Crítica | Demolidor – 3ª Temporada

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E é assim, damas e cavalheiros, que se faz uma série de super-heróis! Inspirada no fenomenal arco A Queda de Murdock, a terceira temporada de Demolidor faz todas as demais séries da parceria Marvel/Netflix empalidecerem. Aliás, mentira. Ela faz todas as demais séries live-action de super-heróis DC ou Marvel empalidecerem, talvez com a honrosa exceção de Legion, que tem uma proposta muito diferente e, por isso, não pode ser comparada com propriedade com as demais.

Erik Oleson embarca como o terceiro showrunner da série e faz o que devia fazer: ele volta ao básico. Nada de ninjas mortos-vivos, nada de passados amorosos de Matt Murdock, nada de coadjuvante caveiroso para roubar os holofotes. O que vemos, na temporada, é a clássica história de queda e ascensão de um herói que, porém, só funciona de verdade porque houve cuidado na construção e desenvolvimento de uma história que realmente ocupa de maneira homogênea, sem arrastar a história, os 13 episódios regulamentares. Mas, mais importante que isso, é constatar que, assim como na 1ª temporada, houve uma imensa preocupação em se estabelecer antagonistas espetaculares, daqueles tão memoráveis como o Coringa de Heath Ledger.

O primeiro deles é Wilson Fisk, mais uma vez vivido à perfeição por Vincent D’Onofrio, que volta triunfal e diretamente para o centro do palco e literalmente servindo como o mestre manipulador de tudo e todos. Nós o vemos ainda na prisão, firmando um acordo de delação premiada com Rahul “Ray” Nadeem (Jay Ali), um agente do FBI particularmente eufórico com essa aparente vitória. Mas, claro, o Rei do Crime é o Rei do Crime e a temporada inteira é uma sucessão de desesperadas tentativas para desbaratar seu complexo jogo de xadrez em que ele está sempre cinco jogadas a frente.

Vagarosamente, a temporada vai construindo outro vilão de se tirar o chapéu, conhecido nos quadrinhos como Mercenário ou, no original em inglês, Bullseye, um habilidoso assassino que tem a capacidade quase sobrenatural de usar qualquer objeto como arma letal. Na série, ele é Benjamin “Dex” Poindexter (Wilson Bethel), um agente do FBI que ganha a admiração de Fisk que, claro, começa a lentamente manobrá-lo e trazê-lo para o seu lado. Os roteiros são muito felizes em manter a história de origem dele protraída no tempo, sem correria, mas mantendo a lógica e conseguindo, de bônus, ser tão perturbadora quanto a “origem” de Fisk que vimos na 1ª temporada, com direito a um belo episódio quase integralmente com um flashback em preto-e-branco.

Aliás, o uso de flashbacks ao longo da temporada é feito com parcimônia, mas sempre de forma relevante, além da presença de “fantasmas” para um Murdock traumatizado depois do final apoteótico de Os Defensores, em que ele é dado como morto. A volta dele é também tortuosa, difícil, cheia de dúvidas morais internas, mas a temporada não perde muito tempo em colocá-lo com a máscara preta original, praticamente o único semblante de “uniforme” que ele usa, uma escolha, aliás, muito boa para manter o grau de realismo necessário. Outro ponto importante é a efetiva introdução da irmã Maggie (Joanne Whalley), uma freira que cuidara de Matt quando pequeno, após a morte de seu pai, e que volta ao mesmo papel agora com ele adulto.

Foggy Nelson e Karen Page são também muito bem utilizados ao longo da narrativa, com papéis bem definidos e lógicos, que realmente acrescentam à história, mesmo quando eles fazem burradas, algo natural e esperado para criar aquela boa dose de suspense e, talvez, por vezes, uma leve revirada de olhos com um sorriso de soslaio. Em outra palavras, nesse belo tabuleiro que Oleson constrói, todos têm seu lugar marcado e todos fazem os movimentos que funcionam logicamente dentro do que está sendo contado, até mesmo aqueles que entram tardiamente na temporada.

Outro ponto alto – novamente! – é a coreografia gutural e realmente violenta das lutas protagonizadas pelo Demolidor. Sentimos o peso e a dor de seus golpes e, aqui, com ele agindo mesmo antes de recuperar-se completamente, nunca o vemos em plena forma, o que torna visível seu sofrimento, quase que como um castigo que ele se auto-impõe como parte da fortíssima culpa católica que sente. Vale especial destaque o longo plano-sequência auto-referencial da “luta de corredor” que já virou um clássico, e que, desta vez, acontece como parte de uma fuga de prisão. Direção impecável em uma jornada de arrepiar os cabelos da nuca.

Se Demolidor já havia apresentado uma 1ª temporada exemplar, com a 2ª caindo um pouco, a 3ª consegue ser o ponto alto da trajetória do personagem na TV até agora. É, sem medo de errar, o Cavaleiro das Trevas da televisão.

Demolidor- 3ª temporada (Daredevil – Season 3, EUA – 19 de outubro de 2018)
Showrunner: Erik Oleson
Direção: Marc Jobst, Lukas Ettlin, Jennifer Getzinger, Alex Garcia Lopez, Julian Holmes, Stephen Surjik, Toa Fraser, Alex Zakrzewski, Jennifer Lynch, Jet Wilkinson, Phil Abraham, Sam Miller
Roteiro: Jim Dunn, Sonay Hoffman, Lewaa Nasserdeen, Tonya Kong, Dylan Gallagher, Sarah Streicher, Dara Resnik, Erik Oleson, Sam Ernst, Tamara Becher-Wilkinson
Elenco: Charlie Cox, Deborah Ann Woll, Elden Henson, Joanne Whalley, Jay Ali, Wilson Bethel, Stephen Rider, Vincent D’Onofrio, Peter McRobbie, Amy Rutberg, Danny Johnson, Annabella Sciorra, Geoffrey Cantor, Matt Gerald, Ayelet Zurer
Duração: 740 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.