Crítica | Demolidor – 1ª Temporada

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estrelas 4,5

Obs: Podem ler tranquilos. Não há spoilers. Leia, aqui, um Entenda Melhor com todas as referências da série aos quadrinhos.

Depois que acabei de assistir a aguardada primeira temporada de Demolidor, nova série produzida pela Marvel e ABC exclusivamente para o Netflix, tive a certeza de finalmente ter testemunhado uma adaptação de quadrinhos super-heroísticos que foge ao sub-gênero em que está inserida, de maneira semelhante ao que Christopher Nolan conseguiu com seu Batman – O Cavaleiro das Trevas. A série mostra que há espaço para se trabalhar um herói adorado pelos fãs ao mesmo tempo respeitando integralmente sua mitologia e apresentando, para os não-iniciados, material de primeira que pode ser apreciado independentemente de qualquer outra consideração.

Demolidor é uma série de TV policial em um primeiro momento, um thriller dramático em um segundo momento e, só depois, uma obra baseada em quadrinhos de super-herói. E, de maneira distante, é, finalmente, uma série inserida em um contexto maior conhecido como o Universo Cinematográfico Marvel. Em outras palavras, há vários níveis em que o espectador pode apreciar Demolidor e nenhum deles é necessariamente inferior ao outro.

Esqueçamos, por um momento, que se trata de uma série baseada no personagem Demolidor, criado por Stan Lee e Bill Everett (e também por Jack Kirby, não se pode deixar de citá-lo) em 1964 e que já surgiu nas telinhas uma vez em O Julgamento do Incrível Hulk, em 1989 e, no cinema, em seu filme próprio, de 2003. Esqueceram?

Pois bem. A série não se fia nesse aspecto. Ela tem vida própria desde seu nascedouro, com criatividade e inteligência. A estrutura é de série de investigação policial em que um grupo de pessoas – os advogados iniciantes Matt Murdock e Foggy Nelson e a vítima transformada em secretária/braço direito Karen Page – tenta desbaratar a onda de crimes que assola Hell’s Kitchen ou Cozinha do Inferno, região mais ou menos compreendida entre as ruas 34 e 59 e 8ª Avenida e o rio Hudson, em Manhattan, Nova York. Mas Matt Murdock, cego desde os nove anos em razão de um acidente com elementos químicos que amplificaram seus demais sentidos a níveis sobre-humanos, também atua à margem da lei, como um vigilante mascarado vestido de preto.

Steven S. DeKnight, o showrunner, sabe que a humanidade de seus personagens é o mais importante, ao ponto de abafar inteligentemente a relevância dos super-poderes de Murdock. Pouco vemos de suas habilidades especiais e toda vez que há um combate, sentimos o esforço do personagem em derrubar a socos e pontapés seus adversários (que, diga-se de passagem, são seres humanos comuns, não alienígenas ou super-vilões) em lutas coreografadas com habilidade e veracidade. Repare, por exemplo, na luta ao final do segundo episódio em que Murdock, com seu uniforme improvisado, tem um longo embate com diversos capangas armados: cada soco é dado com o corpo, não só com a mão; cada pontapé começa com um impulso, nunca vindo do nada; cada segundo de descanso que o herói tem ele aproveita para recuperar o fôlego. A luta é difícil, penosa, dolorosa e, dentro da lógica de uma série de TV em que o protagonista tem habilidades especiais, mas não conta com superforça, martelos mágicos ou visão de calor, perfeitamente crível. Arriscaria até a dizer que é sem precedentes. E nem abordarei, aqui, o fato de ela ser um plano-sequência sem cortes, o que acrescenta outra camada de apreciação.

Com isso, DeKnight vai, sem pressa, envolvendo o espectador, cadenciando até mesmo os atos de violência extrema (ou quase), que somente aparecem mais para a frente na série, quando ele já foi fisgado e não há volta. Há, também, um senso de inocência em Matt Murdock e também em Foggy e Karen. Eles querem ajudar a população local, mas não fazem ideia do tamanho do problema em que estão se metendo. Da mesma maneira que nós não podemos parar de assistir com a densidade crescente dos episódios, os personagens também não mais conseguem se desvencilhar do inevitável processo forçado de amadurecimento que a realidade nua e crua joga no colo deles. Nós crescemos com cada um deles até porque somos apresentados a cada um deles no começo de suas respectivas carreiras. Matt e Foggy são advogados cuja prática tem, como eles dizem logo no primeiro episódio, apenas sete horas e Karen foi jogada no fogo violentamente. Nesse ponto, ninguém entende o escopo de nada – nem nós -, mas há uma sombra se agigantando, sombra essa  projetada por Wilson Fisk, homem cujo nome não pode ser dito e cuja imagem não pode ser vista por ninguém.

A construção de cada personagem é outro triunfo da série, que nos faz genuinamente nos preocupar com eles. Matt Murdock – o Demolidor – nem de longe lembra outros super-heróis que vemos por aí. De “super” mesmo, só sua vontade de fazer o bem, de ajudar a limpar Hell’s Kitchen dos maus elementos. Mas ele não tem um escudo inquebrável, supervelocidade ou uma armadura voadora. Ora, ele nem mesmo tem um arco para atirar flechas! Ele só tem uma roupa que qualquer um pode comprar pela internet (exatamente o que ele faz, aliás) e força de vontade. Sim, ele tem domínio de artes marciais e é dono de um radar que o faz menos cego do que a maioria das pessoas que podem enxergar, mas ele continua sendo só um cara vestido de preto que fica com o rosto roxo depois de um soco e que sangra quando é perfurado por lâminas e balas. O mesmo vale para o alegre Foggy Nelson, que tem fortíssimo laço de amizade com Murdock e Karen Page, a vítima que logo se torna peça essencial na narrativa. Somados a eles, há, ainda, o repórter Ben Urich, da velha guarda, que sempre busca a verdade da maneira mais ética possível.

Cada um deles é vivido por um ator escolhido a dedo em uma combinação improvável. Charlie Cox, ator até agora inexpressivo, tem a oportunidade de uma vida ao encarnar Matt Murdock/Demolidor. Seu trabalho molda o personagem com humanidade e força. Nada de músculos definidos ou beleza adolescente. Ele é um homem profundamente religioso que tem uma missão, mas não tem certeza que pode fugir do demônio que o assombra. Vemos a dúvida em seu semblante o tempo todo e isso é essencial para que acreditemos nele como alguém falho, mas obstinado; solitário, mas amigo; verdadeiro, mas com segredos sombrios. Seu melhor amigo, Foggy Nelson, é vivido por Elden Henson, outro ator substancialmente desconhecido, mas que consegue ser, facilmente, a luz enquanto Murdock é a escuridão. Sua felicidade inebriante mesmo diante das mais adversas situações leva aos únicos momentos descontraídos da temporada que, porém, nunca são forçados goela abaixo ou repetitivos. A bela Deborah Ann Woll (Jessica Hamby, de True Blood) vive Karen Page, a “donzela em perigo” que  imediatamente dá a volta por cima e mostra ser muito mais do que esse rótulo injusto que usei indica. E, finalmente, mas não menos importante, há o excelente Vondie Curtis-Hall no papel de Ben Urich, emprestando sua veteranice ao personagem que exige justamente isso.

Mas a série não investe só nos heróis. É verdade que a maioria dos vilões a que somos apresentados – os russos, Madame Gao e Nobu – é formada por personagens que não são muito desenvolvidos, pelo menos não nessa temporada e, no frigir dos ovos, poderiam ser rotulados como rasos. Acontece que essa pouca profundidade tem uma razão muito clara: Wilson Fisk. A riqueza do personagem vilanesco é estupenda e muito se deve à atuação inebriante de  Vincent D’Onofrio, em um papel que é uma combinação, quase em partes iguais, de seu recruta Gomer Pyle em Nascido Para Matar e de seu detetive Robert Goren em Lei e Ordem: Crimes Premeditados. Quando o vemos pela primeira vez, a câmera está em sua mão, especialmente no tique nervoso em seu dedo quando ele observa um quadro em uma galeria de arte. Esse pequeno aspecto já prenuncia o tipo de personagem que tomará a telinha de assalto dali para a frente: um homem de profunda tristeza, que encontra esperança de normalidade por intermédio de uma mulher, mas que sabe exatamente quem é e o que deseja. Cabe a nós, espectadores – e aos heróis da série – descobrir exatamente quem ele é e é aqui que o roteiro tem seus momentos de verdadeiro brilhantismo: tudo é relativizado e rótulos são derrubados. As dúvidas de Matt Murdock sobre quem ele é e qual é sua missão refletem no que Wilson Fisk é ou diz ser e vice-versa. É um fascinante jogo psicológico que empresta mais camadas ainda à uma série que, ela própria, foge de rotulação.

E essa fuga de rotulação não existe apenas na tentativa de classificar a série como sendo ou não “de super-herói”. Há outros aspectos ainda que não podem ser esquecidos e que afastam o trabalho do showrunner do lugar-comum. Quer um exemplo simples? O artifício do flashback, algo useiro e vezeiro em literalmente todas as séries em andamento. Em Demolidor, seu uso é cirúrgico e não segue um padrão pré-estabelecido. Ele existe para enriquecer a história e não só para existir, para ocupar tempo dos episódios ou para introduzir aspectos narrativos externos ao que vemos no presente. Da mesma maneira, o tom sombrio não é aleatório. Não é o “sombrio” só porque é moda. A escuridão, talvez até mais do que no já citado filme de Nolan, é parte da estrutura narrativa. Olhamos para um microcosmo de uma cidade, um microcosmo sujo e aterrador que tem suas próprias regras e com um protagonista que depende do elemento surpresa gerado pela escuridão para compensar o fato de ser alguém quase comum. Mas o sombrio da série está presente mesmo nas sequências fotografadas à luz do dia. Afinal, é ou não sombrio o apartamento asséptico de Fisk e seu ritual matinal de omelete e escolha de ternos (todos quase iguais)? É ou não sombria a vista panorâmica da cidade que vemos a partir da outra margem do Hudson, com um peso que sabemos que existe e que é quase palpável? É ou não sombria a sequência artificialmente idílica da iluminada conversa entre Madame Gao e Wilson Fisk no topo arborizado de um prédio em Manhattan? Sombrio não necessariamente é escuro. Sombrio é o estado de espírito da série, algo que em nenhum momento – nenhum mesmo – perdemos de vista. E, quando a escuridão é quebrada, ela é quebrada por uma luz amarelada que nos remete à enfermidade, claramente significando a infecção putrefata por que passa a Cozinha do Inferno.

Repararam como até agora eu escrevi, escrevi, escrevi e não falei sobre o que os fãs de séries de super-heróis querem ler? Essa é a riqueza de Demolidor, uma série que vai muito além do que, em análise perfunctória, promete ser. Mas, para os fãs do Demolidor e/ou do Universo Cinematográfico Marvel, a alegria deve ser intensa também. Essa série é uma espécie de templo em que as páginas dos quadrinhos ganham vida, sem alterações substanciais, na telinha. É, possivelmente, a melhor adaptação até hoje de algum personagem Marvel, quiçá a melhor adaptação de um super-heróis mainstream para o audiovisual. Literalmente tudo que Frank Miller escreveu sobre o Demolidor (tanto em seu período inicial, de 1979 a 1983, quando em A Queda de Murdock e também na minissérie de origem) está na série ou potencialmente pode ser trabalhado em novas temporadas: a religiosidade do personagem, seu pai e sua mãe, vários de seus inimigos, sua famosa ex-amante, seu mentor, um certo clã de ninjas, o passado de Karen Page, a relação Foggy-Matt e uma infinidade de outros aspectos também de outros autores, como Brian Michael Bendis em seus quatro anos à frente do personagem.

Sobre o Universo Cinematográfico Marvel, a série está profundamente encravada nele. Mas não espere menções escancaradas e mal-escritas. Tudo é trabalhado com discrição, dentro do que é realmente necessário. Homem de Ferro, Capitão América, Thor e Hulk têm suas presenças sentidas, mas eles todos estão distantes da realidade do “herói urbano” por excelência que é marca registrada do Demolidor. Os Vingadores cuidam do macro, o Demolidor do micro. Há espaço para convivência perfeita dos dois tipos de heróis, sem que um precise fazer  vista ao outro. E Demolidor – a série – é tratada com consequência direta da Batalha de Nova York, aquela que vimos em Os Vingadores e a ação começa 18 meses depois que alienígenas quase destruíram a cidade.  O caos causado pela cidade, mais especificamente em Hell’s Kitchen, é usado como trampolim para toda a mecânica por trás da presença de aproveitadores de toda a sorte, dos pequenos ladrões até Wilson Fisk. Tudo se justifica em uma escala, porém, que não alcança os olhares dos grandes super-heróis dos filmes, permitindo a presença do Demolidor como um vigilante local. A série, em outras palavras, ocupa um espaço que coexiste com tudo o que vimos até agora de maneira pacífica e astutamente escrita.

Há defeitos na temporada? A grande verdade é que sim, há alguns defeitos, alguns mais visíveis, outros menos. O que mais me chamou atenção foi a necessidade constante de diálogos expositivos para reiterar algumas situações, especialmente a rede de vilões controlada por Fisk e sua estrutura corporativa. A reiteração existe e faz parte da natureza de uma série de TV, mas, em Demolidor, ela às vezes faz a narrativa parar para que um diálogo um tanto artificial ocorra e, então, tudo continue novamente. É como se o personagem parasse, olhasse para a câmera e explicasse aos espectadores o que está acontecendo.

Outros aspectos menores são menos problemáticos, mas estão lá de toda forma. São personagens que entram e saem da temporada sem maiores explicações, alguns claramente para criar ganchos para histórias futuras, outros simplesmente por deixarem de ter utilidade. Em um caso ou em outro, são momentos que deixam dúvidas no espectador e criam pequenos buracos no roteiro. Há também, o já citado pouco desenvolvimento dos vilões em geral, notadamente dos chefões do crime parte da rede de Fisk. Eles parecem feito do mesmo material e têm quase o mesmo tipo de diálogo. Eles cumprem sua função narrativa, é verdade, e alguns obviamente serão construídos em detalhes em novas temporadas ou nas demais séries irmãs de Demolidor, mas o fato permanece e não pode ser ignorado.

Demolidor é mais um triunfo na série de triunfos do Netflix. Pode e deve ser vista por todos que gostam de séries policiais e, ao mesmo tempo, fará os olhos dos fãs da mitologia do Homem Sem Medo brilharem com uma fidelidade realmente impressionante ao material fonte. É, para as séries de TV baseadas em quadrinhos o que O Cavaleiro das Trevas foi para os longa-metragens baseados em quadrinhos.

Será duro esperar pela segunda temporada.

Demolidor- 1ª temporada (Daredevil – Season 1, EUA – 2015)
Showrunner: Steven S. DeKnight
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Charlie Cox, Deborah Ann Woll, Elden Henson, Toby Leonard Moore, Vondie Curtis-Hall, Bob Gunton, Ayelet Zurer, Rosario Dawson, Vincent D’Onofrio, Geoffrey Cantor, Judith Delgado, Rob Morgan, Wai Ching Ho, Peter Shinkoda, Scott Glenn, John Patrick Hayden, Matt Gerald
Duração: 740 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.