Crítica | Demolidor por Brian Michael Bendis e Alex Maleev (parte 5 de 6)

estrelas 4,5

Após um turbilhão de eventos importantes tanto na vida de Murdock quanto na vida do Demolidor, Bendis resolveu acalmar um pouco as coisas na Cozinha do Inferno com dois arcos intimistas e menos explosivos, o que não significa, de modo algum, perda de qualidade na história. Tanto “Golden Age” quanto “Decalogue” conseguem dar continuidade ao processo mental de aceitação da realidade que o protagonista passou desde o início da era Bendis/Maleev, mas de modo mais sutil e sem tantas consequências claras na vida heroica do personagem, pelo menos em uma primeira vista.

Após tanto focar na Cozinha do Inferno atual, foca-se no passado dela.  E na ausência dos criminosos tradicionais, fantasmas de um passado longínquo voltam com expectativa de retomar o trono do crime, deixado vago nas últimas edições. Criando Alexander Bont, um Rei do Crime original, anterior ao próprio Wilson Fisk, Bendis joga com um problema estrutural do bairro do Demolidor, que ocorre há muito mais tempo que se imagina.

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Os vários lados dos tempos passados também são vistos quando Melvin Potter, o Gladiador, é obrigado a retomar seu exercício de vilão, mesmo sendo um dos amigos mais próximos de Murdock no tempo presente. Os flashbacks bem definidos pelos traços de Maleev e ressaltados pelas cores leves e vivas de Stewart são, para variar, admiráveis. Temos até lutas do Demolidor usando o clássico uniforme amarelo contra o Doutor Octopus no seu uniforme verde tradicional, em tons muito mais suaves do que as brutais lutas dos números anteriores.

Na outra ponta da história, Murdock ensina a Agente Del Toro, introduzida há pouco pelo roteirista, a ser uma heroína. O contraste da decadência e da esperança no bairro é visível, e Bendis faz questão de buscar, em Murdock, a razão para fazer o que faz no meio desse jogo de interesses. Infelizmente, porém, os coadjuvantes não seguram o roteiro tão firme quanto em arcos anteriores.

“Decalogue”, por um lado, continua com esse clima mais íntimo. Por outro, porém, aprofunda-se nos diálogos, muitíssimos bem escritos por Bendis, e nos traços riscados de Maleev, trazendo uma leitura muito mais interessante do que Golden Age. A premissa consiste em uma reunião de cidadãos na Igreja St. Mary para discutir a figura do Demolidor e seus efeitos no cotidiano de cada um.

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Misturando o background de cada indivíduo com acontecimentos do herói que já visitamos, Bendis novamente nos leva de volta aos cenários importantes já utilizados por ele para uma compreensão de outras nuances de Murdock. Seja na sua autoproclamação de Rei do Crime, ou ainda no casamento com Milla Donovan, Bendis consegue, graças à esses coadjuvantes ordinários tão fãs do Demolidor quanto o próprio leitor, passar o que o herói representa para a comunidade local. Da mesma forma, as histórias originais de cada cidadão são como camadas do próprio herói que ficaram obscurecidas pelas ações recentes que já foram vistas.

Uma, em particular, traz um elemento novo da dupla criativa: a magia negra. Nesse arco, Bendis passeia pela influência católica – afinal, a reunião é liderada por um padre – e também pelas artes místicas, algumas vezes utilizadas em histórias do Demolidor. Mas sua ideia só funciona por dois motivos: o primeiro é a arte de Maleev que, além de focar nas expressões de horror e tensão dos personagens envolvidos, desenha um específico perturbador bebê-demônio, que pega de surpresa o leitor, dado o excesso de realismo das histórias até aqui; o segundo motivo é que esse realismo não se perde em momento algum, pois “Decalogue” é claro na sua proposta e fecha as pontas com um desabafo sincero de Matt, que insiste em dar satisfações aos colegas de reunião como se estivesse falando diretamente para o leitor do seu valor, do porquê ter escolhido ser o Demolidor.

A calmaria desses dois arcos resulta em um final que busca a compreensão do sentido de ser “rei da Cozinha do Inferno”, título que tanto atormentou Murdock nos tempos recentes. Ressalta-se um aspecto específico do Demolidor que permeia todos os arcos de Bendis: sua atitude local, as relações paralelas, diárias, das pessoas que tem sua vida ligada àquele bairro. “Algo precisa ser construído”, Matt nos diz, “eu preciso fazer mais do que lutar com as pessoas. Eu preciso construir algo tão forte que eles não possam atacar (…) E ninguém nos ajudará. Nem os policias, nem o governo, nem os heróis. Somos só nós aqui.”

Demolidor vol. 2             #66-75
Roteiro:
Brian Michael Bendis
Desenhos:
Alex Maleev
Cores:
Dave Stewart
Editora:
Marvel Comics
Páginas: 200 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.