Crítica | Demolidor por Brian Michael Bendis e Alex Maleev (parte 1 de 6)

estrelas 4,5

Ao longo de sua história, Demolidor sempre teve a sorte de ser imaginado por equipes criativas da melhor qualidade, tendo em Frank Miller a figura de pai e modelador do que hoje se entende como a essência do personagem. Mas, para muitos, o roteiro de Brian Michael Bendis (Dinastia M, Ultimate Spider-Man, All-New X-Men e mais uma tonelada de hqs da Marvel) e a arte de Alex Maleev (Cavaleiro da Lua) foram não só brilhantes homenagens ao passado do herói, mas também se igualaram em qualidade e levaram o Homem sem Medo em direções originais e ousadas, respeitando o incrível trabalho de Miller nos anos 80.

Indo da edição 16 à 81 por cerca de quatro anos, com alguns pequenos intervalos preenchidos pelas visualmente belas histórias de David Mack (Parts Of A Hole e Vision Quest), Bendis/Maleev começam sua corrida como dupla, de fato, na edição 26. Mas foi no arco “Wake Up” (16-19) que Bendis estreou já mostrando o carinho que tinha pelo protagonista e o tom escuro de seu roteiro, apresentando Timmy em uma história contada sob a perspectiva de Ben Urich, no mesmo estilo que faria anos depois em Demolidor: Fim dos Dias. Com arte pintada de Mack, a investigação do crime toma contornos complexos e faz dessa introdução de Bendis um ótimo episódio policial-investigativo, tema que seria recorrente a partir da entrada de Maleev mais tarde.

Já com o artista búlgaro e dando continuidade ao volume 2 publicado sob o selo Marvel Knights, iniciado no importante Diabo da Guarda de Kevin Smith, Bendis simplesmente resolve matar o Rei do Crime após uma reunião entre mafiosos cansados dos métodos de Fisk. Traído pelos seus próprios capangas, o antagonista é assassinado a facadas enquanto Silke, que o desafiou, conta tranquilamente como Júlio César morreu no Senado romano. Com essa premissa, Bendis faz pequenas digressões e volta às semanas passadas para revelar, aos poucos, como se chegou ao tal cenário.

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A presença do herói mascarado disfarça o real enredo mafioso de clima pesado e intrigas nos bastidores que é dado à série. A arte escura de Maleev corrobora um sentimento de tensão, que só cresce à medida em que vimos um Demolidor classicamente atormentado pelo seu passado, saudoso de Elektra e Karen Page, e cada vez mais impaciente e raivoso, principalmente quando descobre que alguém quer sua cabeça. A edição 28, completamente ausente de fala – principal exemplo da sintonia entre a dupla, repetida diversas vezes, como se um soubesse quando recuar e deixar a arte falar por si só – mostra um herói com expressões nervosas, consequentes de fantasmas tradicionalmente insuperados por Matthew Murdock que são retratados com maestria por Maleev.

Alternando entre passado e presente, entre a cadeia causal que levou Wilson Fisk à morte e a busca de Matthew por saber quem o quer morto, o enredo nos brinda com a presença da pouca utilizada Vanessa Fisk, esposa do Rei do Crime, que, com apenas seus olhos, transmite todo seu perigoso ódio. Ainda são colocadas situações de deleite para qualquer fã da Cozinha do Inferno, sempre focando no diálogo e na interação dos personagens em busca de respostas: a visita do herói ao quarto de um Wilson Fisk cego e aterrorizado é, sem dúvida, um dos pontos altos desse primeiro arco.

demolidorcapa“Underboss” viaja por bares, jogatinas de poker, redações confusas, delegacias policiais, climas nublados e bastante escuridão para mostrar o lado psicológico perturbado tanto de heróis como de vilões, em meio à um jogo de interesses profissionais de criminosos e policias que causam uma consequência grave na vida de Murdock: a edição 32, primeira do segundo arco da dupla, “Out”, é inteiramente focada na investigação policial para saber quem é o Demolidor. E a resposta vem quando Foggy Nelson, em seu cotidiano muitíssimo bem trabalhado por Maleev, se depara com uma manchete incômoda no jornal.

É só o começo de uma das piores épocas para o advogado e seu amigo. A intensidade irá aumentar em cada página em um roteiro extremamente com pés no chão que visa testar os limites do Demolidor à la Queda de Murdock. Mesmo que confuso algumas vezes entre idas e voltas, Bendis amarra bem sua primeira história com o desenhista e abre um mar de possibilidades a ser explorado na vida do Homem sem Medo.

Demolidor Volume 2 — #26 a 32
Publicação Original:
 EUA  (2001-2006)
Roteiro:
Brian Michael Bendis
Desenhos:
Alex Maleev
Cores:
Matt Hollingsworth
Editora:
Marvel Comics
Páginas: 168 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.