Crítica | Demolidor por Brian Michael Bendis e Alex Maleev (parte 2 de 6)

estrelas 5,0

A identidade secreta foi revelada. Matthew Murdock é a mesma pessoa que o Demolidor e está em todos os jornais. Mesmo antes de vermos a reação do público, quem nos aparece é um recém-acordado herói, que ouve o click das câmeras e sente o cheiro do café e dos desodorantes dos jornalistas à porta de seu prédio. Logo o Homem sem Medo sabe que sua vida acabou.

O drama emocional de Murdock acontece aos poucos ao longo do segundo arco da dupla Bendis/Maleev. O mais interessante é notar como o roteirista trabalha o entorno da vida do advogado antes de se aprofundar em sua reação. De Foggy Nelson negando tudo às câmeras e buscando ser honesto com seu amigo, mesmo que o machuque, à Ben Urich discutindo e batendo de frente com J. J. Jameson em um dos diálogos mais interessantes dessa incrível parte da série, todos tentam se virar com a inesperada revelação. Até Peter Parker tenta se meter na história sem entregar muita coisa. Enquanto isso o azarado protetor da Cozinha do Inferno se vê em tentativas de escapar da dura realidade que o atinge.

Recheado de participações especiais bem pontuadas – Homem-Aranha e Viúva Negra dão profundidade ao próprio Demolidor e intensificam as relações que seus personagens possuem com o advogado cego – “Out” é um clássico por abordar tantas questões e tantos lados importantes da história do herói. Seu passado volta em memórias e em carne e osso: Elektra aparece com seu rosto encoberto repetidas vezes, graças ao jogo que Maleev utiliza completando a dualidade entre a fala impetuosa de Matthew e seu pensamento peculiar descrito por Bendis. Mas a anti-heroína, felizmente, tem papel fundamental nesse aprofundamento do já profundo Murdock – sua participação não é gratuita. A imersão no drama é total. Relações de longa data sofrem mudanças e a dinâmica da vida do advogado é intensamente afetada, mesmo que o próprio se recuse a acreditar.

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Da mesma forma, as tentativas de aparar o desastre ficam longe de ser super-heróicas. Toda a urbanidade da Cozinha do Inferno é explorada e o enredo fica recheado de coadjuvantes fascinantes, com interesses particulares distintos que se entrelaçam e prejudicam a vida do protagonista, dando continuidade ao primeiro arco.

O melhor é que o roteiro inteligentemente abre brechas a serem completadas muito tempo depois, deixando em aberto os pensamentos de Murdock ao mesmo tempo que mostra uma parcela importante do psicológico do herói.  A compreensão do que o Demolidor representa, o sensacionalismo da imprensa, a expectativa de todos em relação à própria ação futura de Matthew…conhecendo o herói e sabendo que ele vem de, talvez, o mais grave acontecimento no seu desastroso passado amoroso (Diabo da Guarda), é impossível não ficar ansioso para saber como tudo será lidado.

 O enquadramento de Maleev varia entre o tradicional e o aleatório, sempre refletindo o estado de espírito do próprio Matt, encaixando perfeitamente com o texto ali escrito. A sequência onde o Homem sem Medo aparece na janela de seu delator é de uma intensidade típica dos melhores momentos do herói. Quieto, sem mover um músculo, o mascarado apenas encara o homem assustado sentado em sua cama, apontando uma arma para o diabo que o ameaça. E a resolução desse cenário inimaginável é belíssima, exatamente pelo grande mérito da dupla criativa: ser simples, trabalhar com personagens críveis, humanos, em situações que ganham peso graças à uma volta nas nuances do herói, trabalhada de forma poética e sem pressa.

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O poder de narrativa dos desenhos de Maleev são incríveis, sem deixar de focar em leves rugas que cobrem qualquer verborragia que algum outro escritor poderia optar. Bendis sabe bem disso e utiliza discursos e falas longas apenas quando necessário, ora passando o nervosismo inerente à gravidade dos acontecimentos, ora deixando intacto os momentos intimistas que dão ao Demolidor a tragédia e fatalismo que tanto o definem. Mas não sem um pingo de esperança, que faz Matthew tocar sua vida e encarar um julgamento bem desenvolvido em seu enredo, mas pobre em sua arte desenhada por Manuel Gutiérrez, que deixa a já complexa luta judicial de “Trial Of The Century” menos fluida, muito devido à escolha de quadros pequenos para retratar os diálogos de Bendis, utilizados com sabedoria por Maleev, que nos deixa mal-acostumados com mais sobreposições e páginas inteiras magníficas.

A pergunta que fica no final é: como o advogado conseguirá conciliar passado e presente, profissão e vigilância, sem perder a sanidade?

Demolidor Volume 2 — #33 – 40
Publicação Original: 
EUA (2001-2006)
Roteiro: Brian Michael Bendis
Desenhos: Alex Maleev, Manuel Gutiérrez (ed.38 e 39) e Terry Dodson (ed.40)
Cores: Matt Hollingsworth
Editora: Marvel Comics
Páginas: 200 (aprox)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.