Crítica | Demolidor por Brian Michael Bendis e Alex Maleev (parte 4 de 6)

estrelas 5,0

Sempre houve crimes. Sempre…é da natureza humana. Mas nós criamos os reis do crime.” A frase é de Ben Urich, que volta às histórias do Demolidor depois de um tempo ausente. E é o mesmo repórter investigativo que abre “O Rei da Cozinha do Inferno”, arco que dá continuidade à fase de Bendis e Maleev após cinco edições de David Mack, ressaltando a lenda urbana que o Demolidor se tornou: o novo chefe informal do bairro nova-iorquino.

A expectativa era grande para saber como Matt lidaria com o fato de ser conhecido como o kingpin de seu bairro. Suas ações, junto com Milla Donovan, parecem ter melhorado toda a Cozinha do Inferno, graças ao processo judicial vencido por Foggy Nelson que gerou um caminhão de dinheiro para Murdock aplicar nas ruas e mandar e desmandar o que quisesse. Afinal, o Rei do Crime foi derrotado, assim como Mercenário e o Coruja. Mas logo Bendis/Maleev mostram porque fizeram uma das duplas mais incríveis da história da Marvel e vão além do ordinário.

Reunindo Peter Parker, Luke Cage, Stephen Strange e Reed Richards, Bendis calmamente mostra, em uma conversa no Central Park, como as atitudes de Matt afetaram toda a dinâmica que os outros heróis têm em suas vidas. São esses amigos mais próximos que chamam o advogado para dizer, com todas as letras, que ele passou dos limites. Declarar a Cozinha do Inferno – tratada como um personagem vivíssimo nesse arco – como dele e se auto proclamar o novo rei colocou o alvo na cabeça de todos, que agora devem lidar com inúmeros vilões tentando destrona-los, como se cada um fosse realmente dono de seu próprio bairro.

Mas o mais interessante é ver a argumentação de cada um desses personagens. Murdock insiste que a Cozinha melhorou e que sua ação foi a acertada, e diz para cada um declarar seu próprio bairro como seu, tomar uma atitude para quebrar essa relação que sempre houve nas comics de super-heróis. Peter, por sua vez, fala que os criminosos só mudarão de cidade e a dinâmica continuará a mesma. Richards ressalta o problema dos rumores falsos que colocam os heróis nas páginas de jornal erradas. E Strange é escolhido, brilhantemente por Bendis, para fechar o diálogo…mas deixar uma ponta aberta nesse jogo pensativo, que só irá se fechar mais tarde – como feito com o Homem-Aranha quando o Demolidor descobre que sua identidade foi revelada.

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Essa dinâmica de grupo logo é seguida por uma das lutas mais incríveis – sim, mais uma! – entre o Demolidor, rei da Cozinha do Inferno, e a Yakuza, lá para mata-lo e tomar a Cozinha para si. Uma verdadeira batalha campal nas ruas, um homem contra todos. E o mar de sangue, disfarçado por Maleev por uma chuva torrencial e pelos movimentos acrobáticos de Murdock, é intercalado com a conversa inicial desse arco entre Urich e alguém desconhecido. E a revelação de quem é esse interlocutor misterioso é simplesmente apaixonante, tanto quanto a continuação da mesma conversa com revelações ainda mais inesperadas.

Como estamos acostumados, Bendis leva a história para caminhos originais, mas sempre com pés no chão. E é Urich quem levanta essa bandeira de normalidade, quando a vida de Matt parece ter virado de cabeça para baixo. No meio de toda a loucura, de tantas lutas, de questionamentos de amigos, novos amores e vilões massacrados publicamente, ainda somos premiados com cenas investigativas, personagens clássicos aparecendo – enfermeira da noite – e reunião de heróis, em um dos quadros mais conhecidos de Maleev, para a loucura dos fãs.

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Mas quando há esperança, ela logo tende a ser amassada e destruída quando se trata de Matthew Murdock. Sua vida pessoal com Milla Donovan parece desmoronar, não por banalidades, mas por sutilezas bem trabalhadas durante todo o arco sem que nos déssemos conta do que de fato acontecia. E no meio desses sentimentos pessoais e profissionais, “The Widow” traz uma ótima história de Natasha Romanova. Um roteiro primoroso envolvendo a SHIELD, mas sem perder de vista a relação íntima e peculiar da Viúva com Matt. E é no final dessa aventura de espionagem que vemos o advogado finalmente conseguindo lidar com seu conflito com Milla, de forma humana e nostálgica tipicamente Murdockiana.

Por fim, a edição 65, especial pelos 40 anos do Demolidor, mereceria texto próprio. Com arte de inúmeros desenhistas, entre eles Jae Lee (Inumanos), Frank Quitely (All-Star Superman e Novos X-Men) e do próprio Maleev, Bendis recheia o número com participações não só especiais, mas essenciais para o entendimento total das edições passadas. É aqui que encontramos tudo que Peter Parker sentiu durante essa fase do Demolidor, além da fala final de Stephen Strange na reunião no Central Park. Ainda temos Capitão América, Justiceiro e Nick Fury, todos colocados em situações que já lemos e vimos anteriormente, mas sob a perspectiva de Murdock. É com o uso de tantas visões diferentes e desse contato honesto, fundamentado no grande trunfo de Bendis, o diálogo, que temos uma fantástica leitura da complexidade do personagem Demolidor, perto de ser completa. Sem dúvida alguma, divertida, para qualquer fã de histórias bem contadas.

Demolidor vol. 2 #56-65
Roteiro:
Brian Michael Bendis
Desenhos:
Alex Maleev
Cores:
Matt Hollingsworth, Dan Brown (#63) e Dave Stewart (#64)
Editora:
Marvel Comics

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.