Crítica | Demolidor por Ed Brubaker e Michael Lark (parte 3 de 6)

estrelas 4

Obs.: Há spoilers das histórias anteriores na cronologia. Leiam as críticas desses arcos aqui.

Parte 1Parte 2

O segundo terço da passagem de Brubaker por Hell’s Kitchen, que marca as seis primeiras edições compiladas no encadernado americano, dão início a uma narrativa que cresce aos poucos, sempre com os pés no chão. Utilizando-se de personagens introduzidos pelo próprio roteirista, como Lily Lucca – com participação mais agradável do que antes – Dakota North e Becky, é necessário dar um destaque a ausência de novidades estrondosas, retcons destruidoras ou coisas do tipo. Brubaker sabe do início ao fim para onde quer conduzir Murdock.

Uma edição sentimental, que adiciona ainda mais profundidade na personagem de Milla Donovan, uma das mais fascinantes companheiras que Matt já teve – confesso que é a minha preferida – aborda o medo, tema sagrado para a mitologia do herói, consequente das ações do mascarado toda noite. Da mesma forma, a sombra de Karen Page e a compreensão do relacionamento dos dois são as linhas abordadas neste número, que conta com a capa de John Romita Jr. Resumindo de forma emocional a trajetória do casal de cegos e colocando pontos que serão abordados em muitas edições posteriores de forma surpreendente, o roteiro, de forma brilhante, não apela para clichês e arrogâncias que normalmente permeiam tentativas bregas de se falar sobre o medo. Ainda que tudo seja contado com uma batida reflexão psicológica sobre o amor, pela própria esposa do Demolidor.

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Tudo será justificável, mas isso ficará para a próxima crítica. Logo em seguida dessa edição, Brubaker começa um longo arco envolvendo Melvin Potter, o clássico vilão Gladiador, que consegue fazer, provavelmente, sua melhor participação na história da HQ – certamente, uma das mais violentas. Somado à tal fato, um herói falho, como pouco se espera ainda nos dias de hoje, gera constantes imprevisibilidades em um roteiro aparentemente simples, com personagens nem tão marcantes e inimigos que estão longe de serem arquirrivais.

Nessas seis primeiras edições é difícil notar o que Brubaker pretende fazer na vida de Murdock, o que não é uma crítica negativa, já que a extensão do arco se prova cabal para o entendimento de cada edição. Dar um voto de confiança para o roteirista, portanto, não é tarefa difícil, mesmo quando você se depara com Melvin Potter e Bryan Larry Cranston ditando as novas regras do jogo

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Lark, por sua vez, permanece sóbrio em sua arte, por vez previsível demais, mas ainda assim clara e precisa para mostrar a localização de cada indivíduo na cena, seja ela no escritório de Foggy e Matthew, como acontece na maioria do tempo, seja nas brigas e nas piruetas do Demolidor.

A sensação que se passa é que uma tragédia está prestes a acontecer. O curioso é saber, ou ser induzido a pensar pela qualidade da obra, que esta será distinta das passadas. Como, ainda mais envolvendo Gladiador e Sr. Medo, é a pergunta a ser respondida.

Demolidor Volume 2 – # 94-99
Publicação Original: 2006-2009
Roteiro: Ed Brubaker
Desenhos: Michael Lark
Cores: Matt Hollingsworth
Editora: Marvel Comics
Páginas: 200 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.