Crítica | Decor

estrelas 4,5

Decor é um melodrama mágico-realista e uma carta de amor ao cinema egípcio. Nele, uma cenógrafa chamada Maha passa a transitar entre o seu mundo o mundo dos cenários que constrói para filmes. O roteiro de Mohamed Diab não tem piedade do espectador e faz com que esses mundos comecem a se encontrar, confundindo-nos e deixando a tremenda angústia de querer saber qual deles é o “mundo real”. Mas a grande surpresa vem apenas no desfecho do exercício metalinguístico, onde a fronteira da imaginação e da realidade desaparece, tornando Decor uma reflexão sobre a relação do homem com o cinema e sobre a liberdade de decisão, abordagem estilisticamente pensada para homenagear o cinema árabe e misturar a intensidade de um texto na linha de ‘realidade X sonho’ emprestada essencialmente de Oito e Meio.

O diretor Ahmad Abdalla faz o exercício oposto realizado por Woody Allen em A Rosa Púrpura do Cairo, onde um dos personagens do filme sai da tela e vem para o nosso mundo. O caminho aqui em Decor é oposto e a reflexão que ampara esse caminho também. Ao público a pergunta óbvia se estabelece: esses personagens estão felizes com as decisões que tomaram no passado? É muito importante ter isto em mente, porque é em torno dessa pergunta que os muitos mistérios relacionados às camadas cênicas irão se fixar.

É muito sintomático que um filme metalinguístico e que homenageia o cinema egípcio aborde esta temática transversal de liberdade, da fuga de um mundo e da confusão extrema ao se tentar descobrir qual desses lugares é o melhor, qual deveria ter sido a “decisão certa” no passado para que o presente fosse feliz e qual rumo tomar a partir de agora. Tudo isso em um tempo em que o país recrudesce em suas estruturas políticas pós-Primavera Árabe (2011), seguida da derrubada de dois governos, um golpe milita, insurgências na Península do Sinai e em outras partes do país que pioraram a pós a queda de Mohamed Morsi, em julho de 2013.

De repente nos vemos jogando com a possibilidade de um mundo ideal, assim como a protagonista, mas seu processo de fuga e adequação falha porque ela não consegue ser feliz em nenhum desses lugares. Mohamed Diab faz com que o jogo narrativo sirva tanto para questões pessoais, existenciais (uma lição que deveria ter sido seguia pelo roteirista de Bem-Vindo ao Clube, cujo tema “psicologia-amor-e-reinvenção-da-mulher” é semelhante ao de Decor), quanto para o atual momento político da sociedade egípcia.

A personagem feminina clássica do cinema egípcio também é discutida em suas muitas prisões e lutas pela liberdade. Percebam que Maha desobedece ao toque de recolher assim como as atrizes dos filmes dentro do filme (meta-metalinguagem) tentam sair da situação desconfortável em que se encontram. Os homens, por sua vez, são passivos, acostumados a saírem vitoriosos em discussões, muitas vezes apelando para elementos ético-morais como forma de convencimento. Nas discussões entre Maha, Cherif e Mustapha essa luta aparece com força, estabelecendo aí uma nova identidade e um novo papel para a mulher, para o homem, para o humano que habita esse “deserto do real” aonde todos são muito bem vindos e de onde ninguém consegue sair.

A colocação do cinema como base de construção fez de Decor uma viagem pela cinematografia de cineastas que exploraram a metalinguagem, a liberdade e a transformação da mulher, o amor ao cinema, as caóticas relações humanas. Sombras do já citado Woody Allen e elementos da obra de Ingmar Bergman, John Cassavetes e Douglas Sirk aparecem na direção, fotografia e arte, com variação plenamente psicológica no decorrer da fita (atentem para o título e para o fato de Maha ser diretora de arte e continuísta), tornando os dilemas da obra e o seu material bruto (os percalços para se fazer um filme) como próprio alvo e objeto de discussão, afinal, filmes são feitos por pessoas com problemas que não vemos nos filmes, uma entrega que reparamos apenas no final, em um momento revelador semelhante ao que Fellini nos presenteou em E La Nave Va ou que Hazanavicius nos presenteou em O Artista.

O território satírico e emotivo que o elenco de Decor pisa torna a todos humanos e estranhamente parecidos com o público. Curioso que a atriz Horeya Farghaly não usou maquiagem em nenhuma cena do longa e é justamente ela que mais brilha e se destaca através da afinidade com o público, uma eleição que percorre os bastidores da produção de um filme, que descobrimos apenas no último segundo tratar-se da produção de uma vida, como se estivéssemos em uma crônica de Abbas Kiarostami dentro da dinâmica de A Vida em Preto e Branco (1998). Decor é uma estilosa e original adição aos filmes metalinguísticos e de homenagem ao cinema, com a diferença de que o espectador precisará de um mapa e muita sanidade para sair da sessão no mundo que acha que é o real…

Decor (Egito, 2014)
Direção: Ahmad Abdalla
Roteiro: Mohamed Diab
Elenco: Khaled Abol Naga, Maged El Kedwany, Horeya Farghaly, Samar Morsi, Mahmoud Hamdy
Duração: 116 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.