Crítica | Deixa Ela Entrar

estrelas 4,5

Esse filme sueco de 2008 foi uma sensação internacional e, como de costume, foi refilmado nos Estados Unidos e lançado em 2010. Apesar de a refilmagem ser, milagrosamente muito boa, o original continua sendo um marco nos filmes vampirescos mais recentes.

Em um subúrbio de Estocolmo, vive um menino de 12 anos chamado Oskar (Kare Hedebrant), muito pálido, fruto de um lar com pais separados e alvo de perversidades dos valentões de sua escola. Ele é sozinho até que repara que um senhor, junto com uma menina da sua idade, se mudam para o apartamento ao lado. O nome dela é Eli (Lina Leandersson), também solitária. Os dois se encontram no playground gelado do conjunto habitacional sem graça onde vivem e logo criam laços de amizade.

Ao mesmo tempo, descobrimos que o senhor que vive com Eli tem o hábito de assassinar pessoas para retirar seu sangue. Após seu mais recente assassinato, ele é quase flagrado por duas mulheres e tem que sair correndo sem levar o sangue que havia recolhido. Apesar de desde o começo nós espectadores termos notado algo estranho com Eli, só quando a vemos sentir fome por que o senhor que cuida dela não trouxe o sangue de volta é que começamos a efetivamente acreditar no que ela é. A confirmação vem quando Eli, desesperada de fome, ataca um homem embaixo de uma ponte para sugar todo seu sangue.

É, Eli é definitivamente uma vampira e o senhor que vive com ela é seu guardião/serviçal, em uma estrutura que lembra o clássico seminal Drácula, de Bram Stoker.

Mas o que faz esse filme ser diferente e melhor que a maioria dos filmes de vampiro atuais é a forma que o assunto é tratado. Eli é solitária, mas precisa de um guardião para sobreviver. Seu guardião já está velho e falha muito. Ela encontra Oskar e certamente sente alguma atração por ele. Mas será que o que sente é 100% genuíno? Será que não está tentando atrair Oskar para sua armadilha e convertê-lo em seu futuro guardião?

O filme não tem respostas fáceis. É uma história de amor e amizade com certeza. Eli, em algum momento no passado, provavelmente teve sentimentos pelo seu idoso guardião, mas, agora, ele está perdendo sua função. Oskar pode ser uma boa substituição. O garoto basicamente não tem para onde ir e, como fica claro logo no começo do filme, tem alguma compulsão por morte: sua primeira frase no filme é “Grite como um porco“, enquanto simula com uma faca algumas estocadas em uma árvore. Ele também tem o hábito de guardar reportagens de jornal em que assassinatos são abordados. Estranho para um garoto de 12 anos, mas muito conveniente para uma vampira da mesma idade na aparência.

Mas também é evidente que Oskar realmente passa a gostar de Eli e é bem possível que ela tenha sentimentos verdadeiros por ele. O filme pode ser uma história de amor (impossível?) verdadeiro e que tudo que mencionei acima esteja em minha imaginação. Você escolhe. O final, também, pode ser feliz ou triste, dependendo de sua interpretação. É essa ambiguidade, representada também pela pergunta recorrente de Eli a Oskar: “Você gostaria de mim mesmo que eu não fosse uma menina?“, que retira o filme da vala comum.

Aliás, interessante essa pergunta, não? Mais interessante ainda é o que ela deixa no ar e no que somos levados a crer por uma inteligente cena de um microsegundo mais para o final da película que não revelarei aqui para não induzir ninguém a pensar uma coisa ou outra. É um momento daqueles do tipo “se piscar, perdeu”, mas que acrescenta outras camadas à narrativa de John Ajvide Lindqvist, autor tanto do roteiro quanto do romance de 2004 que deu base a ele.

E, mesmo com essa ambiguidade toda, Deixa Ela Entrar não deixa de ser um filme de horror, com boas doses de sangue. Não há nada gratuito e o sangue não jorra aos litros, mas as cenas são perturbadoras o suficiente para ficar na mente muito tempo depois do final da projeção. A sequência de ação final, em uma piscina, é o ápice do minimalismo e é brilhantemente executada por uma direção “em primeira pessoa” de Tomas Alfredson, que faz muito uso de câmera na mão, desnorteando o espectador assim como os personagens estão desnorteados. Aliás, Alfredson, com o belo trabalho de fotografia de Hoyte Van Hoytema, nos apresenta a um mundo opressor, pesado, escuro, literalmente sem saída. Com muito preto, marrom e cinza, eles não facilitam a adaptação do espectador a esse ambiente e demonstram, em imagens, os sentimentos tanto de Oskar quando de Eli. Os dois são párias que não conseguem se adaptar ao mundo iluminado e “normal”. O mito do vampiro é utilizado para trabalhar a solidão, a vida à margem da sociedade como a conhecemos.

Aliás, sobre o mito do vampiro, o roteiro, vale dizer, mantem os elementos formadores das lendas desses seres da noite, especialmente aquele que diz que um vampiro só pode entrar em algum lugar se for convidado que, aliás, inspira o nome da obra. Alguém alguma vez parou para pensar no que aconteceria com um vampiro se ele entrasse sem ser convidado? Pois bem, nesse filme vemos uma das possíveis respostas.

Deixa Ela Entrar é um filme de vampiros que tenta trazer a questão para um ambiente realista, com pessoas normais, atuando normalmente, dentro do que é possível para um vampiro, claro. Quando Chega a Escuridão, uma pérola vampiresca esquecida, é o que me veio à cabeça assim que acabei de assistir as desventuras da pequena Eli. Pena que seja necessário fazer tanta coisa ruim para que se chegue a dois ou três filmes de vampiro que se salvem.

Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in) – Suécia, 2008
Direção: Tomas Alfredson
Roteiro: John Ajvide Lindqvist
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg, Ika Nord, Mikael Rahm, Karl-Robert Lindgren, Anders T. Peedu, Pale Olofsson
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.