Crítica | Demolidor por Ed Brubaker e Michael Lark (parte 2 de 6)

estrelas 4

Obs.: Há spoilers das histórias anteriores na cronologia. Leiam as críticas destes arcos aqui.

The Devil takes a Ride, segundo arco de Ed Brubaker no comando do Demolidor, foi uma aposta arriscada. Ao levar o herói para a Europa e fechar o arco maior sobre a prisão de Murdock que vem desde Bendis, o roteirista utilizou todo o peso positivo que ganhou na sua primeira narrativa e tentou marcar época novamente, dando fim à um personagem importante na mitologia do Demônio mascarado. Em parte, o risco foi acertado.

Antes de falar do fim desta história, bem-sucedido e que traz de volta uma figura importante, é impossível não criticar a ida de Matt à Europa que toma parte das três primeiras edições dos cinco números aqui criticados. Por mais admirável que tenha sido a passagem de Brubaker na Cozinha do Inferno, pareceu-me um erro mudar o cenário do herói fugitivo. Ainda que tenha servido para o futuro do advogado e que seja uma espécie de calmaria necessária, talvez, após tantos chocantes acontecimentos nas edições passadas, é preciso ressaltar que Murdock é um herói local, urbano, protetor de um bairro. Nem de uma cidade inteira ele toma conta, já que Peter Parker também existe nesse universo. Vê-lo perambular por cidades europeias não cai bem, ainda mais em um tom investigativo e introspectivo em relação à coadjuvantes fracos.

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Para quê ver Murdock jogando e vencendo de lavada no poker em uma roda de personagens deconhecidos? Para quê dar tanta atenção para Lily Lucca quando o que se quer ver é o caso solucionado com personagens conhecidos que sabemos que devem amarrar a trama? Felizmente, pelo menos, o cenário europeu é bem desenhado por Lark, com as cores mais quentes de Matt Hollingsworth dando tons decentes para cada momento dramático.

Passando destas três edições, um final digno de Ed Brubaker premia o leitor. Envolvendo Wilson Fisk e outro personagem clássico que não será revelado aqui para evitar spoilers, trata-se de um primor de capítulo fundamentado em basicamente uma única conversa entre Matt e a personagem que possui uma das suas melhores participações na história da mitologia. É incrível Brubaker saber utilizar um ponto do início das histórias de Bendis para retomar e finalizar este grande arco memorável do Demolidor, com praticamente dois monólogos memoráveis de Murdock ao fim e uma grande amostra de profundidade de um vilão dos quadrinhos, algo também desenvolvido no Wilson Fisk interpretado por Vincent D’Onofrio na série da Marvel.

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No mesmo sentido, a utilização de quadros pequenos por Lark não traz figuras tão memoráveis quanto as de Maleev. Mas a opção se justifica pelo próprio espírito que a equipe criativa quer passar, passando pela essencialidade de relações pequenas, discretas no cotidiano que passariam despercebidas com uma desatenção, mas que sustentam Matt, Milla, Foggy – que possui uma edição própria no meio dos dois arcos criticados desta fase até aqui – e até Fisk. Trata-se de uma leitura que requer atenção, que não subestima o leitor e coloca nas sutilezas dos quadros como a relação herói x vilão reflete um jogo de xadrez permeado por ressentimento das peças coadjuvantes, normalmente ignoradas no ciclo interminável de sofrimento passado pelo protagonista.

Brubaker abre uma nova fase, fechando uma era passada com gosto amargo, mas suficientemente otimista para as próximas histórias, já que se trata de Matt Murdock. Com mais momentos impensáveis, deleites para qualquer fã, este é outro arco importantíssimo na narrativa geral, apesar de se arrastar em seu início.

Demolidor Volume 2 – # 88-93
Publicação Original: 2006-2009
Roteiro: Ed Brubaker
Desenhos: Michael Lark e Stefano Gaudiano
Cores: Frank D’Armata e Matt Hollingsworth
Editora: Marvel Comics
Páginas: 200 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.