Crítica | Death Note: O Filme (2006)

Tres-estrelas

A história já se tornou um clássico popular entre pessoas mais ou menos ligadas à cultura de animes e mangás: Raito, genial estudante de 17 anos, encontra um caderno que tem o poder de matar qualquer pessoa cujo nome for escrito em suas páginas. Concebido por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata, Death Note é um dos melhores mangás já lançados no país dos samurais. A história centra-se em uma coluna moral e discute questões como pena de morte, sistema judiciário e mundo sobrenatural, numa ampla rede de conexões que abrange grandes conglomerados econômicos, investigadores excêntricos, frieza assassina e busca pelo poder.

Em 2006, além do anime baseado nos mangás, surgiram dois filmes. O primeiro deles, objeto desta análise, tem título homônimo ao mangá, e seu roteiro vai das origens da trama até o momento em que Raito entra para a equipe que investiga Kira (ou ele próprio). O filme, no entanto, não conta a história de uma maneira tão fascinante quanto o material original ou mesmo como o anime. Todavia, traz bons momentos para o espectador, em seus mais de 120 minutos de duração.

A primeira coisa que devemos observar é que o cinema tem um formato e uma dinâmica muito próprias, o que impede de levar para a grande tela a maioria das coisas que a literatura ou os quadrinhos apresentam. Nesse sentido, Death Note – O Filme, é quase muito bom. As sequências iniciais são dispostas de uma maneira tão interessante, que realmente nos impressiona. A organização dos fatos é feita aos poucos, sempre partindo de um suspense ou ação definitivos para o andamento da história. Flashbacks e flashforwards se intercalam até que o filme alcance o tempo presente e, a partir daí, siga a história sem grandes alterações temporais. Raito inicia o filme como um defensor da justiça mas se indigna com as enormes falhas do sistema social e suas atitudes após a posse do Death Note parecem justificar-se por essa guinada de opinião pessoal. É então que ele se autodenomina o “Deus do Novo Mundo”.

As relações de poder e a cadeia de obediência e elementos subjugados por seu exercício é enorme. Desobedecer a um poder instituído é quebrar o contrato social e o indivíduo deve arcar com as consequências de suas ações. Para Raito, essa concepção é correta desde que funcione, pensamento que se dissipa após o episódio do criminoso que o ameaça em um bar. Por outro lado, temos a polícia, que se perde em métodos mais diversos a fim de encontrar o “assassino de criminosos”. Matar um criminoso é legítimo? Torturar alguém para conseguir a verdade é legítimo? Kira e L agem dessa forma para alcançarem suas metas e não podemos dizer que existe um modo “suave” entre essas duas atitudes. Em um mundo onde tudo o que foge ao controle do homem causa extremo pavor, tudo é válido para que se descubra a origem ou extermine de vez o que é considerado “ruim”, mesmo que métodos nada humanitários sejam aplicados nessa tentativa.

O elenco de apoio em Death Note aparece melhor em cena do que os protagonistas. Raito (Tatsuya Fujiwara) e L (Ken’ichi Matsuyama), especialmente esse último, merecem as maiores pedradas. Enquanto Raito tem uma passagem extremamente rápida de bom menino para um poderoso e antipático assassino, L conserva os mesmos trejeitos afetados e excêntricos apresentados no mangá (o que é ótimo!), mas a atuação não ultrapassa esse patamar, o que o torna pouco expressivo em termos actantes. Mesmo assim, é muito interessante observar em película aquilo que só nos traços dos quadrinhos podíamos ver. Mais por efeito passional do que artístico, o espectador acaba gostando do que lhe é mostrado.

Raito é uma espécie de Anticristo. Sua ascensão social e os artifícios “mágicos” que possui lembram muito os relatos que temos sobre esse ícone inimigo da cristandade. No caso de Death Note, o “Deus do Novo Mundo” quer ser temido por “fazer o bem”, ou seja, livrar o mundo dos criminosos. Como que amparando essa visão e apostando em contrastes, a fotografia que ilumina o filme é urbana, bem pensada em intensidade e distribuição de cores, assim como a direção de arte, especialmente nos ambientes internos, com destaque para o quarto de Raito e o apartamento de L, destacando personalidades e preferências.

Mesmo guardando as proporções da adaptação para o cinema, é impossível não criticar essa primeira parte da história (o filme foi originalmente concebido em duas partes e, como já disse no início, esse primeiro volume termina quando Raito entra para a equipe que investiga Kira), uma adaptação razoável de um produto genial. O erro está em pequenas doses espalhadas por toda a película, o que faz dela uma dessas obras que você só consegue lembrar de umas poucas cenas (as realmente boas) e tentar se esquecer de todo o resto.

Death Note (Desu Nôto) – Japão, 2006
Direção: Shusuke Kaneko
Roteiro: Takeshi Obata, Tetsuya Oishi, Tsugami Oobata
Elenco: Tatsuya Fujiwara, Kenichi Matsuyama, Asaka Seto, Shigeki Hosokawa, Erika Toda, Shunji Fujimura, Takeshi Kaga, Yu Kashii, Shidô Nakamura
Duração: 125min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.