Crítica | Demolidor por Ed Brubaker e Michael Lark (parte 4 de 6)

estrelas 5,0

Há spoilers de histórias anteriores. Confira no nosso especial

Parte 1  Parte 2  Parte 3

Esta quarta parte da passagem de Ed Brubaker, continuidade literal do arco visitado na última crítica, é um primor. Aqui, começamos da edição 100 do Demolidor, um número especial que mereceu uma obra memorável, passível de receber uma crítica solo para si. Já na figura geral, Brubaker consegue, nos presentes números, marcar mais um ponto crucial na vida trágica de Matthew Murdock, sem parecer exagerado ou gratuito. Toda narrativa é construída com tanta sobriedade que o desfecho depressivo machuca qualquer fã que vem acompanhando a história, pelo menos desde o início do volume 2. Mas, primeiro, o início.

A centésima edição do herói da Cozinha do Inferno começa com uma capa lindíssima de Marko Djurdjevic – que, por sinal, faz um brilhante trabalho desde o início da era Brubaker – envolvendo amigos e arquirrivais de Murdock. Felizmente, o artista tem espaço para pintar algumas páginas nessa edição especial, que conta ainda com John Romita Jr., Bill Sienkiewicz, Gene Colan, Lee Bermejo e o mestre – sou fanboy – Alex Maleev. Extremamente emocional, a edição aproveita a variedade de tipos de artes com uma trama nostálgica que expõe, com roteiro magnífico de Brubaker, para variar, os principais valores que fazem do Demolidor o herói que é. As participações especiais, já esperadas, ganham interpretações consistentes e frases delicadas, por consequência, inesquecíveis. Porque você tem de ser o homem sem medo…e qual é o lado bom disso? Pois amor é medo, Matthew diz uma personagem. Você não pode ser o homem sem medo se deixar pessoas entrarem, Matt…mas não poderá ser um homem de verdade se você não deixar diz outro. Pode soar clichê, pode soar até pueril, mas no estado em que o advogado se encontra depois dos constantes sofrimentos, personagens tão queridos darem as caras com textos tão primorosos e verossímeis, é simplesmente ouro.

mrfear

O porquê do caos na vida de Murdock se tornar novamente realidade vem, desta vez, de um dos vilões mais obscuros e desconhecidos do universo Marvel. O Sr. Medo, aqui vivido por Larry Cranston, suscita desconfiança do leitor nas suas primeiras aparições, mas com tempo e trabalho, incluindo uma edição quase que totalmente escrita do seu ponto de vista, é possível colocá-lo como um dos mais geniais inimigos de Matt. Graças ao texto corajoso de Brubaker, que aborda a paranoia arrogante pós-prisão de Murdock com o medo constante de perder seus entes queridos, somos transportados de um gás do medo clichê para uma experiência incrível com uma consequência espetacular – desculpe-me o uso recorrente de adjetivos exagerados, mas não há como descrever de outra forma. Digo espetacular não por ser um fim grandioso, pois o que acontece é exatamente o contrário. Murdock perde, e feio, antes da edição final do arco, e mostrá-lo resignado, destruído, digno de pena de vilões precários ao final de tudo, dói. De certa forma, nem com as mortes de Elektra e Karen Page o espírito de Matt pareceu tão frágil.

E deixo aqui uma outra provocação: eu não consegui me recordar de uma edição, pelo menos recente, que o Espantalho faz com o Batman o que o Sr. Medo fez com o Demolidor. E a comparação é inevitável, trata-se de um plot já esgotado há muito tempo, mas que nas mãos de Brubaker tomou uma consequência realista e devastadora. Fiquei pensando se o genérico não superou o oficial…

daredevilsrmedo

Sem utilizar nenhum vilão clássico, sem imaginar qualquer grande trama, Brubaker marca seu nome na história do Demolidor utilizando os lugares comuns como pontos de referência para quebrar os alicerces do herói, o que fez completo sentido, inclusive, na continuidade do volume que começou com Kevin Smith. Talvez seja o volume mais catártico do herói. É uma afirmação que nem eu sei se concordo, mas sei que é possível comparar com o que Frank Miller estabeleceu, sem querer hierarquizar nenhuma das obras-primas.

A arte de Lark continua sóbria, acertando na noção espacial de cada quadro e apostando nos closes, principalmente, de Matt e Milla, paralelamente ao roteiro elucubrativo de seu parceiro. É algo, como já disse, que parece dever ao seu antecessor, mas que faz muito sentido dada a trama urbana contida, horizontal e pouco ascendente.

Em suma, é uma passagem que fica para história. Pensar que ainda falta um encadernado americano inteiro e que as consequências de tais ações são vistas até no genial terceiro volume, de Mark Waid, podem servir como alento aos que sofreram com a tragédia em si. Miller, Bendis, Brubaker: Não há como deixar de ler.

Demolidor Volume 2 – # 100-105
Publicação Original: 2006-2009
Roteiro: Ed Brubaker
Desenhos: Michael Lark e Paul Azaceta
Cores: Matt Hollingsworth, Stefano Gaudiano
Editora: Marvel Comics
Páginas: 200 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.