Crítica | Demolidor: A Autobiografia de Matt Murdock

Pois é, todas as coisas chegam a um fim. E este é o encerramento de Mark Waid (majoritariamente acompanhado por Chris Samnee) à frente do Demolidor, numa jornada iniciada em 2011, no arco Um Novo Começo, e finalizada em 2015, com esta Autobiografia de Matt Murdock. Acompanhando de maneira muito esperta as condições de vida social nos anos 2010, Waid foi capaz de criar uma saga do Demolidor sob medida para este novo tempo, adicionando em sua trajetória assuntos como migração, doenças seculares, má alimentação, obesidade, redes sociais, vigilância por todos os lados, confusão de ideias políticas e desvios comportamentais internos, bloco de seu run que, de certa forma, previu a explosão de um certo furor segregador em seu país. No processo, ainda ganharam representações aplaudíveis seus novos e velhos vilões: Coiote, Mortalha, Coruja, Rei do Crime, Ikari…

Depois dos eventos catastróficos de O Demolidor Que Você Conhece, muita coisa do plano de “revelação de algumas coisas para poder esconder outras” de Matt Murdock simplesmente deixou de funcionar. Imaginando que poderia jogar abertamente com a população (especialmente após as condições que o fizeram sair de Nova York para São Francisco, como vimos em Fechando as Portas) o herói e advogado se mostrou para o público, enquanto escondia algumas outras cartas na maga. Na vida pessoal do protagonista, Waid explora a escrita de sua autobiografia, num exercício levemente metalinguístico de roteiro, onde acontecimentos do presente do herói dialogam com suas primeiras experiências vestindo o manto (vide os encontros adicionais e “momentos não mostrados” das eras do Volume 1 e do Volume 2 nas revistas do Demolidor) e daí tira as lições de vida para combater males ou perguntas constrangedoras recentes. Esta cena de diálogo é bem representativa disso:

__ Também é o meu entendimento que você ia deixar que ele se declarasse culpado.

__ Era o desejo dele, Doutor.

__ Um desejo que você estava feliz em atender. Porque você acreditava que ele era culpado. O que aprendemos com isso? Vou te dizer… Você é um advogado. Não tem o direito de bancar juiz e júri. Existe um motivo para a Justiça ser cega. Não importa aonde você vá ou o que faça, nunca se esqueça disso…

Nesse contexto de lidar com a opinião pública e não saber se sustenta a faceta de um “livro quase aberto” ou se faz de tudo para voltar a ter uma identidade secreta (de um jeito que deixa o leitor de olhos arregalados), o Demolidor faz uma visita a alguém que ele jamais pensou que faria, para fins de acordo, de conversa de negócios. E é sob essa coluna de “pacto com o demônio” — termo que funciona simbólica e metaforicamente aqui — que Mark Waid escreve a linha central de seus últimos roteiros para o personagem.

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Há um jogo de verdade e mentira através do qual corre a personalidade e os valores de todos os indivíduos aqui. Exceto por uma recusa em amarrar mais firmemente a derradeira condição do herói — o que dá um pouquinho mais de liberdade para o próximo roteirista do título, já em seu Volume 5, Charles Soule, mas que não funcionou de maneira totalmente orgânica –, toda a saga ganha um encerramento aplaudível, que sai de um emaranhado de más experiências e chega a um momento onde as coisas começam a se resolver. Não é um final 100% feliz, mas a felicidade que Waid traz aqui não é amarga. Os laços, a comemoração, o status do Demolidor, o alcance e a possibilidade da autobiografia de Matt Murdock… todas essas coisas ganham um final de ciclo terno e respeitoso com tudo o que o autor havia levantado antes e, principalmente, com o que esperamos e entendemos ser legítimo para o personagem.

Chris Samnee também merece os louros por sua arte, sempre se adequando às sombras do ambiente urbano (nota para as ótimas cores de Matthew Wilson) mesmo com a aparência cômica, cartunesca de sua arte, numa oposição visual interessante de acompanhar, e finalizando com chave de ouro os efeitos de sensor de radar meio rosa ou roxo do herói, um dos ganhos sensacionais dessa fase, criado por Paulo Rivera no primeiro arco. Para uma jornada de publicação que começou tendo que lidar com o HORROR que foi Terra das Sombras e que conseguiu fazer isso de maneira rápida, criando boas premissas, um novo desenvolvimento de personagem e mescla de excelente humor no roteiro, acompanhado de diversos ganhos e vitórias à já esperada “trilha de tragédias” que marca a vida do Homem Sem Medo, essa fase de Mark Waid chegou a um nível muito alto de qualidade e terminou no momento certo, com o essencial do Demolidor explorado sob essa premissa de “novo olhar para a vida“. Uma jornada que nos dá orgulho de ter acompanhado. Grande Mark Waid!

Daredevil Vol.4 15.1 a 18 (EUA, julho a novembro de 2015)
No Brasil:
Panini Comics (Demolidor Vol. 11)
Roteiro: Mark Waid (principal) / Marc Guggenheim e Chris Samnee (histórias B e C e #15.1)
Arte: Chris Samnee, Peter Krause
Arte-final: Chris Samnee, Peter Krause
Cores: Matthew Wilson
Letras: Joe Caramagna
Capas: Chris Samnee, Matthew Wilson
Editoria: Sana Amanat, Charles Beacham, Nick Lowe
192 páginas (encadernado Panini)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.