Crítica | Death Note: Black Edition III

estrelas 3,5

Se você não conhece Death Note ou não sabe o que é a Black Edition de Death Note, sugiro que leia a crítica do primeiro volume. E, em seguida, leia o do segundo volume.

Feito?

Então podemos prosseguir, lembrando que haverá inevitáveis spoilers do que veio antes, ainda que eu tenha tomado cuidado para não estragar o conteúdo do terceiro volume, mesmo considerando que esse mangá completará muito em breve 10 anos de vida, razão das críticas aqui no site.

Aliás, se você já leu minhas críticas anteriores, percebeu que eu tenho um problema constante com Death Note: os diálogos e monólogos internos longamente expositivos, que não acabam nunca. Bem, isso continua e até se intensifica no terceiro volume e continuará nos próximos, pelo que deixarei essa questão de lado para não soar repetitivo (mas já soando…).

Light Yagami (o Kira) está preso por sua própria escolha. Seu pai, o diretor da polícia, também pede para ser preso em outra cela, por não suportar ver o sofrimento do filho. O objetivo disso é dissipar a suspeita de L sobre Light ser o Kira. É a única maneira, já que Misa Amani, o segundo Kira, também está presa. Se nenhum crime acontecer durante o cárcere, então a lógica dita que nenhum dos dois é um Kira.

Mas Light Yagami é um gênio e ele tem um plano de longo – longuíssimo – prazo. E, mesmo com mais de 400 páginas, equivalentes a dois tankobon originais, esse plano não é revelado completamente para os leitores por Tsugumi Ohba. Ele consegue, usando o artifício da perda da memória por parte de Kira 1 e Kira 2, nos desviar a atenção para  um terceiro Kira, dessa vez um misterioso homem que pode ser um executivo da empresa Yotsuba ou alguém ligado a eles.

Light Yagami, completamente desmemoriado e semi-solto por L (um fica algemado ao outro 24 horas por dia em uma surreal situação) ajuda na investigação. Na verdade, é ele que, sozinho, descobre o padrão de comportamento de novas mortes que beneficiariam economicamente a Yotsuba. Assim, a equipe parte para tentar descobrir quem é esse terceiro Kira e, especialmente, exatamente como as mortes são providenciadas.

A grande ausência desse volume inteiro é Ryuk, o shinigami de Light, já que, quando ele abre mão do Death Note, o deus da morte vai embora. Só ficamos com Rem, a deusa da morte que antes era de Misa Amani e, agora, é do tal novo Kira. A trama é de coçar a cabeça de tão misteriosa, o que nos faz esquecermos um pouco o começo meio atabalhoado que leva à saída de Light da prisão e o aparecimento de mais um Kira.

Como a dinâmica muda completamente, já que temos Light, agora, genuinamente ajudando L e Misa Amani também, por meio de subterfúgios e disfarces, conseguimos meio que “começar de novo”. Além do mais, Ohba cria as figuras de oito executivos da Yotsuba que se reúnem semanalmente para decidir quem deve morrer para beneficiar a empresa. A facilidade com que eles tomam decisões mortais é assustadora, mas, por alguma razão, perfeitamente crível. E é assim que Ohba enfrenta a questão do “assassinato por dinheiro”, pois, até o momento, por mais tortos que tenham sido os raciocínios, os dois primeiros Kiras só matavam para “criar um mundo melhor”, seja lá o que isso significa.

Ainda que o assassinato de criminosos continue, agora há assassinatos de outras pessoas sem nenhum passado necessariamente sujo com o único objetivo de artificialmente alavancar os interesses de uma empresa e, claro, os interesses pessoais desses oito executivos. E, com tantos novos personagens para introduzir e criando um clima de espionagem quase no estilo James Bond, Ohba dá um novo ar ao seu trabalho, impedindo a repetição.

No entanto, ele protrai muito o encerramento dessa narrativa, criando situações completamente inverossímeis, como a invasão ao prédio de Yotsuba que culmina com a falsificação da morte de um dos policiais e o uso da personagem Misa Amani como uma agente infiltrada. E isso sem falar nos dois personagens “cartas na manga” que Yotsuba tira do nada só para poder permitir investigações mais ousadas.

O resultado é um volume irregular, mas que, quando começa a alcançar seu fim, torna-se espetacular. Afinal, depois que a identidade do terceiro Kira é revelada (não, não vou dizer quem é), Light e L montam um plano absurdamente mirabolante para capturá-lo, o que permite ao ilustrador Takeshi Obata trabalhar magistralmente quadros de ação, culminando com a cinematográfica perseguição automobilística bem no finalzinho.

Essas recompensas que Death Note dá ao leitor funcionam como antídotos aos defeitos do trabalho de Ohba e deixam qualquer um de queixo caído e desesperado para ler o próximo volume.

Death Note: Black Edition III 
Roteiro: Tsugumi Ohba
Arte: Takeshi Obata
Lançamento oficial: Japão, dezembro de 2003-maio de 2006 (Black Edition a partir de fevereiro de 2013)
Lançamento no Brasil: 2013
Editora: JBC Mangás
Páginas: 424

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.