Crítica | Demolidor – O Homem Sem Medo

estrelas 2Com a enorme popularidade envolvendo o grupo Os Vingadores e os filmes solo de alguns de seus integrantes, pode-se afirmar que a Marvel nunca esteve tão por cima como está agora. E olha que a própria já viu diversas adaptações de seus super-heróis alcançarem grande sucesso na tela, como é o caso de Homem-Aranha ou X-Men. Mas o sucesso da Marvel nos cinemas não é de hoje, e em meio a todo esse estrondoso sucesso, sempre temos aqueles exemplares feitos nas coxas, realizados com o único propósito de tirar proveito desta popularidade. Foi assim com o tenebroso Hulk de Ang Lee, e também com Demolidor – O Homem Sem Medo, primeiro filme solo do herói cego e que, na época de seu lançamento, rendeu duras críticas para todos os envolvidos.

Cegado por um acidente quando era criança e feito órfão logo a seguir, com o pai pugilista misteriosamente assassinado após uma luta, Matt Murdock (Ben Affleck) cresce para se tornar um advogado e atuar no bairro onde sempre viveu, a Cozinha do Inferno, subúrbio de Nova York. O que o diferencia dos outros cegos são seus sentidos hiper-aguçados, herança do acidente com produtos químicos que o marcou para sempre, mas lhe deu em troca uma espécie de radar infalível e capacidades acrobáticas perfeitas. À noite, Matt veste um uniforme vermelho que lembra o demônio, e atormenta os malfeitores que decidem cruzar o limite da lei. As coisas esquentam quando o poderoso empresário Wilson Fisk (Michael Clarke Duncan) surge no caminho de Matt como o suspeito de ser o mandante-mor de todo o submundo novaiorquino, sob a sugestiva alcunha de Rei do Crime. Interesses políticos e financeiros fazem com que Fisk convoque a Nova York o letal assassino Mercenário (Colin Farrell) para que ele dê cabo da família de um ex-associado. A filha deste homem, a bela e misteriosa Elektra Natchios (Jennifer Garner), também se envolve com o Demolidor, sendo logo tragada para a teia de intrigas do herói após a resolução do conflito do pai.

Talvez pelo fato de ser um dos super-heróis menos populares da Marvel (embora também seja um dos mais complexos), Demolidor rendeu pouco para os estúdios no que se refere a números de bilheteria. Mas assistindo ao filme, vê-se que o problema é mais embaixo: Demolidor é um filme insosso, que não empolga, um fato que pode ser diretamente ligado a falta de experiência do diretor Mark Steven Johnson, que antes havia apenas dirigido um único filme, Pequeno Milagre. O roteiro é até correto (embora seja extremamente superficial no desenvolvimento de seu protagonista), mas Johnson não consegue trazer densidade ao seu filme, criando um amontoado de situações e personagens que passam indiferentes ao espectador. Há algumas boas e bem elaboradas sequências de ação (como o confronto entre Elektra e Mercenário), mas o distanciamento dos personagens prejudica qualquer empolgação que possa vir de tais cenas.

A caracterização dos personagens é outro detalhe que prejudica seriamente Demolidor. Bem Affleck, talvez um dos atores mais inexpressivos e canastrões a surgir em Hollywood nos últimos anos, não convence com o cinismo de Matt Murdock, saindo-se muito melhor quando está com a máscara e apenas precisa demonstrar sua agilidade física. O mesmo vale para Jennifer Garner, antipática como a traumatizada Elektra Natchios, mas bastante ágil nas cenas de ação (e sua roupa de coro colada ao corpo surge como um extra para os marmanjos de plantão). Colin Farrell parece pouco à vontade na pele do Mercenário, exagerando na caricatura do vilão, e o finado Michael Clarke Duncan pouco tem o que fazer como o temido Rei do Crime.

Demolidor – O Homem Sem Medo pode até funcionar como entretenimento ligeiro se seus erros forem ignorados, mas acaba ficando à sombra de uma boa parte das adaptações da Marvel, que não apenas contam com um nível de popularidade mais elevado, mas também apresentam resultados bem mais satisfatórios e corretos.

Demolidor – O Homem Sem Medo (Daredevil, EUA, 2003)
Roteiro: Mark Steven Johnson
Direção: Mark Steven Johnson
Elenco: Ben Affleck, Jennifer Garner, Colin Farrell, Michael Clarke Duncan, Jon Favreau, Ellen Pompeo, Joe Pantoliano, Paul Ben-Victor
Duração: 103 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.