Crítica | Deixe-Me Viver (2002)

Deixe-Me Viver é um filme sobre libertação. Durante os seus 109 minutos, as personagens se apresentam diante de uma série de dramas envolvendo o tema central, isto é, o ardoroso processo de amadurecimento de uma jovem que é obrigada a viver diante de uma situação de mudanças constantes, com modelos e representações maternas que não conseguem estabelecer uma linha de contato eficaz. Sem ter a possibilidade de contato socialmente saudável com a sua mãe, a jovem protagonista desse drama passar por situações difíceis e enfrenta o magnetismo psicológico que a presença da sua mãe tem sobre sua existência cotidiana.

Dirigido por Peter Kosminsky, mais experiente com produções televisivas, o drama não é um dos melhores desempenhos das atrizes que estampam a ficha técnica, mas representa uma história relevante quando pensamos as referências ao ideal de maternidade pelo viés da linguagem cinematográfica. Inspirado no livro As Flores Brancas de Oleandro, da escritora Janet Fitch, o roteiro de Deixe-Me Viver foi assinado pela dramaturga Mary Agnes Donaghue, profissional responsável pelos diálogos básicos e conflitos que poderiam ser mais delineados, mas que ainda assim, revela-se um filme inspirador sobre

O ponto de partida para compreensão da história é observar o comportamento de Ingrid (Michelle Pfeifer), uma temperamental artista plástica respeitada que, ciente da sua beleza e charme, decide que não quer ficar sozinha, algo que a faz assassinar o namorado envenenado só porque ele a estava largando por outra mulher. Com Astrid (Alison Lohman), a filha de doze anos praticamente abandonada por conta dos acontecimentos, ela assiste à garota indo de um lar adotado para outro, se deslocando constantemente. Nos Estados Unidos, como abordado pelo filme, há um programa estatal que ajuda famílias que adotam jovens em situação semelhante. Será assim que no destino de Astrid, figuras impares vão passar: Starr, Claire e a própria mãe, mulher que só tem a filha como elo do lado de fora da cadeia.

Diante da situação exposta, Astrid é entregue para a adoção e precisa viver em lares onde passa as situações mais inusitadas da sua vida. Primeiro ela vai morar com Starr (Robin Wright), uma mulher que já viveu como stripper e na atualidade desenvolve atividades religiosas. Ela representa o cinismo típico de pessoas que utilizam a fachada religiosa para demonstrar qualidades socialmente aceitáveis. Seu papel na vida de Alison é pouco expressivo, pois logo mais a garota vai se deslocar para a casa de Claire Richards (Renee Zelwegger), uma atriz em declínio que assiste o seu casamento desmoronar cotidianamente. Ela quer “ser mãe” de qualquer jeito e faz o possível para agradar a adolescente que responde constantemente de maneira agressiva, reflexo das ressonâncias psicológicas da mãe presidiária em sua vida

Narrado por meio da montagem linear de Chris Ridsdale, Deixe-Me Viver é um filme objetivo. Não há experimentação ou ousadia, os personagens cumprem seus papeis burocraticamente, o que não significa falta de qualidade narrativa, mas apenas a covardia em ousar. A direção de fotografia do competente Elliot Davis cumpre bem a sua função, tal como Thomas Newman, responsável pela condução musical da produção. O destaque vai mesmo para direção de arte de Anthony R. Stabley, criador do painel de cores que aparecem na narrativa para complementar as metáforas. Com uso constante do azul nos primeiros momentos, há uma profusão de cores na primeira virada dramática, com a chegada de Alison na casa de Starr, o que muda com a ida para o lar de Claire, casa com ambientação organizada por tons pastéis.

Lançado em 2002, Deixe-Me Viver é um filme que nos faz questionar, inclusive, se podemos discutir questões como “instinto materno”. Isso realmente existe? O que há por detrás dessa discussão? “Ser mulher não implica ser mãe”, aponta o psicólogo Mariano Torres em uma reportagem para a Revista Fórum há algum tempo. Segundo o especialista, “ainda existe muita pressão social sobre as mulheres, algo alimentado pela falsa equação: ser mulher é ser mãe”. Conforme destaca o psicólogo, “associa-se a ideia de bondade e a generosidade às mulheres que querem ser mães e o egoísmo aqueles que rejeitam a maternidade, como se fossem individualistas ou só se preocupassem apenas com as suas necessidades”. Existe algum tipo de talento nato ou habilidade natural ou estamos diante de uma padronização social? Clarice, Starr e Ingrid são mães capacitadas para o exercício da maternidade? Ingrid, ao cometer o crime e se isentar da criação da filha, pensou em como deixaria a sua “cria”? O que acha, caro leitor?

Deixe-Me Viver — (White Oleander) Estados Unidos, 2002.
Direção: Peter Kosminsky
Roteiro: David Lindsay-Abaire
Elenco: Alison Lohman, Billy Connolly, Cole Hauser, Michelle Pfeiffer, Patrick Fugit, Renée Zellweger, Robin Wright Penn
Duração: 109 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.