Crítica | Deixa Rolar (2014)

estrelas 2,5

Segundo longa do diretor Justin Reardon, Deixa Rolar é o tipo de filme que não domina a própria proposta, ou finge dominá-la. Justifica um clichê apontando a sua existência, diminui o amor para logo se lançar nele o mais explicitamente possível – mas tentando ser sutil quando isso acontece pela primeira vez desde a infância do protagonista -, debocha da comédia romântica e mergulha totalmente nos seus padrões hollywoodianos. No fim, pouco nos apresenta de relevante além do usual.

Na típica uma hora e meia do cinema estadunidense nesse gênero, acompanhamos um roteirista (Chris Evans) que, a princípio, não acredita mais no amor, depois de ter sido abandonado pela mãe quando criança. Ainda assim, acumula um histórico de “peguetes”, reduzidas a motivo de piada sem graça nos poucos segundos em que aparecem em tela, como se cada pessoa pela qual não nos apaixonamos não tenha personalidade e, ainda assim, no final das contas prevalece o cúmulo da ideia, conscientemente ou não na escrita do roteiro, de que um homem e uma mulher, ou do par que o seja, não podem sustentar uma amizade sem acabar namorando ou brigando.

Tudo, é claro, muda quando nosso homem conhece a garota pela qual enfim se apaixona (Michelle Monaghan) em um evento de caridade, então iniciando um processo de negação que, porém, logo é deixado de lado, restando uma mera ponta de dúvida por algum tempo. Nada há de imprevisível no avanço do relacionamento dos dois ou nas familiares fases nele retratadas, incluindo o final. O único diferencial verdadeiro é que os personagens reconhecem esse processo, estão cientes dele, debatem-no, valorizam-no e debocham-no, assim como a garotada da série Pânico demonstra a consciência de uma geração que viu no cinema o que eles vivem em sua realidade, mas no final o resultado é exatamente o mesmo. Não que o casal não pareça à vontade em cena e que a química entre os dois não se desenvolva bem, mas o roteiro pouco contribui para que de fato nos importemos com o destino deles.

Se em Pânico sabemos o que esperar, contudo, o mesmo não acontece em Deixa Rolar, que parece ousado a princípio, o que se poderia chamar de “filme cabeça” em sua introdução, e cai praticamente na mesmice já mencionada. Somos enganados, para pior. O longa perde ainda mais pontos ao tentar justificar a própria mediocridade, por exemplo, quando o avô do protagonista chega ao extremo de classificar a sátira ao melodrama como “coisa de homem e não da Disney” – essas justificativas desastrosas são perceptíveis em vários momentos.

Como produto final, os diálogos do roteirista com sua trupe sobre o amor, ao estilo O Virgem de 40 Anos, rendem os melhores momentos de fita, com direito a uma hilária cena melodramática dublada, clara referência às novelas estrangeiras transmitidas em canais abertos. Destaca-se, todavia, como mais uma produção que quer nos fazer engolir mais do mesmo sob uma pretensa quebra de paradigma.

Deixa rolar (Playing it cool), EUA – 2014
Direção: Justin Reardon
Roteiro: Chris Shafer, Paul Vicknair
Elenco: Chris Evans, Michelle Monaghan, Topher Grace, Aubrey Plaza, Luke Wilson, Martin Starr, Anthony Mackie, Ioan Gruffudd, Philip Baker Hall, Patrick Warburton
Duração: 94 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.