Crítica | Demolidor: Fim dos Dias

estrelas 5,0

Fim dos Dias (2012) está naquela lista de hipotéticas últimas histórias de super-heróis, ao lado de Cavaleiro das Trevas (1986), Grandes Astros: Superman (2005 – 2008), Velho Logan (2008), entre outras. Situada em um futuro possível do personagem, é difícil dizer se ela está à altura das HQs citadas, principalmente do clássico de Frank Miller. Todavia, é possível coloca-la no rol de clássicos do Demolidor, o que já é algo grande para um quadrinho recente.

Reunindo uma espécie de dream team desses 50 anos de Daredevil, essa minissérie em oito edições traz capas magníficas de Alex Maleev, roteiro de Brian Michael Bendis e David Mack e desenhos de Klaus Janson com arte final de Bill Sienkiewicz – a ausência do Frank Miller dos dias atuais é mais um bom complemento do que uma perda, convenhamos.

Logo nas primeiras páginas encontramos Matthew Murdock em seu último e épico duelo contra o Mercenário, onde, em uma belíssima página dupla, é assassinado brutalmente enquanto toda a cozinha do inferno observava atônita. Antes de morrer, porém, o advogado sussurra “mapone”. Seguindo o ponto de vista do jornalista Ben Urich, nos é mostrada a busca pelo significado da palavra e como ela afeta, inclusive, o próprio Mercenário. Basicamente uma adaptação de Cidadão Kane para o universo noir e sujo do herói – e outras sutis referências ao filme aparecem por meio dos desenhos.

Permeada pela característica investigativa do repórter do Clarim Diário, a história mantém uma regularidade em todas as edições e tem seu ponto forte, certamente, na participação de outros personagens da Marvel. Desde vilões clássicos, como o Rei do Crime, passando por outros menores, até coadjuvantes da era Bendis e ex-companheiros como a Viúva Negra, o roteiro trabalha bem e brevemente o destino de cada personagem e suas associações e relações com Murdock. A volta de Brian Michael Bendis remete à sua excelente e pesada passagem pela revista entre 2001 e 2006, dando um tom de tragédia e um cheiro de morte à minissérie que contrasta com a mensal de Mark Waid. Não à toa a participação do Justiceiro é uma das mais importantes.

A jornada provoca no leitor uma constante dúvida por meio dos questionamentos do protagonista Ben Urich. Nesse sentido, a ausência do próprio Demolidor é muitíssima bem trabalhada e intensifica a narrativa centrada na figura de Urich como um frágil porém esperto coletor de relatos do passado de Murdock. O roteiro é extremamente imersivo na medida que aposta na introspecção do repórter e em suas perguntas sem respostas.

A arte, da mesma forma, é espetacular. Janson foca as expressões dos entrevistados por Urich e passa sensações de desespero, falta de esperança e desconfiança o tempo inteiro. A percepção é a de que se está lendo um resumo emotivo do Demolidor por meio da fala de quem conviveu com ele. E visualizar a sua morte no início dá um constante nó no estômago durante todo o desenrolar do enredo. Em cada capítulo há ainda uma página inteira dedicada aos momentos de vários personagens marcantes da história do herói, como o Gladiador e o Coruja, em uma de suas melhores participações. A narrativa visual também precisa ser ressaltada, principalmente no capítulo sete – um dos melhores da história da Marvel – ao Ben acessar os computadores sem qualquer balão de fala por cinco páginas seguidas.

O único ponto que pode causar uma forte discordância é o final dado pelos roteiristas. Pode até parecer uma saída fácil e sem muito sentido, dado o realismo da minissérie. Mas dentro do contexto do próprio personagem, analisando todos os seus sofrimentos e erros mais recentes, com Bendis e Brubaker, o caminho final pode agradar muitos fãs por dar uma certeza, ao mesmo tempo que não revela o total significado de “Mapone”. Quem leu a passagem de Bendis aproveitará muito mais Fim dos Dias e todas as suas referências e seu clima. Se não leu, não se preocupe. O dream team trabalhou em sintonia e criou uma incrível obra, colocando nesse futuro possível – e provável, porque não? – tudo que fez do Demolidor ser o que é. Seus tormentos, seu azar, seus amores. Enfim, o espírito do diabo que guarda a Cozinha do Inferno.

Demolidor: Fim dos Dias (Daredevil: End Of Days) – EUA 2012
Roteiro:
Brian Michael Bendis, David Mack
Desenhos: Klaus Janson
Arte-final: Bill Sienkiewicz
Editora: Marvel Comics
Editora no Brasil: Panini (dividido em mais de uma edição).

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.