdução explicando esses detalhes. Depois, volte para cá, mas cuidado, pois há inevitáveis spoilers de Black Edition I.

No primeiro tomo, Tsugumi Ohba, por meio de longos e pesados diálogos expositivos, estabelece a trama básica de Death Note: Light Yagami, um genial estudante, toma possa de um caderno onde a pessoa cujo nome é escrito em uma de suas páginas morre se esse nome for escrito tendo em mente o rosto da pessoa. O caderno, originalmente de propriedade de Ryuk, um shinigami (ou deus da morte), permite, basicamente, que se brinque de deus e Light faz justamente isso, assassinando criminosos por todo o mundo para criar o que em sua cabeça seria um mundo melhor.

Não demora muito e a Interpol acha estranhas as mortes e passa a contar com a ajuda de um detetive sem nome e rosto, conhecido unicamente como “L”. Aprendemos também de imediato que L é, literalmente, outro geninho.

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Frodo e Sméagol

O embate dos dois, ainda no primeiro volume, vai até o ponto e que L manda instalar câmeras na casa de Light (conhecido como Kira) já que ele suspeita que o adolescente pode ser o assassino com base em um enorme e irreproduzível encadeamento de raciocínio. Fica muito complicado imaginar como Ohba consegue ampliar a história, considerando que ele chega a uma situação insustentável para Kira.

Mas aí vem o tomo II e o real brilhantismo da narrativa de Death Note começa a aparecer de verdade. Mesmo continuando com longos textos explicativos que poderiam ser reduzidos para permitir que os leitores deduzam por si próprios a história, o que Ohba faz, com sucesso, é capilarizar a estrutura inserindo duas inovações chave: Kira e L passam a trabalhar juntos e um segundo Kira entra em cena.

O primeiro desdobramento é particularmente surpreendente, mas muito bem costurado dentro da narrativa. Sem conseguir provar, com as câmeras, que Light é Kira, L parte para uma estratégia arriscada, revelando-se para Light e fazendo com que os dois sejam os parceiros mais adversários que já vi. E, dessa forma, Ohba torna os parágrafos de pensamento (ele não usa os tradicionais balões para isso) bem mais interessantes que no primeiro volume, já que eles apresentam oposições de raciocínio e se completam, basicamente de um quadro para o outro, alterando a dinâmica do mangá.

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Tênis com palavras

Aliás, nesse ponto, Takeshi Obata consegue, com seus desenhos que só mostram o essencial, fazendo-nos prestar atenção no que interessa, traduzir visualmente o dilúvio de palavras escritas por Ohba. O melhor exemplo de sua técnica e um dos momentos mais brilhantes de Black Edition II é a partida de tênis entre Light e L. Em 14 páginas, vemos com clareza o tamanho da rivalidade entre os dois gênios, mas, também, aprendemos que um tem o mais profundo respeito pelo outro. É, literalmente, um duelo de titãs que estabelece o tom pelas 300 páginas seguintes.

Com Light entrando para o time de L, cada um com seu propósito escondido, mas ambos investigando Kira, Ohba apresenta um novo Kira e um novo shinigami, ambos do sexo feminino: Misa Amani, uma garota-fetiche (essa da imagem colorida que ilustra a crítica) e Rem, uma deusa da morte que mais parece uma múmia. Isso significa uma nova alteração na dinâmica e um fator a mais para complicar a vida de Light. A entrada de Misa Amani e sua história pregressa são um tanto quanto forçadas e poderiam ter sido mais discretas. No entanto, o resultado final é competente o suficiente para que esqueçamos esse problema pelo menos momentaneamente.

O que novamente surpreende na progressão da história – e serei econômico aqui para não estragar o prazer da leitura para ninguém – é o quanto Ohba avança nela. Apesar de ele potencialmente ter material para trabalhar com mais calma, a história não para e vai em um crescendo que termina em uma situação impossível tanto para Light quanto para Misa Amani. O leitor certamente acabará a última página desesperado para continuar, o que só mostra o quanto é bom o trabalho do roteirista.

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Pretty woman, walking down the street…

O dilema moral de “ser deus” continua fortemente presente em Black Edition II, mas, somado a ele, vemos o próprio L, que deveria defender a lei com todas as suas forças, tomando decisões extremamente delicadas sob o ponto de vista moral e ético. E tais decisões são, ainda por cima, aceitas, mesmo que com relutância, pelo seleto grupo de policiais que ainda trabalha com ele, um deles o próprio pai de Light. Assim, a discussão entabulada por Ohba com seu conceito original também ganha novos contornos com a expansão de sua narrativa e, conforme veremos ainda mais para frente, no terceiro volume, outros aspectos ainda mais complexos serão introduzidos.

Death Note: Black Edition II finalmente mostra porque esse mangá é um dos mais famosos do mundo. Resta saber se a qualidade se mantém até o fim.

Death Note: Black Edition II 
Roteiro: Tsugumi Ohba
Arte: Takeshi Obata
Lançamento oficial: Japão, dezembro de 2003-maio de 2006 (Black Edition a partir de fevereiro de 2013)
Lançamento no Brasil: 2013
Editora: JBC Mangás
Páginas: 408

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.