Crítica | Déjà Vu (Solo #5)

estrelas 4,5

Assinada por renomados artistas, como Tim Sale, Paul Pope e, neste caso específico, Darwyn Cooke, a revista Solo traz uma coletânea de histórias de caráter mais autoral. A liberdade criativa de cada edição é garantida e cabe ao escritor decidir qual personagem da DC Comics ele irá utilizar. Em Deja Vu, último trecho de Solo #5, Cooke nos leva a Gotham City, mergulhando-nos de cabeça nos traumas de Batman em uma narrativa baseada na famosa história Night of the Stalker, publicada em Detective Comics #439.

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Ele não quer conversa!

Um casal e seu filho, recém saídos do teatro, se veem no meio de um assalto. Poucos instantes depois o menino se vê diante de seus pais assassinados, enquanto os criminosos escapam em seu carro. Quem vemos, porém, não é Bruce Wayne e sim mais uma criança inocente tornada órfã e, dessa vez, o Homem-morcego presencia a cena, relembrando de sua própria infância. Darwyn trabalha em cima dessa simples premissa para construir uma dramática história de vingança. Não vemos aqui a usual busca pela justiça e sim o vigilante levando tal ocorrido para o lado pessoal, algo deixado bastante claro por um único quadro de Batman olhando espantado para o ocorrido.

O roteiro, no entanto, não trabalha da forma óbvia e não entrega sequer um balão de fala para Wayne. O personagem entra e sai da história de forma silenciosa, algo que somente aumenta nossa percepção de sua ira. Essa sensação, claramente, passa para os antagonistas da história, que, aos poucos, assumem um crescente medo em relação ao herói mascarado. Esse fator é ainda ampliado pela crueza da história, que não poupa esforços para soar não só realista, como violenta, refletindo bem o caráter de Gotham.

Apoiando a carga dramática, proveniente das próprias experiências traumáticas de Wayne, temos a precisa utilização das cores pelo próprio Cooke. O vermelho é uma constante, refletindo a raiva do protagonista e, em conjunto às outras tonalidades escuras, como o preto ou o roxo, presenciamos a solidificação do tom mais sombrio desta narrativa. Não somente isso, como também o caráter íntimo da história, que admite uma abordagem mais humana do personagem – não vemos o detetive, o herói e sim um abalado ser humano.

O traçado de Darwyn ainda presta uma clara homenagem à história original de 1974, ao nos trazer um estilo que rapidamente remete aos anos 60-70. O próprio uniforme de Batman, embora seja bastante diferente do utilizado na revista Detective Comics #439, faz uma menção às origens do herói, com um visual bastante similar ao que vemos em Ano Um.

Com um roteiro simples, mas dramático e bem conduzido, Darwyn Cooke nos traz uma narrativa que não só homenageia aos anos anteriores do herói, como se sustente por si só, acrescentando para o grande acervo do homem-morcego. Deja Vu nos oferece um olhar íntimo sobre Batman e como seus traumas de infância ainda contam com uma grande força sobre ele, não só moldando seu estilo de vida, como trazendo uma grande tristeza.

Déjà Vu – Solo #5 (EUA, 2005)
Roteiro: Darwyn Cooke
Arte: Darwyn Cooke
Cores: Darwyn Cooke
Páginas: 12

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.