Crítica | Death Note: Iluminando um Novo Mundo

estrelas 3,5

Qualquer um que tenha assistido os dois primeiros filmes de Death Note poderá constatar que a história de Kira foi finalizada de forma prematura, não chegando sequer a contemplar todo o mangá original de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata. Chega a ser curioso que tal escolha tenha sido feita, considerando a quantidade de material baseado nas páginas ilustradas foi produzido desde então, percorrendo desde a televisão até o cinema. Se L: Change the World já foi uma prova mais que contundente da intenção de manter essa franquia viva, então Iluminando um Novo Mundo, quarto filme em live-action apenas reforça esse fato.

Precedido pelo prólogo New Generation, em forma de minissérie de três episódios, o longa-metragem de 2016, assim como o filme focado exclusivamente em L, se distancia bastante do material original, contando com personagens principais inéditos (se não levarmos em conta o tie-in) ao lado de alguns “veteranos” da série, como Misa Amane e Matsuda. A trama, que se passa dez anos após os eventos de Death Note 2: The Last Namenos conta que o rei dos shinigami, entretido pelo que Light fizera com o caderno, ordena que outros Death Notes sejam levados até o mundo dos humanos a fim de que um novo Kira surja. Não demora muito para que inúmeras pessoas por todo o mundo comecem a morrer de ataques cardíacos – dentre esses criminosos se tornaram vítimas novamente e a equipe de investigação de Kira é ativada, dessa vez composta por Tsukuru Mishima ( Masahiro Higashide), sucessor de Soichiro Yagami, Ryuzaki (Sôsuke Ikematsu), o novo L e outros policiais.

O mangá original e as obras que diretamente o adaptam tem como uma das principais características o dilema moral que cerceia as ações de Kira, colocando a própria justiça em xeque. Infelizmente, isso acaba se perdendo em Iluminando um Novo Mundo, que dispensa tal complexidade a favor de um maniqueísmo mais rígido e definido, isso pode ser observado pela forma casual como os eventos do passado são relembrados, especialmente o fato dos crimes terem diminuído em 70% em razão das ações de Light, ponto que é apenas jogado no meio de um discurso sem dar muita atenção a essa perturbadora estatística.

Há de ser louvada, porém, a maneira como esse quarto filme live-action define sua identidade, não apenas copiando o que veio antes. A obra nos entrega uma história cem por cento nova, apenas pontualmente utilizando passagens do mangá de forma que funciona mais como uma homenagem do que uma releitura. Outro aspecto que chama a atenção é como o longa valoriza os que o antecederam, fazendo bom uso de Light e L em sua história, sem jamais deixar que esses dominem a narrativa – ambos funcionam como figuras admiradas na obra, cada um de um lado da equação, claro.

Shinsuke Sato, que assina a direção, mantém o constante ar de mistério e tensão, mas imprime um toque de saudosismo e melancolia em suas imagens, nos fazendo olhar para o passado dessa série de filmes como se realmente tivessem definido o tom desse mundo dez anos após a morte do Kira original. A fotografia, claramente mais escura que em seus precursores, dialoga com tal questão e ajuda a formar a atmosfera mais sombria desse filme, o que combina com a ausência de retratações exageradas de personagens, como era o caso do L dos três primeiros longas. Tudo aqui é mais sóbrio e ainda assim consegue ter aquele característico ar de Death Note.

O filme, porém, está longe de ser perfeito, visto que conta com passagens que exageram nos twists, especialmente conforme caminhamos para o final. A trama assume uma falsa complexidade que incomoda – trata-se de eventos simples, mas dispostos em tela de maneira a confundir o espectador, prejudicando não somente o andamento de determinadas sequências, como do clímax em si, que somente consegue se colocar de pé novamente quando está prestes a acabar. Ironicamente, vemos algo parecido na segunda metade do mangá original, portanto, pode ser dito que essa nova produção honrou o material base.

Mesmo com tais deslizes, porém, Death Note: Iluminando um Novo Mundo consegue nos manter presos em sua narrativa, nos sugando para esse novo embate entre Kira(s) e L, com uma pegada nova que oferece o necessário ar de novidade para a franquia. Com bons novos personagens, que não apenas repetem o que veio antes, uma trama que, em geral, acerta enquanto capta o ar característico da série e um nítido respeito ao que veio antes, esse longa-metragem certamente é o melhor dos quatro lançados até aqui, mostrando que, se quiserem manter Death Note vivo por mais alguns anos, ainda há muito terreno que pode ser explorado.

Death Note: Iluminando um Novo Mundo (Death Note: Light Up the New World) — Japão, 2016
Direção:
 Shinsuke Sato
Roteiro: Katsunari Mano
Elenco: Tatsuya Fujiwara, Ken’ichi Matsuyama, Erika Toda,  Masaki Suda, Shidô Nakamura, Sôsuke Ikematsu, Masahiro Higashide
Duração: 135 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.