Crítica | Demolidor por Brian Michael Bendis e Alex Maleev (parte 3 de 6)

estrelas 5,0

Brian Michael Bendis mudou a dinâmica da vida de Matt Murdock ao revelar para o mundo sua identidade secreta. Mas o próprio autor soube bem como mostrar, aos poucos, as consequências desse acontecimento para o próprio herói. É assim que “Lowlife” e “Hardcore”, quarto e quinto arco do roteirista, se desenvolvem, culminando no clímax da passagem do escritor pela Cozinha do Inferno.

Inicialmente, tudo parece normal. Duas moças conversando sobre nostalgia, andando pela calçada sem preocupação. Até que o Demolidor aparece para salvar uma delas de um atropelamento. É assim que somos introduzidos à uma das personagens mais interessantes da era Bendis/Maleev: Milla Donovan. Lentamente, a moça cega salva pelo Homem sem Medo se vê encantada pelo herói. Corajosa, inteligente e melancólica, Milla logo cativa o leitor por parecer ser um par perfeito neste momento conturbado da vida do advogado, que tem de lidar com o Coruja tomando conta dos negócios do Rei do Crime, além de processos judiciais envolvendo tabloides.

Bendis continua apostando em diálogos bem construídos que só crescem com as sutilezas expressivas dadas por Maleev. A visita de Milla ao escritório de Matt para agradecê-lo mostra na medida certa a ousadia da moça e o receio do protagonista em revelar sua face mascarada. A conclusão, para variar, é sutil e pontua a personalidade do novo amor de Murdock de modo a fazer o leitor se importar com os dois, vivenciar aquela conversa e aquelas sinceras emoções após o enorme tormento das edições passadas.

Milla

Mas nem tudo é tranquilidade. Muito pelo contrário, tratando-se de Demolidor, as coisas ficam pesadas rapidamente. O crescimento dos paparazzi, a circulação de novas drogas, a reação conflituosa de amigos próximos – Luke Cage – e a morte misteriosa do dono do jornal que publicou a verdade sobre Matt logo tornam sua vida um inferno. No meio de tudo, os sentidos ultra desenvolvidos do advogado são utilizados para mostrar um humor sarcástico bem colocado no roteiro, necessário para dar um tom de leveza na medida equilibrada, sem perder o clima de tensão constante característico da revista.

O problema do Coruja, resolvido no fim de “Lowlife”, acaba sendo só um pano de fundo para mostrar como Matt tenta manter um padrão de normalidade em sua vida. Claro que os próprios vilões o tentam colocar em armadilhas bem planejadas, mas tudo parece uma preparação para Hardcore, que eleva o patamar de dificuldade com que Matt terá de lidar. Afinal, o Rei do Crime voltou. E voltou no melhor estilo Frank Miller.

O grande mérito do retorno vingativo de Wilson Fisk, atormentado pela tragédia familiar ocorrida nos arcos anteriores, é não o retratar como um simples chefe do crime organizado. Bendis entra fundo no seu psicológico tanto quanto se está acostumado a ver com Murdock. A própria noção da necessidade de pessoas como ele na estrutura social, política e econômica da Cozinha do Inferno, fica no entorno de todo o enredo.

Com Fisk, Mary Tifoide aparece e protagoniza momentos de apreensão, junto com Jessica Jones e Luke Cage. Outro mérito da dupla é equilibrar bem esse jogo de vilões clássicos e aliados coadjuvantes, dando a cada um o tempo preciso para brilhar. Mas o melhor argumento para a entrada de outro personagem clássico ocorre com o Mercenário. A apreensão durante toda a participação do arqui-inimigo envolvendo Milla Donovan é assustadora. A dupla criativa dedica uma edição inteira para uma luta tensa e brutal, que deixa para trás qualquer outro duelo até aqui. Um Demolidor que beira o limite da paciência e desconta no rival todo o seu passado trágico, distante e recente, só pode resultar em uma catarse.

mary

Como se não fosse o suficiente, tal número logo é seguido pela luta final entre Demolidor e Rei do Crime, que não só cumpre com as expectativas ordinárias de um duelo desse tamanho, como as ultrapassa com um início inesperado e um final ainda mais surpreendente. No meio desse jogo físico e psicológico, homenagens artísticas às lutas clássicas dos dois, com a participação de outros desenhistas, dão um clima de final de campeonato para Fisk e Murdock. E, sem dúvida alguma, o final dado por Bendis coloca o herói em um caminho sem volta, mostrando a conturbação do seu estado de espírito e a falta de tolerância com todos esses anos de mesma dinâmica “herói versus vilão”. As consequências para a Cozinha do Inferno são, neste ponto alto da dupla Bendis/Maleev, inimagináveis.

Demolidor vol. 2  #41-50
Roteiro:
Brian Michael Bendis
Desenhos:
Alex Maleev
Cores:
Matt Hollingsworth
Editora:
Marvel Comics
Páginas:
200 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.