Crítica | Deixe-me Entrar

Em 2004, o autor John Ajvide Lindqvist lançava o livro Deixe Ela Entrar, que em 2008 ganhou uma adaptação homônima por Thomas Alfredsson (diretor do divisor de opiniões Boneco de Neve). O diretor de Cloverfield – Monstro, Matt Reeves, dirigiu e escreveu, em 2010, uma adaptação ainda mais preciosa do livro de Lindqvist. Com todo o lado sentimental do livro – passado para o audiovisual em composições de cores e planos fechados e longos – adaptado com bons méritos por Alfredsson, o longa americano adapta para os EUA os problemas políticos tratados no livro – além de reforçá-los – e, muito além, cria analogias visuais, em momentos difíceis ou naqueles sem a mínima expressão aparente, que tornam Deixe-me Entrar uma obra tanto pessoal quanto atemporal sobre amor, melancolia, e as emoções mais carnais.

Quando Owen, um menino de 12 anos de idade, interpretado por Kodi Smit-Mcphee, com um singular voyeurismo para sua idade, encontra-se pela primeira vez com o suposto pai de Abby, interpretados respectivamente por Richard Jenkins e Chloë Grace Moretz, ambos estão colocando algo na boca que os levará a uma possível morte (o niilismo é uma constante nessa história). O filme, nesse momento, cria um paralelo inquebrável entre a vida desses dois personagens, que nunca trocarão uma palavra. Ao conhecer Abby, Owen diz que não procura um amigo, respondendo a frase da menina que, tentando evitar o inevitável, diz que eles não podem ser amigos. É a partir daí, também, que o laço entre esses personagens é criado.

O nome do filme não se refere a uma situação de cortesia, em que você deve deixar um convidado especial entrar a sua casa. Muito menos se refere a algo que você não queira em sua casa: sim é a resposta inevitável. Você deixará entrar. Porque o que Reeves mostra, desde a primeira cena com Owen, é a solidão da condição humana – fazendo um bonito paralelo político com uma cidade de onde as pessoas preferem sair e ninguém que ir (como bem fala Owen), nos anos 80, no governo Reagen, em plena crise econômica e de confiança. E o que deixamos entrar com essa solidão senão os desejos mais primitivos, como a violência. A violência que assola o menino solitário logo se torna a violência dentro dele, sedento por vingança – outra diferença para a adaptação de Alfredsson, na exploração desse tema, é a linguagem visual que sempre faz referência aos Mass Shooting nas escolas americanas (muito há de se lembrar nesse filme de Elefante, de Gus Van Sant). E a paixão avassaladora por Abby, a única pessoa presente em sua vida (sim, ele é aquele menino cujos pais estão sempre ausentes) que não o maltrata, move o filme para um outro patamar.

Apesar de ser a representação de um mal extremamente primitivo, a menina Abby, quando a amizade com Owen começa a aflorar, é sempre mostrada sob a luz (nunca do dia, evidentemente). Seus cabelos louros, outro diferencial da adaptação de Reeves, traz sempre um visual de luz às cenas em que está com o menino. Porque ela é, de fato, a luz em sua vida. É a luz de um menino solitário, em uma crise de sentimentos tão infinita quanto de qualquer adulto, que ele, mesmo sem saber, provavelmente nunca sairá. Pelo menos não levando a mesma vida. Abby parece ser para ele a porta para uma nova vida, quando está com ela nada mais é escuro – apesar de ser, sim.

Mas ela é a violência, ela é o desejo mais carnal no amor humano, o amor dela sempre trará ciúmes revoltantes para seus amantes – a cena em que o personagem de Richard Jenkins faz um certo pedido a ela, e a cena em que Owen acha uma sequência de fotografias na mesa da menina, são um interessante paralelo –, porque o amor dela precisa ser renovado, enquanto carne, para sempre. E os humanos morrerão perdidos na lama de suas próprias emoções e dos males que eles próprios deixaram entrar.

Em muitas cenas a exploração do preto com alguma luz, iluminando mínimas partes do cenário (alguns deles são quase exclusivamente formados por esse contraste), entra para reforçar a condição do humano de insatisfação emocional alternada com a incansável esperança. Ou, quando Reeves escolhe deixar para lá o cenário, a câmera entra em close-up nos seus personagens, mostrando seus rostos por longos períodos de tempo, durante suas longas reações ao que acontece – gerando, sempre, os momentos mais maravilhosos do filme, e que o tornam ainda melhor concretizado enquanto audiovisual do que o longa de Alfredsson, como a cena em que Owen espiona Abby trocando de roupa no quarto de sua mãe, ou a inesquecível, e mais brutal (emocionalmente) do filme, cena do banheiro de Abby.

Quando o menino a deixa entrar em seu quarto, a cena é filmada mostrando apenas seus rostos durante a conversa não para esconder a nudez contida na cena, e sim porque, a partir daquele momento, as duas crianças criariam uma conexão entre si tão forte quanto o destino quis – vale lembrar que a cena, já citada, do primeiro encontro entre o personagem mais jovem e o mais velho do filme é toda filmada como essa, em primeiros planos alternantes. O ciclo reinicia.

Deixe-me Entrar (Let Me In) – Reino Unido, EUA (2010)
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves (baseado na obra de John Ajvide Lindqvist)
Elenco: Kodi Smit-Mcphee, Chloë Grace Moretz, Richard Jenkins, Elias Koteas, Dylan Minette, Cara Buono, Sasha Barrese, Dylan Kenin, Chris Browning, Ritchie Coster, Jimmy ‘Jax’ Pinchak, Nicolai Dorian, Rebekah Wiggins
Duração: 116 minutos.

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...