Crítica | Death Note (Piloto)

estrelas 3

Para nós, que vivemos no ocidente, a experiência de ler um mangá é completamente diferente à dos japoneses. Apesar da demora para determinadas obras chegarem em território tupiniquim, há uma certa facilidade quando se trata desse objeto de leitura, visto que recebemos encadernados (conhecidos lá fora como tankobon) já prontos para serem colecionados, oferecendo um bom volume de leitura até a próxima edição ser lançada. No Japão, em geral, o mangá é oferecido semanalmente como parte de uma revista direcionada a determinado público-alvo – o leitor, portanto,  a via de regra, consome apenas quatro capítulos mensais.

Mas por que falei tudo isso? Entender esse básico já é o necessário para entender parte do mercado de mangás, uma indústria extremamente competitiva e que demanda muito de seus autores, que devem entregar uma média de vinte páginas (já ilustradas, claro) por semana. Essa competitividade, evidentemente, gera a necessidade das revistas criarem filtros diversos – primeiro o clássico pitching, presente em qualquer setor do entretenimento, depois os capítulos pilotos, que passam primeiro pelo crivo dos editores da revista e, em seguida, são submetidos à aceitação popular, essa que, aliás, permanece como fator determinante da continuidade ou cancelamento da obra em questão.

Dessa forma, assim como qualquer outro mangá, Death Note também teve seu piloto lançado em revista, um one-shot que traz os elementos básicos que conheceríamos na obra principal, com algumas notáveis diferenças, que fazem dessa uma história completamente diferente daquela centrada em Light Yagami.

A obra nos conta a história de Taro Kagami, um estudante de treze anos que acaba encontrando um misterioso caderno no meio da rua. Desconhecendo o significado da palavra “death” (devemos simplesmente aceitar isso), o jovem passa a utilizar o objeto como diário e faz anotações nele sobre o bullying que tem sofrido nas mãos de colegas da sua sala. Evidente que ele não esperava a notícia, no dia seguinte, de que essas mesmas pessoas sofreram ataques cardíacos. Sua desconfiança de que o caderno provocara tais mortes é, então, confirmada pela visita do shinigami Ryuk. Agora Taro precisa encontrar uma forma de não ser descoberto pela polícia, que já começou a investigar o caso.

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Logo nesses primórdios de sua obra, Tsugumi Ohba já nos oferece relances do que veríamos posteriormente no mangá serializado. Taro e Light são, sim, personagens essencialmente diferentes – em momento algum o garoto de treze anos é corrompido pelo poder em suas mãos, o que faz dessa uma história muito mais “politicamente correta”, ainda que, brevemente, questionamentos sobre o que deve ser feito com tal poder sejam trazidos à tona. Esse lado mais “bonzinho” da trama transparece, também, através da borracha que traz as pessoas mortas pelo caderno de volta, algo que exige toneladas de suspensão de descrença, mesmo dentro desse universo. Há uma nítida inocência no protagonista, possivelmente escolha feita a fim de não prolongar o one-shot por mais páginas do que deveria.

Aliás, a necessidade de simplificação da trama se torna evidente conforme avançamos na leitura. Dividido em três atos bastante distintos, o mangá claramente gasta mais tempo com seus dois primeiros, fazendo do terceiro algo extremamente corrido, não possibilitando o pleno desenvolvimento da trama e alguns dos personagens envolvidos. Dito isso, esse piloto funciona mais como uma apresentação de ideias interessantes do que, de fato, uma obra envolvente, visto que jamais conseguimos verdadeiramente nos importar com os personagens sem ser o protagonista.

Essa preocupação maior com o personagem central se apresenta, também no traço de Takeshi Obata, que retrata as expressões faciais de Taro mais detalhadamente. Aliás, essa marca do artista coloca em imagem com perfeição o lado emocional do protagonista, que claramente fica abalado com as mortes provocadas pelo objeto. É interessante observar como Obata reaproveitou o design de alguns personagens na obra principal – o jovem Taro evidentemente inspirou a criação de L, enquanto que ele próprio adulto traz grande similaridade com Mikami. Ryuk, por sua vez, permaneceu praticamente igual, com sutis alterações em seu rosto.

Esse piloto de Death Note, portanto funciona como uma apresentação ao universo que seria construído nos capítulos da obra principal de Ohba e Obata. Trata-se de uma história corrida, com algumas particularidades que pedem muito da suspensão de descrença do leitor, mas que se estabelece como um interessante objeto de leitura, que nos permite enxergar a evolução dessa ideia original, que se tornaria um dos mangás mais populares de todos os tempos.

Death Note (Piloto) — Japão, 2003
Roteiro:
 Tsugumi Ohba
Arte: Takeshi Obata
Editora original: Shueisha
Data original de publicação: 4 de agosto de 2003
Editora no Brasil: Jbc Mangás
Data de publicação no Brasil: agosto de 2008
Páginas: 55

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.