Crítica | Death Note: Black Edition VI

estrelas 3

Se você não sabe o que é Death Note ou o que é Black Edition ou sabe tudo, mas quer ter uma visão geral sobre o que acho da série, sugiro que leia meus comentários sobre os volumes anteriores:

Death Note: Black Edition I

Death Note: Black Edition II

Death Note: Black Edition III

Death Note: Black Edition IV

Death Note: Black Edition V

A crítica abaixo conterá inevitáveis spoilers dos volumes anteriores.

O último volumão de Death Note já começa com todas as peças bem estabelecidas no completo tabuleiro representativo do embate entre L-Kira (Light Yagami) de um lado e Near e Mello do outro. O mundo está quase que totalmente a favor das ações de Kira. Aqueles que não concordam, têm medo de reagir. O único bastião de luta contra a dominação total pelo auto-proclamado “novo deus” do mundo é o SPK, formado por Near e três agentes do FBI e Mello, que atua solitariamente da sua própria maneira. O grupo formado por Light Yagami já começa a dar sinais de que as desconfianças de que Light é Kira o está dividindo.

E, na primeira metade do volume VI, correspondente ao tankobon 11, Near parte para atrair, de uma vez por todas, a lealdade de Aizawa e Mogi, do grupo de Light. E, manobrando suas peças habilmente, ele consegue, diminuindo muito as possibilidades de movimento de Kira. Agora, sua única forma de se comunicar com Teru Mikami (o X-Kira e quem está matando no lugar de L-Kira) é por meio de Kiyomi Takada, repórter da NHN que é escolhida por Mikami como porta-voz de Kira e que é, coincidentemente, ex-namorada de Light, além de ser 100% a favor dos assassinatos feitos por Kira e ser completamente devota à Light.

Mas, tanto Light quanto Near têm um plano. E esse plano não nos é relevado na primeira metade do volume. Tsugumi Ohba deixa todo mundo no suspense, de forma semelhante a que fez quando, lá atrás, jogou Light Yagami na prisão por 50 dias em um longuíssimo plano de retomada de controle por parte do rapaz. Lá, como aqui, o plano depende de movimentos precisos no tabuleiro e de uma boa quantidade de coincidências (Takada ter sido namorada de Light é a mais gritante e conveniente delas). E, em termos de suspense, a armação do jogo pelos dois lados funciona muito bem, em preparação ao embate final.

Esse embate, que toma a metade final do volumão (correspondente ao tankobon 12) transcorre exatamente como eu já previa. Não que eu tivesse adivinhado a trama em detalhes, mas sim a atmosfera. Parece um spaghetti western de Sergio Leone. Muita calma. Muitos planos longos e detalhados de cada pequeno evento simultâneo e BAM! o final explosivo.  No entanto, enquanto essa estratégia funciona muito bem em filme e especialmente nas mãos de Leone, o resultado não é tão brilhante no papel.

A “luta” final, toda ela dentro de um galpão abandonado, é completamente anti-climática e precedida e sucedida de tediosas e intermináveis explicações dos dois planos. Enquanto cada gênio pensa nos detalhes de seus planos e esses pensamentos nos são passados por Ohba, nós temos a exata dimensão do que vai acontecer. Quando vem o final, porém, Ohba não se contenta em acabar a narrativa e parte para uma nova saraivada de explicações detalhadas que mostram a genialidade do vencedor (como se tudo fosse uma competição). Em termos de ação, ela basicamente inexiste, mas nem seria necessária, pois Death Note foi sempre muito mais um embate de mentes do que pancadaria. Assim, nesse quesito, o pouco que temos é satisfatório.

Mas voltando ao embate de mentes, Ohba, desde o começo, andou no fio da navalha entre o conceito de certo e errado, entre o bem e o mal. E ele nunca se esquivou de mostrar também as zonas cinzentas. Acontece que, talvez perdendo a oportunidade de quebrar um tabu, ele preferiu nadar em águas mais calmas e apresenta um final moralista, politicamente correto e, em última análise, comportado demais. Poder-se-ia argumentar que o mangá é para jovens e, como tal, deveria mesmo acabar como acabou. No entanto, tenho para mim que os jovens estão preparados para algo um pouco mais sofisticado, um pouco mais arrojado do que o velho padrão do “bem vence o mal”. Ohba vinha caminhado muito bem, mas tropeçou ao final.

Não que isso estrague a jornada, claro. Death Note é um trabalho muito interessante, muito engajado e, no frigir dos ovos, satisfatório. Só seu final é que não corresponde à premissa.

Death Note: Black Edition V 
Roteiro: Tsugumi Ohba
Arte: Takeshi Obata
Lançamento oficial: Japão, dezembro de 2003-maio de 2006 (Black Edition a partir de fevereiro de 2013)
Lançamento no Brasil: 2013
Editora: JBC Mangás
Páginas: 424

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.