Crítica | Demolidor por Ed Brubaker e Michael Lark (parte 1 de 6)

estrelas 5,0

Obs.: Há spoilers das histórias anteriores na cronologia. Leiam as críticas destes arcos aqui.

O advogado cego da Cozinha do Inferno sempre teve em sua equipe criativa o seu forte, o que gerou dezenas de histórias clássicas e parâmetros para a indústria dos quadrinhos. Seguir a tradição de Frank Miller e Brian Michael Bendis a frente das histórias do Demolidor não é para qualquer um. Felizmente – o que é coisa rara – Ed Brubaker, ao assumir o bastão deixado por Bendis, escritor de uma das melhores eras do herói, consegue manter o alto nível de qualidade incrementando peso dramático e ótima exposição de uma das piores fases da vida de Matthew Murdock.

Dando continuidade ao volume 2 de histórias do herói, iniciado com Kevin Smith no marcante Diabo da Guarda e depois escrito por cerca de cinco anos por Bendis, Brubaker pega o protagonista em situação inédita: Murdock está preso. Naturalmente, isso gera uma alta expectativa acompanhada pelo medo dos fãs de verem uma brilhante história até ali escrita ser jogada em um mar de clichês, superficialidades e contradições, algo comum em trocas de roteiristas nos quadrinhos. Mas estamos falando de Ed Brubaker.

Paralelamente à Daredevil, o autor se consagrou na Marvel como escritor e ressuscitador do Capitão América, com histórias clássicas como O Soldado Invernal e A Morte do Capitão América. Entre 2005 e 2009, o roteirista, que fez uma ponta no segundo filme de Steve Rogers, venceu dois Eisner Awards escrevendo para Murdock, o Capitão e o Punho de Ferro. Adicionando os dois prêmios vencidos por Bendis em 2002 e 2003, são simplesmente quatro prêmios para os responsáveis pela HQ em uma década.

Estatísticas à parte, a razão para o sucesso passa por alguns pontos essenciais em seu primeiro arco The Devil in Cell-Block D, dividido nas seis primeiras edições. Com calma suficiente para abordar todas as pontas deixadas por seu antecessor, ainda que este tenha fechado bem seu último arco, Brubaker utiliza um tema aparentemente batido para desenvolver a noda vida de Murdock: o limite entre lei e justiça. A questão é que, dessa vez, o advogado vigilante está preso e é obrigado a somar em seus dilemas o limite do que pode ser feito para sair da cadeia. E Brubaker mostra bem o inferno de seu aprisionamento.

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Juntar-se aos criminosos, aceitar ajuda de vilões clássicos, ouvir provocações de guardas corruptos e ainda se preocupar com seus aliados tradicionais – Foggy Nelson começa a ganhar destaque mais que especial neste arco – são formas encontradas para expor um sofrimento que nada tem de gratuito. As escolhas do advogado continuam sendo levadas ao extremo e as decisões morais são brutalmente quebradas quando o herói se vê incapacitado atrás das celas. A paranoia e raiva do Diabo Destemido já o levou a se declarar o Kingpin da Cozinha após destruir Wilson Fisk com os punhos. Nesses primeiros números, um caminho semelhante acaba sendo posto no destino do Demolidor, mas com tanto peso em seu passado, duas saídas são bem trabalhadas e propostas pelo roteiro: o pessimismo inerte ou o ódio provocador de ações.

Alternando os protagonistas com inferências sutis que lembram de Milan Donovan, além de pequenos, mas fundamentais diálogos envolvendo políticos, diretores do FBI e o responsável pela Ilha Ryker, uma linha narrativa consistente e amarrada vai sendo construída. Momentos de ouro são colocados, como Murdock e Fisk dividindo um refeitório, ou a participação especialíssima de Frank Castle, o Justiceiro, que honra suas aparições anteriores nas histórias do Demônio mascarado, aprofunda o limite ético entre os dois personagens e só coloca mais expectativa para vermos esse embate de filosofias na segunda temporada da série da Netflix.

A arte completa com uma significativa alternância entre quadros de Murdock na prisão e do Demolidor fora dela – sim, são personagens distintos neste caso – traçando um paralelo entre as duas ações que demonstra o estado de espírito presente em cada cenário. Tudo escancarado pela sombra recorrentemente utilizada por Lark e pela quase ausência de falas. Exemplo de ótimo entrosamento entre escrita e arte.

Comparada com a arte do búlgaro Alex Maleev, considerado por muitos, inclusive para este que vos fala, o melhor desenhista da história do Demolidor, a de Lark, evidentemente, fica abaixo. O que não é demérito, posto que cumpre com seu papel com linhas mais limpas e disposição de quadros mais justa. Com a contribuição das cores escuras de Frank D’Armata, cada página flui bem com a escrita e parece uma continuidade de Bendis e Maleev.

Trata-se, em suma, de um início promissor, que eleva o limite do herói mais desgraçado da história com algo original e bem trabalhado. Um quadro resume bem o tema proposto: um criminoso se aproxima de Matthew na cadeia e o oferece uma faca para matar Fisk. Uma troca de falas ocorre e o prisioneiro solta o clichê de que a prisão muda as pessoas. Murdock rebate, convicto, dizendo que parece que a prisão muda, principalmente, homens em filósofos sobre o que a prisão faz com o homem. Quadros depois, sozinho em sua cela, Murdock admite em pensamento que seu colega não está errado. A prisão já o mudou. Resta saber até onde.

Demolidor Volume 2 – # 82-87
Publicação Original: 2006-2009
Roteiro: Ed Brubaker
Desenhos: Michael Lark
Cores: Frank D’Armata
Editora: Marvel Comics
Páginas: 200 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.